O Globo
Para onde vamos
Carlos Diegues

Em vários países da América Latina, como no Brasil, uma onda autoritária e perigosamente obscurantista cresce no embalo de novas eleições. É como se o eleitor estivesse cansado de ideias, programas e partidos, como se ele agora só pensasse e reivindicasse o factual de sua vida, como a segurança. Chega, para ele, de ideologias; o que hoje interessa ao eleitor é comportamento e mentalidade.

O exemplo mais claro e sinistro disso nos veio do que aconteceu com os refugiados venezuelanos em Pacaraima, no Estado de Roraima. Sob o pretexto de revolta diante do assalto de refugiados a um comerciante brasileiro de quem tiraram sangue, a população da cidade caiu em cima dos venezuelanos acampados em beira de estrada, tocando fogo em tudo que lhes pertencia, inclusive documentos pessoais. A população local os expulsou da região com violência, cantando em coro o nosso Hino Nacional.

Embora seja o país de maiores dimensões no continente, o Brasil é o que menos recebeu refugiados venezuelanos. Países com menos recursos, como o Equador, ou mais distantes, como a Argentina, receberam o dobro de gente vinda da crise, da desgraça em que vivia na Venezuela. Para não falarmos nos recordistas Colômbia e Peru.

Não adianta levantar argumentos racionais ou impor decisões superiores do Governo Federal e da própria ONU, que anda implorando a todos os países do mundo para que dêem guarida aos inúmeros refugiados de guerra, fome e discriminação racial e religiosa, em  todos os continentes. Os intolerantes cantam o Hino Nacional com fé e confiança, certos de que esse nacionalismo absoluto é um instrumento para evitar a praga do estrangeiro. Uma garantia de que a terra é de quem já vive nela e não se pode deixar que seja pisada por quem não nasceu aqui.

Tenho muito medo desse “cansaço democrático”, como se refere a ele João Pereira Coutinho, citando David Runciman e seu livro “How democracy ends” (em tradução livre, “Como acaba a democracia”). Talvez estejamos vivendo essa experiência representada por uma imensa maioria desinteressada do futuro, dando suporte,  por inação e conveniência, a propostas de uma direita maluca que também não sabe para onde vai. O que se há de fazer?


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Semana passada, falei aqui do que considerei censura indireta ao filme “A Fadinha Lésbica”, de Sávio Leite, dada a não concessão, por parte da Ancine, do Certificado de Produto Brasileiro (CPB) que lhe permitiria cumprir a cota de tela a que as produções nacionais têm direito.

Viajando para o sul do país, escrevi minha coluna do dia 16 para o dia 17 de agosto, quando a enviei ao jornal. Nesse ínterim, a Ancine concedeu o CPB desejado pelos produtores do filme, naquele mesmo dia 17, o que tornou meu texto desatualizado. Tanto melhor, agora poderemos todos assistir à “Fadinha Lésbica”.

Segundo a resposta da Assessoria de Comunicação da Ancine a meu artigo, o CPB original da “Fadinha Lésbica” é de 8 de março de 2017. O efeito dessa classificação original  “é apenas a não contabilização da obra para fins de cumprimento de cota na TV paga, (...) não havendo qualquer vinculação com atos de censura”. Só que ninguém exibe um filme brasileiro que não cumpre cota.

Por isso, segundo o mesmo documento, “a empresa produtora encaminhou solicitação de alteração do enquadramento em 16 de agosto de 2018, o qual foi processado pela Superintendência de Registro um dia após, com a retificação da classificação  da obra para aquela solicitada”. Apesar da estranha rapidez na concessão do novo CPB, em apenas 24 horas, peço desculpa aos funcionários da Ancine por minha imprecisão, pela informação incorreta.

Para que não haja dúvida sobre o que me animou nesse episódio, reproduzo a seguir o texto do diretor do filme, Sávio Leite, em sua página no Facebook, uns dias depois:Gostaria de deixar claro que a intenção do cineasta Cacá Diegues de me ajudar, foi muito bacana. Durante o processo de alteração do status do CPB, houve muitas informações truncadas. Agradeço imensamente sua ajuda. Peço desculpas pelo mal entendido.”

Enfim, toda agência nacional é um instrumento da sociedade instalado no interior do estado, desde sua criação no governo FHC, até sua confirmação no de Lula. Tomara que a Ancine não acabe se tornando um pesadelo para os cineastas brasileiros.


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