Resumo do depoimento dado em 8 de junho de 2000
Sub-comissão de Cinema do Senado.
Carlos Diegues
Estamos vivendo, no Brasil, um período de fértil produção cinematográfica, graças à Lei do Audiovisual que, desde 1994, permitiu a retomada da produção de longa-metragens no país. Mas o cinema brasileiro nunca foi uma atividade permanente, sempre vivendo de ciclos como este que se abrem com muita euforia, fechando-se, depois de um certo tempo e quase sempre subitamente, no meio de uma crise que não é nunca provocada pela falta de qualidade dos filmes.

Só em meu tempo de vida, por exemplo, assisti ou participei de muitos destes ciclos, "retomadas" como a chanchada carioca, a Vera Cruz, o Cinema Novo, a pornochanchada, a Embrafilme, o novo cinema paulista dos anos 1980, etc., todas anunciando, cada uma a seu jeito, a implantação definitiva de uma indústria de cinema no país. A Vera Cruz fechou suas portas, enquanto "O Cangaceiro" ganhava um prêmio no Festival de Cannes e conquistava as platéias de todo o mundo. O Cinema Novo foi golpeado pela ditadura militar, no momento em que filmes como "Macunaíma" confirmavam sua excelência estética, agora aliada ao sucesso popular. A Embrafilme foi desmontada quando batia o recorde de ocupação do mercado pelo produto nacional, além de acumular prêmios internacionais, de "Dona Flor e seus Dois Maridos" a "Memórias do Cárcere".

Essa dificuldade em se instalar como atividade permanente, tem sido constantemente atribuída ao fato de o cinema ser uma economia nova, portanto meio desconhecida, cheia de fatores inesperados, ainda fora de nosso controle. Mas o cinema já tem mais de cem anos de existência entre nós, desde a primeira década do século passado que somos um país produtor de filmes, em alguns momentos até com uma certa importância no mundo. A verdade é que o cinema não é uma economia nova, mas sim uma das mais sofisticadas e complexas da história contemporânea, exigindo flexibilidade, imaginação e diversidade permanentes, mesmo nos países em que ela já se implantou com uma certa solidez. As dificuldades se agravam nos países onde essa economia, além da sofisticação e da complexidade, ainda é pobre e precária. Como no nosso.

À exceção dos Estados Unidos (apenas para alguns filmes independentes de muito baixo orçamento), nenhum outro país do mundo possui um mercado interno de salas de exibição capaz de manter uma indústria cinematográfica lucrativa, recuperando ali o investimento da produção. Teoricamente, dado o tamanho de sua população, o Brasil seria um dos poucos países a poder contar apenas com seu mercado interno para pagar o custo de sua indústria cinematográfica.

Mas, apesar de nossos 160 milhões de habitantes, vendem-se aqui somente cerca de 70 milhões de ingressos/ano, para um universo de mais ou menos 10 milhões de consumidores. Ou seja, apenas 6% da população brasileira vai ao cinema, em cerca de 1.400 salas de exibição (somos o penúltimo país do mundo, em número de habitantes por sala de cinema). Para se ter uma idéia da miséria desses números, basta lembrar que, com apenas 50 milhões de habitantes, vendem-se na França 155 milhões de ingressos/ano, em cerca de 4.000 salas. Quanto ao gigante americano, com 300 milhões de habitantes, vendem-se nos Estados Unidos uma média de um bilhão e 300 milhões de ingressos/ano, em aproximadamente 24.000 salas.

Não foi, como se costuma afirmar, o advento da televisão como lazer popular hegemônico que levou a freqüência ao cinema em nosso país a níveis tão baixos. De um modo geral, em quase todos os países do mundo, verifica-se um crescimento da freqüência em relação há 30 anos atrás e uma estabilidade muito grande a partir da última década. Inclusive nos Estados Unidos, país que lidera, a enorme distância do segundo colocado, a relação entre número de habitantes e aparelhos de televisão. E onde, como se sabe, se faz a televisão mais socialmente influente do mundo.

