Discurso de recebimento do troféu Eduardo Abelin pelo conjunto da obra, em 20 de agosto de 2003.
Festival de Gramado
Carlos Diegues
Esse troféu se chama Eduardo Abelin, em homenagem ao pioneiro gaúcho do cinema brasileiro, e é concedido em reconhecimento a alguém por seu trabalho pelo cinema brasileiro. Portanto, devo começar agradecendo a todos aqueles que fizeram do cinema brasileiro uma coisa viva e digna de nosso orgulho e de nosso respeito.
Muito obrigado a Mário Peixoto, Humberto Mauro, Ademar Gonzaga, Alberto Cavalcanti, Lima Barreto, Glauber Rocha, Roberto Santos, Joaquim Pedro de Andrade, Luis Sérgio Person, Leon Hirszman, David Neves, Walter Hugo Khoury e tantos outros que construiram a grandeza do cinema brasileiro e cujo trabalho permitiu que estivéssemos aqui esta noite, todos nós, de mim ao mais jovem realizador de curta-metragem.
Agradeço também a todos que trabalharam comigo nos filmes que fiz, aos artistas, técnicos e intérpretes que colaboraram com eles. Vejo aqui, na platéia, alguns deles, como minhas queridas irmãzinhas Zezé Motta e Bete Faria. Por coincidência, estão também aqui presentes os dois atores com quem mais trabalhei na vida, aqueles com quem mais filmes fiz, meus queridos amigos José Wilker e Antonio Pitanga.
Peço desculpas se houver mais alguém por aí que não citei, é que não estou vendo a todos.

Como no amor, fazer um filme é um ato que só se completa plenamente quando todos nele envolvidos sentem prazer, dos que o fazem aos que o assistem.
Agradeço a presença aqui, esta noite, de minha filha Isabel e de seu marido Pedro, ambos igualmente cineastas. Os dois estão também representando meus outros três filhos, que não puderam vir.
Muito obrigado pela presença deles aqui e pela presença deles na minha vida.
Como agradeço também a Renata Magalhães, minha mulher e minha produtora, sem a qual portanto eu não seria nada na vida, nem em casa, nem na rua. Há 22 anos que Renata vem lançando uma luz muito intensa na minha vida. Muito obrigado a ela.

Eu tive a sorte de fazer alguns filmes que foram premiados no Brasil e no exterior, mas nenhum desses prêmios me provocou a mesma emoção que sinto hoje. Eles eram prêmios específicos a um determinado desempenho meu, num filme ou em outro. Mas esse prêmio de hoje está me sendo dado pelo festival de cinema mais importante do país em reconhecimento a meu trabalho como cineasta brasileiro.
E eu me orgulho muito de ser um cineasta brasileiro, é uma das coisas de que mais me orgulho na vida. Um orgulho sempre renovado, como o renovo agora, quando estamos vivendo um período de tanto brilho e esperança em nosso cinema. Na minha idade, a gente já pode dizer umas coisas sobre a vida sem parecer ridículo ou pedante.
E o que eu queria dizer é que, embora tenha muito orgulho de tudo que fiz na vida, não tenho nenhum nostalgia do passado. Como também não tenho vontade de enviar nenhuma mensagem ao futuro. A idade de ouro não está no passado ou no futuro, mas no tempo que nos foi dado viver, a cada um de nós. E nós temos a obrigação de viver esse tempo intensamente, como se estivesse tudo começando agora. Muito obrigado ao Festival de Gramado.

Muito obrigado a vocês todos.
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