O Globo
As ideias de maio de 68
Carlos Diegues

As circunstâncias que produziram o fenômeno de maio de 1968 não se repetirão nunca mais, muito menos agora ou em breve. Mas o que ele significou, o que maio de 68 foi no momento em que ocorreu, não pode ser esquecido.


Por mais que nossa excitação intelectual tente ressuscitá-lo, maio de 68 será sempre apenas uma lembrança de diferentes matizes para os que o viveram ou um sonho para os que imaginam o que ele tenha sido. Em qualquer dos casos, não podemos deixar de pensar no que ele quis dizer para todos nós, os que o vivemos ou não. O que maio de 68 representou para uma ideia de humanidade.


A data do evento é um equívoco gerado pela enorme repercussão dos acontecimentos em Paris, naquele mês e naquele ano.  Mas, desde o ano anterior, sobretudo em Chicago e Berkeley, os universitários americanos estavam se mobilizando, com a mesma independência, diversidade e radicalidade do que aconteceria depois na França.  Eles punham em questão o modo de vida americano, praticavam a subversão da contracultura, defendiam os sagrados direitos civis e contestavam o regime capitalista do país, enquanto se manifestavam pontualmente contra a guerra no Vietnam. E o Vietnam não era uma ideia, nem um conceito. Mas dolorosa realidade concreta que tinham todos que enfrentar.


No Brasil, nosso maio de 68 começou em março daquele ano, quando os estudantes lideraram uma saída às ruas para protestar contra o assassinato do secundarista Edson Luiz, no restaurante estudantil do Calabouço. Antes disso, na Argentina e no Uruguai, movimentos semelhantes eclodiam, sempre contra o autoritarismo militar nesses países. Em datas variadas desses anos finais da década, sobretudo de 1967 a 69, surgiam também os movimentos de libertação de países do Leste Europeu, vítimas da dominação soviética.


Se, nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, o fenômeno era social, político e cultural, no Brasil ele quase que se limitou à nossa tragédia específica – a da ditadura militar que se instalara em nosso país em 1964 e que, no final do ano libertário de 68, se tornaria ainda mais cruel e autoritária, por força do Ato Institucional nº5.  A pouca referência ao mundo exterior se resumiria ao aparente sucesso da Cuba socialista e ao mito da revolução permanente do Che, morto no ano anterior, no interior da Bolívia.


Se interrompêssemos uma daquelas passeatas de estudantes, artistas e profissionais liberais que se manifestavam corajosamente, nas grandes cidades brasileiras, contra a ditadura militar, dificilmente ouviríamos queixas tão míticas e poéticas, como aquelas dos slogans tipo “é proibido proibir”, “decretado o estado permanente de felicidade”, “a imaginação no poder”,  “seja realista, exija o impossível”. E mesmo lá, onde esses slogans foram criados, no fim do mês de maio os operários em greve abandonavam os estudantes sozinhos. Mais de um milhão de franceses tomavam os Champs Elysées pedindo a volta do general De Gaulle ao poder.


Restou, na França, uma atualização da contestação a novos temas, como a ecologia, o amor sem posse, a luta contra o racismo e contra a homofobia, e por aí vai. Ouvi então de um cineasta francês, apenas um pouco mais velho do que eu, a observação de que essa nova temática era um desvio de fascistas e conservadores disfarçados que, desse modo, afastavam os jovens da verdadeira e única questão realmente revolucionária – a luta de classes.


Mas as ideias que perpassaram maio de 68, em qualquer lugar do mundo, estarão sempre à nossa disposição para pensarmos o futuro da humanidade. Ou, sendo menos audaciosos, nossa própria felicidade.


Pois o mito de maio de 68, em qualquer canto do mundo, foi, antes de tudo, o resultado de ideias que a humanidade e seus pensadores desenvolviam há cerca de vinte anos, desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Foi seu desenlace, em benefício de quem e do que ela foi feita, que impôs o obsessivo desejo coletivo de democracia e seu equivalente individual, a liberdade pessoal. Os hippies na América, os libertários de Paris, os nacionalistas do Leste Europeu, os jovens que lutaram contra as ditaduras na América Latina, todos esses militantes da felicidade coletiva estavam iluminados por uma missão: viver uma vida mais humana e, portanto, tornar a humanidade mais feliz.


Os líderes políticos convencionais tiveram que esconder de nós sua avareza de ideias, sua falta de generosidade. Tiveram que enganar seus eleitores potenciais, propondo o que não era exatamente o que queríamos e nem o que pensávamos. Erramos tanto tomando tais rumos, qu

e eles não precisam mais disfarçar. Agora, para nós, o mundo está cercado de névoa, mal distinguimos o caminho que andamos percorrendo. As ideias de maio de 68 se tornaram uma utopia em que não nos reconhecemos mais. E,  no entanto, sempre estará a nosso alcance pensar sobre elas.


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