O Globo
Chega de brincar com fogo
Carlos Diegues

O crescimento da candidatura de Jair Bolsonaro, do PSL, à presidência da República, nos assusta. Se queremos evitar uma tragédia política, é preciso tomar uma atitude diante da perversão ideológica que estamos assistindo envolver a sociedade brasileira. Chega de folclore em torno do capitão-candidato, de considerá-lo uma anedota passageira, e compreender que, por trás do fenômeno, existe uma tendência de comportamento que corresponde ao desejo de uma parte da população.

Essa semana, Bolsonaro esteve no programa Roda Viva da TV Cultura e ali, entre outros absurdos, disse que o Brasil não devia nada a ninguém pela escravidão de africanos. Segundo ele, os portugueses  nunca puseram os pés em África, eram os próprios africanos que entregavam aos europeus seus inimigos locais como escravos. Mesmo que essa fantasia sombria fosse verdadeira, para onde esses africanos se dirigiam, onde se tornavam escravos e como escravos eram tratados por senhores brancos europeus ou de origem européia?

Ao longo de nossa história, 4,9 milhões de seres humanos viveram como escravos no Brasil. Foi sua escravidão que forjou o nosso racismo, a hipocrisia social e a insensibilidade de nossa sociedade em relação a seu estado. Da tradição escravocrata, nasceu a desigualdade radical de nossa sociedade.

O que Bolsonaro pensa e afirma está sempre ligado a essa tradição colonial, à concepção da sociedade estruturada em categorias de  superioridades que ninguém é capaz de desmontar. Uma organização de classes fruto de decisão divina que, por divina, não há como se opor a ela, muito menos corrigi-la. Suas poucas ideias pertencem a essa tradição, agora modernizada pela ignorância irresponsável e intolerante das redes sociais.

Bolsonaro repete sempre, com palavras simples e objetivas, os bordões dos preconceitos originários de anedotas e hábitos de botequins de estrada. Não existe fundo no que ele diz, só forma; um jeito de dizer as coisas que todo mundo entende do que se trata e pode se identificar com a grossura liberada. É como se estivéssemos vendo o mal desastrado, do qual sempre rimos escondidos, se tornar uma lógica eleitoral, impregnada numa cultura onde não há tempo para pensar.

Já procurei muito mas nunca encontrei o programa de governo de Bolsonaro e de seu partido. Entre as coisas que diz, sempre muito veloz para que não tenhamos tempo de pensar sobre elas, só vejo conversa de maloqueiro sobre sexo e vizinhos. Umas conversas boas para quem tem preguiça de pensar e se vinga dos que pensam, eliminando  o que considera pura mitologia em torno de cada assunto. Conversas de quem odeia a dúvida e o mistério, esses inimigos do bem estar medíocre.

Em geral, o cidadão quer saber dos candidatos o que farão no posto para onde estão sendo votados. Mas, no caso de Bolsonaro, o que vemos é a ascenção de um novo tipo de eleitor que, mais do que interesse por programas, quer mesmo é saber como seus candidatos se comportam diante das novidades morais do mundo. Bolsonaro não tem programa de governo; mas tem uma vastíssima coleção de críticas e adesões a comportamentos.

Quando as pessoas ficam de saco cheio das explicações sobre os tantos erros que afetam suas vidas, escolhem sempre o método dominante como culpado de seus males. E porque não entendem, nem fazem questão de entender o que se passa, elegem a razão e o conhecimento como inimigos, põem a inteligência fora de moda. Quando você fica cansado de uma viagem desconfortável que parece não ter mais fim, perde a noção do valor de para onde vai, não se importa mais com o destino. Tanto faz. Quando Bolsonaro ensina o bebê a usar uma arma de fogo, ele está dizendo que ninguém tem nada a ver com a vida desimportante do outro. Esse mundo foi feito para nós, os que, se for preciso, sabemos eliminar o que nos incomoda.

Numa democracia, direita e esquerda têm todo o direito e até a obrigação de se manifestar, a população precisa conhecê-las para saber a quem deve seguir. Mas o que Bolsonaro diz é apenas bárbaro. E a barbárie é um estágio da sociedade humana muito anterior à democracia, não sabe conviver com ela.

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