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O Globo
O país do futebol
Carlos Diegues

Talvez eu esteja enganado e vocês se assustem com o que vou dizer, mas acho que essa Copa do Mundo que se encerra hoje, na Rússia, foi muito importante para os brasileiros. Uma importância positiva para o nosso futuro.

Não quero que o Brasil deixe de ser o país que ama o futebol, não ligo para os hipócritas e mal-humorados que se incomodam com isso. O futebol é uma arte inigualável, uma proposta de movimento humano que se aproxima  muito de tanta coisa que ficou combinado que deve merecer elogios. Como a dança, por exemplo. O futebol não é uma brincadeira sem princípios ou destino, mas a execução de um sistema de efeitos e resultados múltiplos que se parecem muito com o esforço que o ser humano faz para sobreviver desde sempre.

Sempre gostei da versão de que o drible fora foi uma invenção de nossos filhos de escravos que, no final do século XIX, completavam a escalação dos times formados pelos filhos da elite inglesa no país. Como eles não podiam reclamar das faltas do adversário poderoso, os negros desses times inventaram o drible para escapar da violência dos filhos de senhores.  

Como na vida humana, o futebol não se resolve apenas com o exercício de um desejo, da criação de estratégias e de táticas que inventamos para sermos bem sucedidos. Ele depende também do acaso, da possibilidade da jogada não se resolver do modo que planejamos. Podemos não fazer o gol que imaginamos, assim como podemos sofrer o gol que fizemos tudo para evitar. No futebol, a vontade dos atletas nem sempre é obedecida pela sorte em campo.

Só para dar alguns exemplos, a Holanda dos anos 1970, que reinventou o futebol, inventando um outro modo de jogá-lo, de um outro jeito muito mais belo e eficiente do que o até ali praticado, nunca foi campeã do mundo e teve poucos resultados da mesma  envergadura em outros torneios internacionais. E o Brasil de 1950 ou de 1982 era muito melhor do que o Brasil campeão de 1994.

Não se trata apenas da “sorte” vulgar que se pode ter num jogo, dessa proteção metafísica que atribuímos muitas vezes a deuses, santos e forças semelhantes. Trata-se de uma característica imprevisível, alguma coisa que se parece muito com a própria imprevisibilidade de nossa vida, um acaso que pode nos negar o sucesso quando mais o merecemos. Ou, ao contrário, nos premia quando menos merecemos o prêmio. Não tem exercício físico, treinador competente, sábia estratégia ou craque absoluto que impeça esse acaso e sua cruel vitória em campo. Por isso que o futebol é tão belo e nos incomoda tanto. Porque não basta saber jogar.

Sempre fomos o melhor do mundo no futebol, sempre que fomos também o país do futuro. Não ganhar todas as Copas sempre foi uma maneira da história tratar nosso país de um modo injusto e errado; assim como sempre foi injusto e errado que aquele futuro não chegasse nunca. Vivemos nosso presente nos braços de um futuro que não chegava nunca, alimentados e  protegidos pela ilusão de sua certeza. Ou seja, para nós não fazia mal que estivesse tudo uma merda, gozaríamos um dia nosso formidável futuro. Essa crença absoluta no futuro nunca era baseada em dados reais, objetivos e científicos, estatísticas irrecusáveis; mas em suposições, mitos e fé absoluta.

Recentemente, tomei um susto quando me referi ao acaso que levou os mergulhadores ingleses a descobrir os Javalis Selvagens presos na caverna da Tailândia, e ouvi de volta a explicação de um brasileiro nem tão religioso assim. Ele me disse que eu estava enganado, que as crianças tailandesas eram doze como os discípulos de Cristo e mais um treinador, o Mestre como o próprio Jesus. Em suma, a caverna da Tailândia era um recado que o Senhor estava querendo nos enviar sobre o fim do mundo. Talvez a reprodução da última ceia, digo eu, antes que todos acabassem num hospital perto de Tham Luang.

Essa Copa de 2018 nos encontrou num momento difícil da vida nacional. Ninguém tem mais a ilusão de que tudo isso acaba já, que o fim da crise está no horizonte e o país vai se reerguer em curto prazo, a se rir do susto que passou. Para a população, estamos vivendo um fim de caminho que ninguém sabe aonde vai dar. Não é apenas o desemprego, a inflação e os preços subindo que nos incomodam, como no passado; mas a própria natureza da nação, o desmantelamento de sua estrutura politica, econômica e moral, que vai nos obrigar a mudar de costumes, a mudar nosso jeito de ser, antes que as ruínas caiam sobre nossas cabeças.

Nosso pensamento sobre o que aconteceu na Rússia está atrelado a esse sentimento geral. Nossa seleção é apenas um time de futebol, o esporte que amamos tanto e vamos continuar a amar. Nossos rapazes jogaram o que sabiam jogar, e nem por isso nos envergonharam. Nosso orgulho ainda não nos deixa desejar trocar Coutinho, Casemiro ou Neymar por Modric ou M’Bappé. Mas não somos e não queremos mais ser o país do futebol, muito menos o país do futuro. Somos o que somos e podemos ser, construindo com os pés no chão aquilo que precisamos. Com ou sem sucesso no futebol.


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