No Brasil, a queda violenta da freqüência ao cinema começa justamente em meados da década de 1980, agravando-se a partir daí até chegar aos níveis de hoje. Ela atinge sobretudo as camadas populares do país - os cinemas que se fecham por falta de público, se encontram nas pequenas cidades do interior, nos bairros pobres e na periferia das metrópoles. O público deixa de ir ao cinema com o agravamento da recessão econômica e sua conseqüente, crescente e perversa concentração de renda, que exclui a grande maioria dos brasileiros do consumo contemporâneo. Quando mal se tem dinheiro para viver, o que primeiro se corta do orçamento doméstico é o lazer, sobretudo aquele que pode ser substituído por um outro mais barato.

Pois justamente esse público que deixou de ir ao cinema, é aquele que tradicionalmente sempre fez o sucesso de nossos filmes, em todos os ciclos anteriores – o público popular que se deseja ver representado na tela sempre foi, histórica e estatisticamente, o público por excelência dos filmes brasileiros. Transformado em lazer típico de classe média, o espetáculo cinematográfico, entre nós, foi absorvido pela cultura de "shopping-center", destinado exatamente à parcela da população que, alimentada por sonhos e ficções de um "primeiro mundo" hipotético, se recusa a reconhecer e se introduzir em nossa realidade, tem dificuldade em assumir sua identidade cultural brasileira, condição ontológica do audiovisual produzido em nosso país..

Em todo o mundo, de um modo geral, apenas cerca de 25% da receita total de um filme vem de sua renda nas salas de exibição. Os outros 75% são realizados nos chamados mercados ancilares, as inúmeras formas alternativas de difusão que conhecemos hoje, sobretudo as televisões aberta e a cabo, mas também o homevideo, o laserdisc, o dvd, a crescente importância da Internet e o futuro digital.

Mas, no Brasil, nossos filmes estão condenados a apenas aqueles 25% de sua renda potencial, já que os mercados ancilares estão todos neutralizados pela ausência de consumo popular e não temos acesso às televisões aberta e a cabo, núcleos prósperos da economia do audiovisual e da publicidade. Quando raramente nos dão a oportunidade desse acesso, somos obrigados a aceitar preços vis e humilhantes, que nos são oferecidos sob o pretexto de que é isso o que se paga aos filmes americanos. Registre-se, aliás, que nas pouquíssimas ocasiões em que filmes brasileiros são exibidos nas redes nacionais têm quase sempre alcançado, exatamente pelo caráter popular do público dessas redes, índices de audiência impressionantes, comprovados pelos números do IBOPE, à disposição de todos.

Os filmes brasileiros estão, portanto, condenados a se dirigirem a uma parcela de apenas 6% de nossa população e, dentro deste espaço restrito, ainda devem contar com apenas 25% de sua renda potencial. E, em nenhum dos dois casos, são os cineastas responsáveis por tal situação.

A Lei do Audiovisual permitiu a retomada da produção de longa-metragens no Brasil, mas não garantiu a existência social deles, pois não contempla a questão de sua difusão. Hoje, todos têm consciência de que o nó da questão da economia cinematográfica está na distribuição e não na produção. Para compreender esse axioma, basta refletir sobre o fato de que a produção não gera necessariamente distribuição, enquanto a distribuição sempre gera produção. Não adianta produzir filmes, se não há uma estratégia de intervenção no mercado. Na melhor das hipóteses, a Lei do Audiovisual poderá estar apenas inventando a maior indústria mundial de filmes inéditos.

Para intervir no mercado de modo significativo, é preciso que haja poder político ou poder econômico. A Embrafilme, por exemplo, tinha os dois – além do aval coercitivo do Estado, ela produzia uma quantidade diversificada de filmes que lhe permitiu chegar a ser, durante vários anos, a segunda distribuidora em faturamento no Brasil. Foi essa política de distribuição que fez com que a Embrafilme se tornasse um fator decisivo na ocupação do mercado - no tempo dela, os filmes brasileiros chegaram a uma fatia média de 35% do mercado, com picos de 40 a 45%, em certos anos da década de 1970. Para se ter uma idéia da grandeza desses números, basta lembrar que o cinema francês, aquele que enfrenta com melhores resultados a hegemonia americana, detém hoje cerca de 25% de seu próprio mercado nacional.

