O Globo
A soma do que somos
Carlos Diegues

Este ano, a homenageada pelo Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, promovido pela Academia Brasileira de Cinema, foi Fernanda Montenegro, uma eterna síntese das qualidades dos filmes velhos e novos feitos no Brasil. Terça-feira passada, nossa grande dama recebeu seu Otelo, o troféu que lhe era devido, no palco da Cidade das Artes. A luz de seu talento, o mistério que a torna única, iluminou mais uma vez  a nossa atividade.


Segundo diz a Bíblia, todo ser humano é um templo vivo de Deus. Acho isso mais ou menos. Depende muito do ser humano em questão, tem uns que são mais templo vivo do que outros. Pega um bandido do tráfico de drogas, por exemplo. Tem uns que atiram por dá cá aquela palha, entendendo por palha o que a gente está mesmo imaginando.


Por outro lado, tem seres humanos que, mesmo que se queira plantar em sua fama alguns sórdidos pecados, nada pega. E não pega, não porque a má fama é inconsistente; mas sim porque a pessoa é que é consistente demais, não importa qual seja seu tipo de fama. Fernanda Montenegro é uma dessas pessoas.


Tecnicamente, Fernanda é uma atriz, deusa dos palcos, de todas as telas grandes e pequenas. E do que mais se venha a inventar para nos contar a vida de alguém. No Brasil ou por aí, poucas mulheres nos deram o que Fernanda já nos deu e continua a dar, incansável narradora de almas. Pode ser que Bette Davis ou Jeanne Moreau tenham chegado perto; como perto há de ter chegado Cacilda Becker. Mas Fernanda é só ela.


Cultura nacional é a soma de todos os hábitos, costumes, criações e invenções da população de um país. De tal modo que é pouco dizer-se que Fernanda Montenegro é uma atriz brasileira, nascida em tal lugar, no dia tal, do ano tal. Entre a pobreza do real e o exagero do sonho, ela nos mantém fiéis ao que gostamos de ser, ao que queremos ser. À soma do que somos.

Porque Fernanda vive e viverá para sempre, em cada um de nós e nos que vierem depois de nós, como a própria imagem ideal do Brasil e dos seres humano que vivem nele, no teatro ou na televisão, passeando por nossas pobres 4 mil salas de cinema. Ou ainda pelas 40.700 salas dos americanos, pelas 50.776 salas da China, pelo mundo afora afim de exibir o brasileiro.


O escultor Auguste Rodin dizia que as catedrais da França eram construídas como um corpo vivo. Então, digo eu, todo corpo humano é uma catedral. E o de Fernandona é a nossa basílica, a sede sagrada do que somos. Ela é que é imortal.


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Será que as desgraças do mundo estão aumentando ou são as notícias que agora chegam mais depressa, por todo tipo de canal, quase que em tempo real?


Essa semana, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) nos informam em relatório que, em 2017, mais de seis milhões de crianças com menos de 15 anos perderam a vida. Um pouco mais de cinco milhões dessas crianças tinham menos de 5 anos de idade.


Os motivos dos óbitos são quase sempre preveníveis e remediáveis. Mas as mortes ocorrem em regiões onde não há prevenção e aonde não chegam os remédios necessários, como a Africa Sub-Saariana e o sul da Ásia. O relatório diz que, a seguir assim, sem ação urgente, 56 milhões de menores de 5 anos morrerão no mundo até 2030.


Perto desses números fatais, parece até desimportante lembrar o crescimento da pobreza no Brasil. Hoje temos, em nosso país, 23 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza convencionada universalmente. A pobreza cresceu 33%, entre nós, nos últimos quatro anos, segundo a FGV  Social.


Esse crescimento do número de famílias vivendo abaixo da linha de pobreza faz crescer a desigualdade em nosso país, a um nível espantoso. Um nível em que certas medidas, ainda que positivas, como o Bolsa Família, já não conseguirão atenuar. A taxa de desemprego no país é uma das principais responsáveis (talvez a principal responsável) por nosso empobrecimento, nesses últimos  anos. E o índice de desempregados é bem parecido com os 33% da população que fizeram crescer o índice de pobreza. Até quando?


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