O Globo
Um herói generoso
Carlos Diegues

Eu já tinha começado a escrever sobre Roberto Farias, o grande cineasta brasileiro falecido segunda feira da semana passada, dia 14, quando soube da história do TCU com a Ancine. Essa crise (mais uma!) me pareceu urgente ou simplesmente me enfureceu depressa; acabei escrevendo sobre ela, considerando que não seria nunca tarde para celebrar um herói.


Pois isso é o que Roberto Farias foi para o cinema brasileiro das últimas sete décadas. Um herói.


Roberto se interessara por cinema pelo prazer e pelo desafio da profissão, sem os motivos intelectuais e revolucionários do seu contemporâneo Cinema Novo. Na Atlântida, nossa maior produtora de filmes populares, Roberto seria, desde 1951, assistente dos melhores diretores da casa até fazer seu primeiro filme, “Rico ri à toa”, comédia com intenções sociais estrelada pelo genial Zé Trindade, o cômico de quem Paulo Emílio Salles Gomes diria que ensinou o cinema brasileiro a falar nossa língua cotidiana.


Em 1960, Roberto realiza “Cidade ameaçada”, um policial que despertou nosso interesse pelo próprio filme e pelo que seu realizador ainda poderia vir a fazer. Uma expectativa premiada com “Assalto ao trem pagador”, de 1962, uma obra prima daquele momento pré-Cinema Novo.


Glauber havia aproximado Roberto Farias de Luiz Carlos Barreto, que acabou trabalhando no roteiro do “Assalto ao trem pagador”. Com o sucesso do filme, José Luiz de Magalhães Lins, patrão do Banco Nacional, pedira à dupla para ver o material já filmado de meu primeiro longa-metragem. O Banco Nacional criara uma linha de financiamento para o cinema, com a qual muitos filmes do Cinema Novo foram produzidos. Roberto e Barreto deveriam avaliar a concessão do empréstimo que eu pedira ao banco para finalizar “Ganga Zumba”, paralisado por falta de recursos. Roberto trabalhou a sério na missão, viu algumas vezes o que já estava filmado, deu palpites e conselhos, até defender junto ao banco,  com a solidariedade de Barreto, a concessão do empréstimo pedido.


Se a intervenção de Roberto no caso do Banco Nacional tinha permitido minha estreia no longa-metragem, sua reação diante de “A grande cidade”, meu segundo longa e um dos primeiros filmes distribuídos pela Difilm, a empresa distribuidora do Cinema Novo, da qual ele era um dos responsáveis (mais uma vez, ao lado de Barreto), foi para mim uma espécie de consagração profissional. Nunca me esquecerei de seus olhos marejados e da sincera emoção em seu rosto quando, depois da primeira projeção do filme, me disse que “agora tinha certeza de que eu era um cineasta brasileiro, no mesmo nível de outro qualquer”. E carinhosamente me elegeu seu colega.    


Em meados dos anos 1970, Roberto Farias se tornaria, por força das circunstâncias que nunca se negou a aceitar, o maior gestor da história de nosso cinema, um herói na liderança de nosso cinema durante a ditadura, mesmo tendo que abrir mão de preferência pessoal por produção e direção. Ele se tornaria então presidente da Embrafilme.


À frente da Embrafilme, Roberto seria responsável por um dos períodos mais ricos do cinema brasileiro, tanto do ponto de vista do sucesso de público, quanto da qualidade dos filmes reconhecida internacionalmente. Quando Roberto chamou Gustavo Dahl para montar a distribuidora da empresa, completou o processo financeiro da produção, sem condições estilísticas, ideológicas ou políticas que a limitassem. Não raro, acontecia de o filme sair produzido do Ministério da Educação e Cultura (MEC), do qual a Embrafilme dependia, e ser proibido pelo da Justiça, onde se encontrava a Polícia Federal e a censura.


A rica história da Embrafilme, enterrada pelo rancor de um presidente despreparado, como Fernando Collor, precisa ser recuperada para servir de exemplo do que ainda pode ser feito (ou não) pela atividade. Além dos títulos dos quais participou (“Xica da Silva”, “Dona Flor e seus dois maridos”, “Guerra conjugal”, “Memórias do cárcere”, “A idade da terra”, “Pixote”, “Gaijin”, “Eu te amo”, “Pra frente, Brasil” e tantos outros), a Embrafilme, sob o comando de Roberto Farias, conseguiu atingir uma média de 22% da totalidade de espectadores no Brasil. Esse market share, em 1978, chegou a 35%. Depois da Embrafilme e de Roberto Farias, nunca mais conseguimos nos organizar para atingir esse resultado.


Ao falecer, Roberto era presidente da Associação Brasileira de Cinema que ele ajudara a fundar, sua última contribuição à organização e gestão de nossa atividade. Além de sua obsessão por filmes de qualidade que chegassem ao grande público, Roberto Farias foi um exemplo de solidariedade e generosidade, numa atividade que precisa muito dessas virtudes tão raras.  


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