Agora, imagine-se você dono de um supermercado que tem dois fornecedores de sabonetes. O primeiro lhe entrega um caixa de sabonetes a cada semana; o segundo, uma caixa a cada semestre. Qual das duas marcas de sabonete os seus fregueses consumidores encontrarão mais regularmente em seu supermercado? Como conseqüência, qual delas você vai expor na melhor prateleira, com o melhor destaque possível, contando com sua maior boa vontade?

Assim também se dá no cinema – o mais aguerrido, competente e regular produtor brasileiro não é capaz de oferecer ao mercado mais do que um filme a cada ano e meio, dois anos; portanto, ele não será nunca um fornecedor importante e preferencial para o exibidor que precisa de cerca de 35 a 40 filmes por ano, para manter em atividade cada uma de suas telas. Mesmo que o produto brasileiro seja um recordista de bilheteria, um fenômeno de ingressos vendidos, o exibidor dará sempre preferência, prioridade e melhor tratamento aos filmes das companhias que tenham capacidade de lhes fornecer produtos com regularidade e em número suficiente para manter suas salas funcionando. Ou seja, as companhias distribuidoras de filmes americanos, as chamadas "majors", que podem oferecer aos donos de sala de 15 a 45 filmes por ano, cada uma.

Enquanto for distribuído por unidade, projeto a projeto, caso a caso, por produtores que não garantam fornecimento regular aos exibidores, o filme brasileiro será sempre um penetra em sua própria festa. Para não citar o caso dos Estados Unidos, onde as "majors" (Disney, Warner, Universal, Fox, Paramount, etc.) sempre praticaram essa política de distribuição concentrada e por pacote, lembramos que o sucesso do cinema francês, em defesa de sua sobrevivência, deve muito à existência de quatro grandes companhias locais, funcionando como "majors" nacionais - Gaumont, UGC, Pathé e Bac (essa, braço do complexo Canal Plus) garantem, com seus pacotes diversificados de filmes, a difusão de toda a produção francesa. Assim como a Embrafilme, no passado, garantia o fornecimento de produtos que iam do último Trapalhão ao filme do realizador estreante, passando por sucessos como "Dona Flor", "Xica da Silva", "Dama do Lotação", "Gaijin", "Eu te amo", "Pixote", "Bete Balanço", "Memórias do Cárcere", "Eles não usam black-tie", etc., sucessos esses que abriam caminho para a colocação no mercado de filmes mais "difíceis". Sem quantidade e diversidade concentradas, sem poder econômico enfim, não se tem presença no mercado de distribuição de filmes.

A falta de mercados ancilares para o filme brasileiro, no Brasil, nos coloca na contramão do que acontece hoje, no resto do mundo. A grande variedade de novos meios de difusão, a multiplicação permanente deles, faz com que a demanda por produtos audiovisuais seja cada vez maior, a uma velocidade vertiginosa. Em relação ao longa-metragem, esse crescimento é mais impressionante, pois é este o formato do produto que mais ocupa o espaço da programação mundial das televisões. Como conseqüência dessa pressão, é claro, a produção mundial de longa-metragens aumenta sem cessar, mesmo que parte dessa produção não chegue nunca às salas de cinema, indo alimentar as televisões ou, em muitos casos, indo direto para o homevideo, laserdisc ou dvd, sem passar por elas.

O paradoxo é que os mercados ancilares precisam de um número cada vez maior de produto que, por sua vez, é excessivo para o abastecimento das salas de exibição. Ou seja, enquanto faltam filmes para exibição nas televisões aberta e a cabo, no homevideo, etc., sobram filmes, há uma inflação de títulos para as salas de exibição que não têm capacidade de dar vazão a tanta produção.

É por isso que, hoje em dia, os filmes ficam tão pouco tempo em cartaz nas salas, produzindo cerca de 40% de sua receita nelas logo na primeira semana. Como a programação de cada sala está engarrafada de títulos, esperando a sua vez de estrear, os filmes saem de cartaz antes que possam completar sua expectativa de renda, seu potencial de receita. Por isso mesmo, a freqüência média das salas se eleva, chegando a níveis que nem todo filme consegue alcançar, reiniciando assim o círculo vicioso dessa deformação comercial.

