O Globo
A descoberta do século
Carlos Diegues

Se ainda fosse vivo, o grande cineasta brasileiro Humbero Mauro estaria completando, essa semana, 121 anos de idade. Ele é apenas dois anos mais novo que a invenção do cinema, cuja primeira projeção mundial se deu, num café de Paris, em dezembro de 1895. O trabalho de Mauro honrou essa existência simultânea ao ofício que escolheu exercer por toda a vida.

Nascido em Volta Grande, na Zona da Mata mineira, Mauro viveu toda a sua infância num ambiente rural. Filho do imigrante italiano Gaetano Mauro e da professora Teresa Duarte, nosso futuro cineasta, ainda criança, mudou-se com a família para Cataguases.  Ali, iniciou, em 1925, com apenas 28 anos de idade, uma improvável carreira de cineasta, produzindo e ajudando a produzir, a partir de sua cidade e de sua casa, filmes com enredos tipicamente brasileiros. Por conta própria, Mauro acabou se tornando o eixo de energia e de luz que permitiu a existência do Ciclo de Cataguases, nesse  momento precoce do cinema brasileiro.

Escritor, músico, pintor, artista plástico, ativista político e ensaista, mas sobretudo cineasta, Mauro foi, a partir do início dos anos 1960, consagrado como um dos maiores artistas brasileiros do século XX, cultivado como tal pelo  Cinema Novo.

Toda revolução nasce de uma tradição, mas o Cinema Novo não encontrava na tradição de nosso cinema os elementos que pudessem servir para embasar sua transgressão. Como éramos todos filhos das referências do modernismo, fomos procurar na literatura, na música e nas artes plásticas brasileiras dos anos recentes o passado que nos justificasse.

Enquanto curtíamos, em busca de um avôzinho, os neorealistas italianos, os russos posteriores à revolução soviética, o cinema americano social e romântico dos anos 1930 e 40, até mesmo a recém nascida nouvelle vague francesa e seus velhos mestres, como Jean Renoir, fomos aos poucos tomando conhecimento da obra, nem sempre a nosso alcance, de Humberto Mauro. De minha parte, comecei a conhecer Mauro pelo então recente  “O canto da saudade”, de 1954, seu último longa metragem, em que também participa como ator, um filme “rural” que nos encantava pela revelação de paisagens, canções, costumes e modos de viver originais, absolutamente inéditos nas telas.

Acho que foi desde “O canto da saudade” que me apaixonei pelos planos gerais de Mauro e pensei neles quando fiz meu primeiro filme, “Ganga Zumba”. Segundo ele dizia, “o long shot é que dá a topografia do filme, e um filme sem topografia estabelece uma grande confusão, fica a gente sem saber onde está”. Para Mauro, era preciso dizer sempre que estávamos no Brasil.

Cultivávamos Nelson Pereira dos Santos como mestre e guia, mas este sempre nos enviava a Humberto Mauro, como o primeiro de todos. Para nós, Nelson, com “Rio, 40 graus”, inventara a favela carioca como tema e espaço de um filme. Mas Mauro já havia feito “Favela de meus amores”, que não vimos nunca porque seu negativo fora destruído em 1935, num incêndio na Brasil Vita Fimes, sua produtora. Ficamos sabendo que “Favela de meus amores” tinha sido, de fato, o primeiro filme brasileiro a tratar com dignidade da vida nessas comunidades, a partir da história de uma escola de samba, a grande e mítica Portela.

Curiosamente, bem mais tarde, quando Nelson fez “Como era gostoso o meu francês”, em 1971, recorreria a Mauro para a tradução de alguns diálogos em tupi-guarani, pois ele era também um estudioso da língua de nossos indígenas, autor de um dicionário dessa língua, editado pelo então Ministério da Educação e Cultura (MEC).

Naquele final dos anos 1950 ou início dos 60, conheci Humberto Mauro pessoalmente no INCE (Instituto Nacional de Cinema Educativo), criado por Roquete Pinto.  Ali, Mauro produzia pacientemente sua múltipla obra de formidáveis curta-metragens, jóias como “João de Barro”, “Araras”, “Vitória Régia”, “Peixes do Rio de Janeiro” e as “Brasilianas 1 e 2” (com a lindíssima canção popular “Azulão”). Ele culmina essa série de pequenas obras primas sobre a natureza e os costumes do Brasil, com o famoso e premiado curta “A velha a fiar”, de 1964, em que seu parceiro e amigo Matheus Colaço interpreta uma velha a ilustrar, angustiada e comicamente, a conhecida canção folclórica de jogos infantis que dá título ao filme.

Paulo Emílio Salles Gomes foi um dos primeiros pensadores brasileiros a compreender o significado de Humberto Mauro e, graças a ele, pudemos nos aproximar mais de seu entendimento. Um de seus parceiros na crítica paulistana, o presidente da Cinemateca Brasileira Almeida Salles, declararia, em agosto de 1967, no jornal O Estado de São Paulo: “Meu mestre Humberto Mauro, dobraste o século para descobrir o cinema para o Brasil”.

A partir desse período, Mauro se tornou um mestre sempre presente em nossas vidas. Sobretudo quando começamos a ver seus filmes de longa-metragem.


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