O Globo
Uma invenção do amor
Carlos Diegues

A comunidade científica do mundo todo está excitada com rumores sobre a descoberta de uma nova partícula subatômica e a força nuclear saída de suas colisões, mais de três milhões de vezes por segundo. Ao explodir, essas partículas ameaçam mentes e corações humanos que nunca mais serão os mesmos. Curiosamente, as explosões fazem com que toda matéria tenha pouca massa e muita luz. As coisas em volta perdem o peso, o mundo gira como se estivessem todos bêbados e nunca mais as vítimas voltam ao normal.


Aliás, o que mais intriga a essas vítimas, é saber o que seria afinal “ser normal”?

Alguns registros fotográficos dos experimentos mostram o que se passa, quando as explosões se dão em seres humanos. De repente, em um canto qualquer de uma dessas fotos, descobrimos um homem e uma mulher que se beijam. Abraçados, ele a traz para junto de seu corpo, com a pressão de seus braços às costas dela. E ela puxa com força o rosto dele para perto do seu, trazendo-o pelo pescoço até o beijo na boca. O casal não parece ignorar o entorno e seus sinais de ameaça. Apenas não resiste ao que se passa dentro deles mesmos, a vencer a insensibilidade do mundo do lado de fora de seus corpos.


Talvez esteja mesmo na hora de reinventar a vida e, inventando qualquer outra coisa parecida, de criar a possibilidade de uma redenção da permanente tragédia humana.


Nunca é tarde para compreendermos que tudo o que fazemos no mundo, mesmo que não desconfiemos disso, é feito para sermos benquistos pelo outro. Isso não é nenhuma novidade, já estava até no Antigo Testamento, o livro consagrado por todas as religiões monoteístas. Está lá, no Livro de Samuel I, versículo 18: “Davi amava o outro, como à sua própria alma”.


Pode ser que sejamos uns tolos, tentando sacar do querer bem ao outro o sentido da vida. Talvez a vida não tenha mesmo sentido algum; mas procurá-lo é o único sentido que a vida pode ter.


Querer bem ao outro é uma proposta de solidariedade, de encontro entre pessoas que sentem prazer em estar juntas, sem saber direito porque, num momento que não se repete. Segundo Scott Fitzgerald, o grande romancista americano do século XX, “existem todas as espécies de amor neste mundo, mas nunca o mesmo amor duas vezes”.


No afã soberbo de controlar tudo, inventamos coisas que não existem para contrapô-las como ciência à realidade concreta, para nos impormos à natureza imprevisível, sujeita ao caos e ao acaso. Inventamos, por exemplo, a linha reta e o zero, em um mundo em que ambos não existem, onde só existem curvas e nada está vazio. Travestis de Deus, só admitimos a perfeição de um lado e o opróbrio do outro. Por isso inventamos o amor, para tentarmos apagar essa distância entre nós e o outro.


Foi isso o que o homem inventou de melhor, nesses poucos séculos de sua existência na Terra: a misteriosa e inusitada força nuclear que nunca sabemos de onde vem, tomando nosso corpo, com estupendas colisões de partículas que nos fazem experimentar finalmente a razão de viver. Aquilo a que podemos chamar de amor.


O amor de verdade é sereno e discreto, como tudo o que dá certo. Um permanente aprendizado de vida, como um barco e suas circunstâncias a atravessar o agitado rio do mundo. Ele aponta sempre para a solidariedade, um veículo em que só se pode viajar acompanhado. O amor não é o fim da estrada, mas a estrada sem fim que os amantes devem trilhar juntos, a suportar a prática diária de um mundo que não é o ideal.


Quando se ama e vai mal, qualquer brisa é temporal. Mas não deixaremos que o amor padeça de tédio, vamos reinventá-lo sempre, abastecendo-o como abastecemos o carro que nos vai levar por um longo, porém aprazível caminho que vale à pena percorrer. Amar é suportar o outro como ele é, nesse rumo de tantas dores e prazeres. Parece que a Biblia não foi lá muito bem entendida e portanto traduzida. Na verdade, o que Jesus Cristo quis dizer não foi “amai-vos uns aos outros”, mas sim “suportai-vos uns aos outros”, o que é bem mais natural. Ou sagrado, tanto faz.


Suportar significa também dar apoio, juntar-se um ao outro, transformando os dois numa só explosão de um só e invencível ser. Para isso, é preciso trabalhar a cada instante, para que o amor seja realmente “eterno enquanto dure”, como decretou Vinicius de Moraes. Ou, ainda melhor, que o amor dure eternamente, como deve ser a vocação do barco dentro do qual, juntos, os amantes vão atravessar o oceano de suas vidas, sem fazer do mundo lá fora o inimigo a combater.


Embora ele às vezes nos seja ingrato, o mundo não pode ser nunca o  inimigo a combater. Sobretudo quando amamos e portanto não temos medo de viver. É essa a força do amor – quando ele se instala, não temos mais medo de viver. Não temos mais medo de nada, hoje e sempre. Quase nada.


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