Como já vimos que os filmes brasileiros não podem contar com os mercados ancilares (que, fora do Brasil, compensam essa passagem veloz pelas salas), podemos perceber que, mais uma vez, estamos condenados a uma exploração comercial insuficiente, muito inferior ao alcance potencial deles. As salas se tornaram, no mundo todo, vitrines que determinam o valor de cada título nos mercados ancilares.

O Canal Plus, por exemplo, o maior canal a cabo da Europa, compra filmes segundo uma tabela que leva em consideração o desempenho deles no mercado de salas, chegando a estabelecer preço três vezes e meia inferior a seu teto médio, para os que não tenham sido lançados nelas. O mercado cinematográfico brasileiro acompanha essa tendência mundial, os filmes passando batidos pela distribuição nas salas – só que, aqui, para nossos produtos, a compensação dos mercados ancilares não existe.

Quando, na década de 1950, o Governo Kubistchek decidiu que o Brasil precisava ter uma indústria automobilística, não só criou incentivos à produção nacional e sobretaxas para o produto estrangeiro, como também empenhou-se na construção de estradas por onde os veículos aqui produzidos pudessem circular. Nos anos 1970, quando o poder militar decretou que o sistema de telecomunicações era decisivo para nossas integração territorial e segurança nacional, não só deu vantagens fiscais às empresas do ramo, como sobretudo investiu no satélite pioneiro que permitiu à televisão brasileira ser uma das primeiras do mundo a emitir em rede nacional.

Lógico que não vivemos mais os tempos da política de substituição de importações através de investimento do Estado; nem estamos mais sob um regime autoritário que necessita de controle social a qualquer preço. Mas, se a existência de um cinema nacional for desejável, o Estado brasileiro tem que assumir alguns compromissos que o viabilizem de fato.

Apesar da instância do mercado ser respeitada em todo o mundo civilizado, em qualquer país onde exista uma no mínimo razoável indústria cinematográfica, o Estado nunca deixa de intervir de algum modo para mantê-la viva, apesar de todas essas complexas deformações. Muito raramente como empresário ou investidor, mas quase sempre como mediador ou regulador. Sem a instância do mercado, eu creio, tudo vira corrupção; mas a ausência total do Estado, por outro lado, gera necessariamente barbarismo.

Mesmo nos Estados Unidos, a pátria da economia liberal, a presença reguladora do Estado se dá através da aplicação da lei anti-truste, que impede que as redes nacionais de televisão, por exemplo, produzam mais do que 30 a 40% do material que exibem, obrigando-as a adquirir o restante dos estúdios ou da produção independente. Cada país do mundo, segundo suas condições específicas, legislou essa relação entre a televisão e o cinema a seu modo, ora estimulando a co-produção através do investimento de parte de seu faturamento, ora obrigando a compra de filmes nacionais através de reserva de mercado, ora fazendo aplicar em filmes parte do resultado obtido nos intervalos comerciais, etc.

O Brasil é, assim, o único país do mundo em que o Estado nunca cogitou em mediar a relação entre as duas economias. Repito e reitero: o único país do mundo onde o Estado não mediou compromissos da televisão com o cinema.

A contradição da televisão brasileira é que ela é, ao mesmo tempo, uma das melhores do mundo, uma das mais avançadas do ponto de vista tecnológico e até dramatúrgico, mas, do ponto de vista institucional, está montada num sistema muito parecido com o dos antigos engenhos de açúcar do nordeste colonial, onde umas poucas famílias de senhores feudais decidem o destino de nossas mentes em conversa privada e íntima, na varanda de suas Casas Grandes. Enquanto, no resto do mundo, as redes de televisão são obrigadas a atender diversos compromissos econômicos, educativos, culturais, etc., estabelecidos pelo Estado, entre nós os senhores que as controlam não devem a mais remota satisfação ao poder público ou à sociedade, os verdadeiros senhorios do espaço de que são inquilinos por concessão. E, tragicamente, temos visto, ao longo de cinco décadas, que os homens públicos desse país nem sempre têm tido coragem ou simplesmente não se interessam em enfrentar essa anomalia, esse arcaísmo institucional.

