O Globo
Em nome da paz
Carlos Diegues

No final de meu artigo de domingo passado, falando da segurança pública no Rio de Janeiro, citei o pensamento de um secretário estadual recente que dizia o seguinte: “As UPPs foram uma tentativa ousada demais (...) e talvez estejamos pagando um preço caro por essa tentativa de levar a paz a todas as áreas, inclusive as mais carentes”. Quer dizer que não merecemos nada que seja superior à nossa carência,  à nossa insignificância como povo e nação. A paz com que sonhamos não é para o nosso bico. Era isso o que o secretário queria nos dizer?


Pois Marielle Franco morreu porque acreditava naquele sonho e lutava por ele. Morreu nas muito prováveis mãos de carrascos bem pagos, que  nos queriam oferecer seu assassinato como lição, uma luz saindo de dentro de um cano de pistola para o escuro de sua irresistível rebeldia. Uma luz em direção à paz para todos, a paz que Marielle deve ter sempre desejado conquistar.


Não conheci Marielle pessoalmente, votei nela para vereadora por sugestão de minha filha Flora, que me explicou quem era. Mulher, negra, favelada, homossexual, culta, politicamente ligada às minorias que sabem pelo que batalhar em benefício da maioria. Não é necessário tê-la conhecido pessoalmente para perceber que Marielle era uma nova líder de ideias novas, produzidas por uma seção do povo brasileiro que quase nunca se manifesta organizada em relação a seu próprio futuro. Que mal construira a utopia desse futuro a que sempre teve direito e pelo qual precisava lutar.


Vou ajudar a Polícia Civil, encarregada de descobrir o assassino de nossa  heroína, a encontrar o bandido que matou Marielle. Podemos começar por Dom João VI, que criou nossa primeira Polícia, assim que chegou ao Rio de Janeiro, em 1808, para proteger sua Corte  dos brasileiros folgados e boçais, os negrinhos que sujavam suas calçadas de merda e sangue. Na lista de suspeitos, lembremos também do neto e da bisneta do príncipe português. Quando a Princesa Isabel, sob as ordens de Dom Pedro II, seu pai, promulgou, em 1888, a Lei Áurea, os latifundiários donos do país já sabiam, pelo andar da carruagem, que isso estava mesmo por acontecer e já haviam tomado as devidas providências.


Usando mão de obra baratinha de imigrantes europeus mortos de fome, os barões de terras não queriam mais saber dos antigos escravos de origem africana, libertos sem a menor reparação pelos quase 400 aos de escravidão, como havia acontecido nos Estados Unidos de Abraham Lincoln. Sem ter onde trabalhar, os negros libertos formavam favelas ambulantes, morrendo de fome a vagar pelas estradas que cortavam as fazendas nas quais não podiam mais nem entrar. Os que estavam nas conseguiam chegar às zonas urbanas, morriam de doenças em praça pública, soterrados pelos barris de fezes que carregavam às costas, o serviço que lhes era oferecido pelos brancos do lugar.


Em 1903, já sob o regime republicano, o prefeito Pereira Passos destruiu as moradias do centro da cidade, onde pobres e pretos se amontoavam em cortiços e cabeças-de-porco, para abrir avenidas e ruas arejadas que haviam de transformar o Rio de Janeiro na Paris sul-americana. O famoso “bota-abaixo” levou pretos e pobres a correrem para os morros mais próximos e ali, durante todo o século XX, suas comunidades cresceriam. Inclusive com a migração de nordestinos vítimas da seca e da falta de trabalho em suas cidades mortas. A própria Marielle, se não me engano, era filha de uma família da Paraíba.


Todos os males da cidade eram atribuídos à favela. Mas, na verdade, a  cidade é que era o problema da favela que se organizava num processo, às vezes até eufórico, de auto-descoberta. A primeira política de estado a entender a favela como entidade urbana original e singular foi a das UPPs. Ela pretendia que essas comunidades vivessem sob o controle delas próprias, trocando a ideia de invasão militar periódica pela de polícia doméstica permanente, cujo poder deveria ser exercido de dentro para fora. Quando foram implantadas, as UPPs eram apenas o primeiro passo  para a auto-ordenação formal das favelas, sendo um “portão armado” para a passagem dos demais serviços do estado, como educação, saúde, saneamento, etc.


Mas a ideia original das UPPs não resistiu a dois fatores negativos e decisivos: a ausência dos serviços do estado para os quais elas deviam estar abrindo  caminho e a falta de apoio logístico para a resistência à retomada das favelas pelos traficantes de drogas armados. Com isso, a desesperança e o desinteresse tomaram conta dos moradores e da própria PM que, em alguns casos, se rendeu aos velhos costumes do habitual regime estabelecido pelo tráfico.


Não conheci Marielle Franco pessoalmente, como gostaria muito que tivesse acontecido. Mas certamente sei de onde ela veio. Ali, conheci muitos bravos que não aceitam que o mundo se divida entre os mais fortes e os mais fracos, que não aceitam a violência social e política  dos senhores de tudo. Gente que quer a paz de verdade.


Um outro grande morto recente, o gênio da ciência e agudo pensador Stephen Hawking, declarou um dia que “a conversa sempre esteve na origem de todos os grandes feitos da Humanidade; quando não era esse o  caso, acontecia sempre um grande fracasso”. A conversa é mesmo a melhor base para o exercício da democracia. Mas nenhuma conversa nos fará esquecer nossos heróis de sempre, do Zumbi dos Palmares a Chico Mendes, entre tantos outros. Marielle Franco é agora um desses heróis que vamos venerar  e honrar, sem melancolia passiva, mas com a força de nossos corações sinceros: “Quantos mais vão ter que morrer para que a violência acabe?”.





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