Rio de Janeiro
A razão do voto
Carlos Diegues

Pense bem no que você vai fazer no próximo fim de semana. Quer dizer, pense bem em como você vai votar no próximo domingo, em quem e porque.


Como todo mundo, tenho minhas preferências. Mas nem são aquelas de meus sonhos, as preferências com as quais sempre desejei ver o Brasil viver. Elas são apenas uma alternativa que o sábio regime de dois turnos nos dá a chance de escolher.  Confesso que não me entusiasmo muito com o programa de um, nem sei direito qual é o programa do outro. Mas sobretudo não gostaria que o Brasil passasse por um recuo comportamental como o que está sendo prometido pelo provável vencedor e seus apoiadores. Já foi tão difícil chegar até aqui!


Nesses dias antes do voto decisivo, não quero fazer proselitismo. Já o fiz no primeiro turno e não adiantou nada, meu candidato favorito ficou atrás dos dois que disputam essa final. Um montado na sela de um velho cavalo que já desapontou tanto o povo que o elegia; outro nos assustando, a prometer o demônio armado para conter nossos desejos inocentes. Um vestido de anjo, com a voz doce dos necessitados; outro ornado de fúria incontrolável, metralhando quem passar à sua frente.


Ainda prefiro o primeiro. Mas não é disso que quero falar aqui,  outros jornalistas, escritores e palpiteiros, sobretudo no mundo digital que tudo pode, o estão fazendo melhor do que eu, com muito mais argumento, empenho e sabedoria. O que quero falar aqui é dos quatro anos que se seguirão ao resultado eleitoral de domingo que vem. Durante esses quatro anos, um dos dois reinará sobre a população brasileira e é de seu comportamento que devemos cuidar. E para isso precisamos nos preparar.


Em primeiríssimo lugar, exigindo que o vencedor respeite a Constituição que nós todos, expressa ou implicitamente, juramos respeitar. Governar sem observar respeito à Constituição é como viver numa selva em que só a violência e o acaso decidem o que deve acontecer. Não se trata de mera formalidade que os governantes tratarão de interpretar ao sabor de seus interesses políticos e administrativos. Mas de uma necessidade sem a qual não saberemos como nos mover, as regras sob as quais o país sobrevive com alguma identidade e unidade de propósitos, um conjunto de condições sem as quais nada faz sentido, sem as quais não saberemos nunca onde fica o gol adversário e mesmo o nosso. Não levá-la em consideração é declarar-se perdedor, antes de o jogo começar.


Devemos supor que a Constituição traduz a cultura de nosso povo. Se precisamos mudá-la para nos alinharmos mais de acordo com a cultura de nosso povo, devemos propô-lo a ele mesmo. Pois só o povo tem o direito de mudá-la.


A cultura do povo que a Constituição deve representar é a soma de seus hábitos e costumes, dos meios que, ao longo do tempo, escolheu para viver. Mas não apenas o jeito majoritário de viver e sim todas as outras formas que, mesmo minoritárias, não signifiquem prejuízo para o outro. A verdadeira democracia é aquela que garante à maioria a liderança da sociedade e reconhece o direito das minorias se manifestar e viver do jeito que julgar mais apropriado, sem fazer mal a ninguém. Se no discurso dominante não houver pelo menos uma pequena probabilidade de o contrário estar certo, ele será sempre um discurso autoritário que não serve ao progresso da humanidade.


O Brasil tem potencialmente muito a contribuir com o progresso da humanidade. Fomos criados e nos desenvolvemos como nação com a soma de todas as nossas diferenças, a diversidade humana que nossa formação deve representar. Não só como raça, cor ou etnia, mas também com alternativas de toda natureza, em todos os campos, desde aqueles em que nascemos até os que construímos ao longo de nossa história. Não só devemos nos orgulhar dessa multiplicidade, como também nos esforçarmos para que ela se torne o caráter dominante do país.


Ao contrário do que diz e age a insensatez de alguns brasileiros inconformados com nossas peculiaridades,  é em nome delas que devemos nos comportar. Em nome sobretudo do respeito ao direito do outro ser diferente de nós e, afinal de contas, sermos todos iguais perante nós mesmos. É em benefício disso, desse sonho ideal, que devemos votar no domingo.


Volta