Aqui, além das emissoras de televisão não terem nenhum compromisso ou qualquer obrigação, de qualquer espécie, com a indústria cinematográfica local, ainda somos obrigados a assistir passivamente a um verdadeiro "dumping", provocado pelo baixo preço do produto internacional que, por sua vez, comanda o preço oferecido por nossos produtos. Somos obrigados a aceitar preços de sucata e brechó, preços de um consumo de segunda mão, para vender nossos produtos num mercado que é, para nós, primário e muitas vezes único.

Os filmes estrangeiros vendidos para nossas emissoras de televisão, chegam aqui ressarcidos, nosso mercado tem para suas economias peso meramente ornamental. Enquanto em seus países de origem chegam a valer, no mercado televisivo, 50, 60 ou mesmo 70% de seu custo original, no Brasil esses filmes são vendidos por um valor equivalente a qualquer coisa parecida com 3% do custo médio de um filme brasileiro. E é esse o padrão que acaba sendo aplicado, como referência, na compra de nossos filmes por essas mesmas emissoras. Para se ter uma idéia desse absurdo, com um só e simples exemplo, basta saber que um show de Liza Minelli, por exemplo, com grande orquestra, corpo de baile, etc., pode ser comprado por uma televisão a cabo brasileira por cerca de mil dólares. Se um produtor brasileiro quiser filmar um show original de Gal Costa, por exemplo, por mil dólares ele não bota na rua nem mesmo o mais modesto equipamento de luz.

Num raro momento em que o Estado brasileiro se interessa pelo assunto das relações entre cinema e televisão, acaba de fazê-lo de maneira desastrada, através de recente proposta de reforma da Lei do Audiovisual, apresentada pelo Ministério da Cultura à sua Comissão de Cinema e veiculada recentemente pelos principais jornais do país. Por ela, a pretexto de "elevar o nível empresarial" da indústria cinematográfica, seria autorizada a captação, pelas emissoras de televisão, de recursos para a produção de filmes, através da Lei do Audiovisual. Essa proposta que, se aprovada, terá como conseqüência imediata o fim da produção independente no país, parte de alguns sérios equívocos.

O primeiro equívoco é considerar a produção como o problema da atual crise do cinema brasileiro. Já vimos que não é. O segundo é acreditar que as emissoras de televisão do país estejam mais bem preparadas do que as empresas de produção cinematográfica para fazer o que estas já fazem há décadas, isto é, filmes. A natureza da produção para a televisão, que visa produtos de fabricação em série, uma espécie de "fast-food" audiovisual, é totalmente distinta daquela do cinema que, mais do que nunca, exige produtos personalizados, capazes de se transformarem em eventos únicos e exclusivos.

O terceiro equívoco da proposta é o que parte da premissa de que as empresas de televisão, no Brasil, seriam mais competentes do que as de cinema. Ora, apesar de todas as dificuldades e das circunstâncias adversas, os Barreto, os Massaini, os Pereira dos Santos, os Khoury, para citar apenas alguns dos mais antigos, ainda estão por aí, há mais de 40 anos, produzindo filmes sempre com uma certa repercussão. E onde estão as TVs Tupi, Rio, Excelsior, Gazeta, Continental, Manchete, etc., quase sempre fechadas com grande escândalo e estardalhaço? Lemos diariamente nos jornais que o SBT procura desesperadamente sócio estrangeiro para se salvar, que Silvio Santos declara publicamente que sem a Tele-Sena teria que fechar sua emissora. Por esses mesmos jornais, ficamos sabendo que a Rede TV! está sendo processada e ameaçada de fechamento por não cumprir os compromissos que herdou da Manchete. Algumas emissoras sobrevivem às custas da ingenuidade religiosa de nosso povo; outras, graças apenas às transmissões esportivas; e assim por diante.

