O Globo
O modelo das desigualdades
Carlos Diegues

Quando falamos do Brasil, a palavra que mais usamos, hoje em dia, é a palavra crise. Podemos enfeitar o papo com eufemismos mais classudos, tipo recessão, mas a ideia segue sendo a mesma. Queremos sempre nos referir ao que nos aconteceu, depois de 18 anos de justa esperança durante os governos de Itamar, FHC e Lula, quando o país crescia a uma taxa média de cerca de 5 a 7% ao ano.   


Quando Dilma Roussef sofreu o impeachment, a inflação já chegara a quase 10%, a taxa de juros a 15% e mais de 11 milhões de brasileiros estavam desempregados. Michel Temer assumiu o governo e, nos seus cerca de dois anos de mandato, esses números só fizeram se agravar, mesmo que à sombra de uma pequena recuperação da economia.


No resto do mundo, a coisa também anda feia, mas nem sempre pelos mesmos motivos. Na África, as guerras elevaram o número de crianças mortas por violência para cinco milhões em 20 anos, além da desnutrição e de doenças que estão sob controle em outras regiões do planeta. O que temos em comum com os países africanos é a absoluta desigualdade provocada pela falta de oportunidades para todos e pelas ideias que foram construídas sobre essa desigualdade.


As desigualdades cultivadas na sociedade brasileira, uma perversão que vem desde a chegada dos europeus por aqui, com sua economia baseada no trabalho escravo, podem acabar com a noção que nós pretendemos ter de nação. Nada impede que, seguindo em frente nessa trama nacional, um dia acordemos com a mais radical divisão social em nosso país, praticada através da expulsão dos indesejados ou de genocídios purificadores. Poderemos até pensar, quem sabe, na restauração da escravidão no país, como única solução para, digamos, a crise fiscal ou coisa parecida.


Cada vez mais nos convenceremos, na prática, de que os que possuem alguma coisa nasceram para viver graças às necessidades dos que não possuem nada. Uma espécie de princípio natural, um axioma da vida contra o qual não há o que fazer.


A cultura política no Brasil é baseada na ideia de que não somos responsáveis por nada. O crime foi sempre cometido pelo outro que veio antes de nós, que fez com que entrássemos no rumo da tragédia da qual não temos como escapar. E, como não temos mais como escapar dela, deixamos de tratá-la como tragédia. Nada mais iluminado para nossos olhos do que aquilo que não temos como evitar. Basta dormir em paz e, na manhã seguinte, acordar novamente com o relho na mão.


É assim, por exemplo, que tratamos a favela carioca, como tratamos outros quilombos pelo Brasil a fora, hordas de cidadãos de quinta classe, cujos direitos são iguais aos dos animais domésticos: a gente lhes arruma um cantinho para dormir, lhes dá de beber e de comer, o suficiente para que sigam servindo à nação. E a nação somos nós e nossas cada vez mais novas necessidades de um mundo novo.

Quando as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) foram criadas,  em 2008, José Mariano Beltrame, secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, seu criador, imaginava uma Polícia de Proximidade, um conceito de policiamento comunitário comandado pela população local. O modelo mais próximo era o de Medellin, na Colômbia, experiência bem sucedida contra a violência nas comunidades. As UPPs não eram eventuais invasões militares em busca de bandidos ou milicianos, mas um serviço público sob  controle dessas mesmas comunidades. As UPPs teriam um papel decisivo, atraindo (como atrairam) a entrada de outros serviços públicos indispensáveis e de projetos privados de caráter social, esportivo e cultural. As favelas produziriam sua própria economia, passariam a ser protagonistas de sua própria história.

Beltrame preparou policiais para a atividade, criou uma verdadeira escola militar paralela com a participação dos moradores que completariam as regras da corporação com as necessidades de cada favela. Mas o governo fluminense não estava de fato interessado nessa utopia de serviço público e a oposição não soube ou não quis compreendê-la. A experiência das UPPs terminou em menos de dez anos, após a instalação da última UPP, a 42ª, na Vila do João, no Complexo da Maré, em junho de 2015.


Assim como as UPPs acabaram, agora são os postos de controle do crescimento das favelas que estão sendo fechados. Acontece que os cidadãos dessas comunidades, que não são iguais a nós,  precisam de um lugar onde morar. Morar mal, mas morar.


Volta