O Globo
Essa ilusão à toa
Carlos Diegues

Como sempre, estou escrevendo na sexta-feira. E, nessa sexta-feira, não tem Copa. Pensei que íamos então descansar daquele clima de exaltação, daquela tensão que todos nós nos acostumamos a amar tanto. Bobagem. Tensão, exaltação e tudo mais, só nos abandonarão depois do dia 15, na ressaca desses dias animados. Mesmo assim, vai depender muito do resultado final.

Antes de a Copa começar, achei que os únicos brasileiros que iriam se excitar com  ela seriam os que, por dever de oficio, estão na Rússia para cobrir os acontecimentos. Aquilo que ocorreria a nossos craques e aos craques dos outros. Jurava que ia ser uma Copa fria para o país, chamei-a até de “melancólica”, aqui mesmo nesse espaço de jornal. Mas, embora Hegel, por exemplo, não acreditasse muito nisso, o real é capaz de modificar nossa razão. Dito de outro modo, nada é mais forte que o real para fazer nossa cabeça.

E o real, em Sochi, Rostov, São Petersburgo, Moscou, ou qualquer  outra cidade russa pela qual passamos para jogar ou viver, nos pegou desprevenidos, acelerou nossos corações, perturbou nossos nervos e nos deixou naquele estado que experimentamos em outras Copas. Antes nuas, nossas ruas e praças se encheram paulatinamente de símbolos e  bandeiras. E soaram todas as batucadas. Não quero dizer, nem posso jurar, que passamos a amar irrestritamente nosso time, nosso hino, a bandeira ou o próprio Brasil, razão de tantos desgostos recentes e ainda em vigor. Mesmo porque, nessas outras Copas que nos deram tantas alegrias, começamos sempre desconfiando de nós mesmos e do que poderíamos conseguir.

Eu sei, é difícil amar uma camisa que representa uma nação que está se desmilinguindo, em um amarelo de vergonha pela nossa injustiça social, pela corrupção e pela violência que nos dominam, pela polarização boçal entre nossos patrícios mais inteligentes que não conseguem nos oferecer uma saída. Não podemos amar aquilo que nos faz sofrer.

Mas, de repente, aprendemos a perdoar os exageros de Neymar, cantamos a capela o resto do hino que o protocolo do evento escondia da gente, ficamos até comovidos quando aqueles meninos e meninas abriram o pano e expuseram a enorme bandeira do Brasil sobre o campo onde jogaremos daqui a pouco. Não é propriamente que estejamos  orgulhosos do lugar de onde viemos. Não é porque enchemos o peito para dizer quem somos. Não é nem porque, aos poucos, de jogo a jogo, vamos acreditando outra vez na possiblidade de ganharmos essa Copa, como ganhamos as outras cinco. Mas apenas porque, tudo isso somado, diante do que somos, nos lembramos do que gostaríamos de ser.

Porque o Brasil não é, e acho que nunca foi, um projeto de futuro objetivo, embora seja, há muitos anos, há décadas mesmo, quase há um século, conhecido como o país dele. Um país do futuro.

Quando vejo cada país com seu time em campo, dos franceses aos japoneses, dos ingleses aos senegaleses, dos belgas aos panamenhos, de quase qualquer outra cidadania ao seu contrário, vejo antes de tudo um projeto, realizado ou não, que se traduz por um estilo de vida preciso, uma maneira de ser no mundo que, mesmo que eventualmente frustrada ou ainda inalcançada, dá sentido ao que eles pretendem.

O Brasil, não. O Brasil nunca foi um projeto com essa precisão, essa clareza toda. O Brasil sempre foi uma ilusão, construída por nós mesmos e sustentada por todos nós em diferentes momentos de nossa história.

Nossa vantagem é que o projeto é sempre uma coisa do futuro (quando se batalha por ele) ou do passado (quando ele fracassa). A ilusão, não. A ilusão é uma matéria do presente que pode nos enganar, mas que mantém intacta a esperança de sua materialidade. A ilusão nos trouxe até aqui, desde que os europeus aqui chegaram e disseram que em se plantando tudo dá, até a invenção desse futebol irresistível que é pensado como se fosse voluntária construção cultural de um povo. A ilusão do Brasil, desse suposto jeito de ser, é o nosso maior soft power.

Ontem, sábado, a Copa foi retomada. Não conheço os resultados, mas não gostaria que a Argentina fosse eliminada, como o foi a Alemanha. Tanto uma, quanto outra, são seleções que sabem o que querem e nos ensinam a querer também. Não tenho coragem de torcer contra essa vontade, a não ser quando jogam contra o Brasil. Aí escolho a ilusão e vou vivendo desse afago.

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No domingo retrasado, cometi um erro pelo qual peço humilde perdão. Na Copa do Mundo de 1950, o narrador do jogo final na rádio Nacional não era Oduvaldo Cozzi, como escrevi ali. Mas Antonio Cordeiro, um locutor sereno e elegante, de quem nunca mais ouvi falar.  Ah, a memória.


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