Finalmente, a única emissora realmente sólida, competente e bem sucedida do país é a Globo – mas por que razão entregar à TV Globo e a seu estilo a hegemonia ou até mesmo o monopólio da produção cinematográfica e audiovisual no país, que é o que vai acontecer se essa lei for aprovada? Se isso acontecer, será a primeira vez, em toda a história mundial do audiovisual, em que o cinema financia a televisão, e não o contrário, como acontece em todo lugar.

O cinema brasileiro não tem nenhum futuro, se não encontrar um modo de fazer aliança com a televisão, se essas duas economias não se relacionarem de alguma maneira. Mas essa aliança tem que se originar de recursos novos, criados por acordo mediado pelo Estado, e não do avanço sobre aqueles parcos recursos já existentes, que mal sustentam a frágil e indispensável produção independente no país. As televisões têm que ceder alguma coisa – não é ao doente que cabe doar sangue.

Por tudo que vimos até aqui, pelos números precários e pelas circunstâncias negativas, pela própria história recente e passada, podemos concluir que aparentemente não se pode fazer cinema no Brasil. Mas não creio que seja esta a pergunta que se impõe, a pergunta fundamental é outra - não se trata de perguntar se se pode, mas se se deve fazer cinema no Brasil. Ou seja, é desejável que exista um cinema brasileiro?

Há 500 anos atrás, florescia na Europa uma civilização que era ao que de melhor o homem ocidental havia chegado. O Renascimento colocava o indivíduo no centro das idéias; o conhecimento do mundo substitua as superstições; uma religião humanista se sobrepunha às trevas; nunca tantos artistas superiores conviveram num mesmo espaço e período de tempo, produzindo uma arte inigualável. Pois foi em nome de todas essas excelências que os Conquistadores das Américas massacraram povos, destruíram civilizações, praticaram o maior genocídio da história da humanidade. Uma predação de tal ordem que, hoje, civilizações como as azteca, maia, inca, são verdadeiros mistérios arqueológicos sabemos mais sobre egípcios e fenícios, que viveram há 5 mil anos atrás, do que sobre esses povos que desapareceram há apenas 500.

Sem nenhum exagero, o papel dos filmes americanos na cultura planetária de hoje é mais ou menos esse, o mesmo exercido pelos Conquistadores do Renascimento. Nós todos gostamos de ver filmes americanos, sob certos aspectos eles espelham um outro clímax da humanidade, uma civilização de excelências que todos nós reconhecemos. Hollywood é uma palavra mágica para todos nós e, daqui a um tempo, quando as paixões humanas e políticas de hoje estiverem desaparecidas, ela vai estar para o século XX como o teatro grego esteve para a Antiguidade ou os pintores italianos para a Renascença.

Mas não é bom para a humanidade, como não é bom para o Brasil, que 90 a 95% das telas de todo o mundo estejam ocupadas pelos filmes de Hollywood. Se não formos capazes de produzir nossas próprias imagens e ocupar algumas telas com elas, nos tornaremos verdadeiros mistérios arqueológicos vivos, ignorados pelos outros, ignorantes de nós mesmos.

Para evitar essa tragédia, é preciso, antes de tudo, que o cinema brasileiro se torne uma atividade permanente, resultado da inspiração e da competência de seus titulares, aprovada pela sociedade, inspirada nas tendências do mercado, garantida sem hipocrisia pelo Estado nacional. Para isso, sugiro algumas poucas mas estruturais medidas oportunas, que devem se amoldar às necessidades do futuro, a cada etapa de seu desenvolvimento:

Já que os cineastas não podem influir na distribuição de renda do país, é preciso que se incentive a abertura de circuitos populares, a instalação de salas de exibição em cidades do interior, bairros pobres, favelas e periferias das grandes cidades, aumentando assim o alcance de público e o potencial de renda de nossos filmes. A FENEEC, a federação de exibidores brasileiros, tem um excelente projeto nesta direção, a partir de mecanismos financeiros já existentes.

