Discurso na entrega do Prêmio Humanidade a Manoel de Oliveira, por ocasião da 28ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 4 de novembro de 2004.
Entrega do Prêmio Humanidade a Manoel de Oliveira
Carlos Diegues

Ao longo dessa Mostra, assistimos com muita alegria esse filme tão bom de se ver, "Bem vindos a São Paulo", feito por Renata de Almeida e Leon Cakoff.
Um filme que não é só um canto de amor a essa cidade incrível, mas também um belo testemunho da misturalhada brasileira, uma mistura de coisas que é tão radical em São Paulo e que é certamente o que tem de melhor no Brasil. Ali se vê juntos pretos e japoneses, alemães e italianos, árabes e judeus, e muitos outros etceteras, uma coisa que nos dá um potencial de contribuição à humanidade que, infelizmente, até agora não conseguimos realizar. Mas se um dia conseguirmos realizar esse potencial, o Brasil poderá contribuir para a civilização com um projeto muito mais fraterno, generoso e humano do que este mundo maluco que anda por aí.
Na base dessa misturalhada e desse projeto original, está nossa origem portuguesa, a cultura portuguesa, Portugal enfim. Pessoalmente, gosto muito de ser português, gosto muito que o Brasil seja português. Isso nos dá direito à diferença, o direito de sermos diferentes de todos, não só em nosso continente americano, como também no resto do mundo. E essa diferença fortalece e estimula nossa originalidade.
Hoje de manhã, vi esse lindo filme novo de Manoel de Oliveira, "O Quinto Império", um filme que me emocionou muito, baseado numa peça de José Régio, sobre o rei Dom Sebastião, um dos mitos fundadores da cultura portuguesa e, portanto, da nossa própria cultura. No final do filme, há um belíssimo diálogo entre o sapateiro-bruxo e Dom Sebastião, o Encoberto, o Desejado, quem viu o filme sabe de que cena estou falando. Durante este diálogo, o sapateiro diz algo ao rei que escrevi num pedaço de papel, para não citar errado. Ele fala de "quem tem o poder de conhecer os sonhos que os homens sonham".

Tenho certeza de que Manoel de Oliveira estava querendo se referir aos artistas em geral, ao papel dos artistas no mundo. E, sem saber, se referindo a ele mesmo, esse grande artista capaz de "conhecer os sonhos que os homens sonham".
Nós todos, que amamos o cinema, nos orgulhamos muito do cineasta que é Manoel de Oliveira, um pensador, um poeta, um artista universal, reconhecido no mundo todo como um grande mestre.

Mas nós, brasileiros, temos ainda mais um motivo especial para nos orgulharmos dele, porque Manoel de Oliveira é um pensador, um poeta e um artista que se expressa em nossa mesma língua e é uma jóia contemporânea dessa cultura que nos deu origem. E eu, pessoalmente, só posso sentir muito orgulho, só posso me sentir muito honrado, um privilegiado por estar aqui entregando esse prêmio a nosso grande mestre de todos nós, Manoel de Oliveira.

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