Para que se criem empresas capitalizadas, com poder econômico que as permita intervir no mercado, que as torne capazes de uma política de distribuição concentrada e diversificada, o Estado deve estimular, através de Fundos de Investimento geridos pelos agentes financeiros do mercado, a montagem de grandes distribuidoras ou "majors" nacionais, na forma de fusões, consórcios, associações, etc., com financiamento a essas empresas e seus programas pluri-anuais. Essa iniciativa não exclui o incentivo à associação com as grandes distribuidoras já existentes, sobretudo aquelas que já vêm se interessando pelo produto nacional (como, por exemplo, Columbia, Buena Vista, Warner, Lumière, etc.) ou com a própria Rio Filmes e similares.

Ainda no capítulo da comercialização dos filmes, sugiro que se volte a adotar o sistema proporcional de prêmio adicional de renda, como ele já existiu no Brasil (nas décadas de 1960 e 70) e existe hoje na Argentina, na França e em outros países. Esse prêmio consiste num retorno ao produtor de parte das taxas cobradas sobre o ingresso de cinema, na proporção do sucesso do filme exibido.

É necessário manter, prorrogar e ampliar os recursos provenientes do artigo primeiro da Lei do Audiovisual, para garantir a existência da produção independente e autoral, base da grandeza histórica do cinema brasileiro e, até hoje, responsável pelos seus momentos mais luminosos.

O Estado tem que assumir sua responsabilidade com a arte e a cultura cinematográficas, criando um sistema permanente de financiamento direto para curta e longa-metragens documentais, experimentais, de estreantes, enfim, filmes que devem ser produzidos, embora não sejam necessariamente absorvidos pelo mercado convencional, nem tenham como participar da disputa por ele. Inclua-se entre esses deveres do Estado, o cuidado e o apoio à preservação da memória cinematográfica do país.

É indispensável, como já vimos, integrar as economias do cinema e da televisão, através de novos recursos, como fator de crescimento de ambos e de sua expansão internacional, estabelecendo políticas de preço "anti-dumping", de cota de exibição e de produção associada. Não se deve impor às televisões um sistema impositivo, não conheço casamento feito na delegacia que tenha dado certo. O Estado deve mediar o acordo entre as partes, capaz de beneficiar as duas, segundo os interesses específicos de cada uma.

Para dar certo de modo permanente, o cinema brasileiro tem que ser um bom negócio para todos os agentes financeiros envolvidos na atividade. Por isso mesmo, é preciso romper com a tradição de leis que obrigam, proibem, punem, substituindo-as por outras que liberem, incentivem, premiem, a favor de todos que lidarem com nossos filmes.

Essa agenda mínima pode ser, em grande parte, administrada pelo próprio Ministério da Cultura, embora ela implique na intervenção de outros Ministérios e Agências do Governo, em alguns pontos específicos. Num certo prazo de tempo, se tornará necessária a criação de uma Agência ou Secretaria, um órgão de administração horizontal diretamente ligado à Presidência da República.

As vitórias do cinema brasileiro, nesta retomada da produção de longa-metragens, são evidentes e indiscutíveis. Os filmes têm sido bem recebidos por crítica e público, alguns se tornam grandes sucessos de bilheteria, outros acumulam prêmios internacionais, muitos destes prêmios inéditos entre nós. Até o fim deste ano de 2000, nada menos que cinco filmes brasileiros terão sido exibidos, por exemplo, no mercado americano, o mais fechado do mundo. Nenhuma outra cinematografia periférica é capaz de apresentar um desempenho como esse, nem mesmo os cinemas nacionais da França, Espanha e Alemanha, para citar apenas os mais bem sucedidos e em maior expansão, neste momento.

Não são só os veteranos que voltam a filmar. Não é nem mesmo apenas a chamada geração intermediária que faz agora, reconhecidamente, seus melhores filmes. De todo lugar do Brasil, surge também uma nova geração de cineastas, fazendo filmes no mínimo interessantes, alguns mesmo extraordinários.A"retomada" vem, assim, confirmar essa incrível e invencível vocação do país para o cinema. Cabe a nós evitar que tudo isso se escoe pelo ralo da indiferença; que tudo isso acabe, mais uma vez, num desperdício de talentos. Apesar de tudo, já demos um cinema a este país. Resta saber se o país o quer ¯ o cinema que um país tem, deve ser exatamente o cinema que ele merece ter.
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