O Globo
O príncipe maldito
Carlos Diegues

Segundo nos contava nosso bem jovem professor de História, o neto preferido de dom Pedro II era o filho mais velho de sua filha mais moça, a princesa Leopoldina. O menino tinha o nobre e comprido nome de  Pedro de Alcântara Augusto Luís Maria Miguel Rafael Gonzaga de Bragança Saxe e Coburgo. Ele seria conhecido pelo nome mais curto de Pedro Augusto e, mais tarde, entraria para a literatura histórica como o “príncipe maldito”.


Nunca mais ouvi falar de Pedro Augusto. Até que recentemente me deparei com um livro de Mary Del Priore, um belo ensaio com o título de “O Príncipe Maldito”. Na capa, a foto de um aristocrata em roupas do século XIX, de uma beleza a rivalizar, por exemplo, com Brad Pitt. Só podia ser ele.


Dom Pedro II era famoso por não gostar de brigar com ninguém. Mas todo mundo sabia que ele não era lá muito fã de sua filha Isabel, a mais velha, uma princesa séria e carola, inimiga de festividades, futilidades e conversa jogada fora. E o Imperador implicava também com o marido dela, Gaston de Orléans e Bragança, o conde d’Eu. Esse conde d’Eu, elevado por Pedro II a marechal do exército brasileiro, andara praticando negócios escusos, desde que voltara da Guerra do Paraguai, onde havia participado das batalhas mais sangrentas.


Chegando aos 60 anos de idade, dom Pedro não vira nascer de Isabel um só filho para sucedê-lo, enquanto Leopoldina já havia lhe dado quatro principezinhos.  O mais velho era o nosso Pedro Augusto que logo conquistaria o avô com sua beleza física e elegância, sua inteligência e humor, a cultura que começava a acumular graças à  evidente dedicação aos estudos.


Quando Pedro Augusto começou a tomar da biblioteca do avô  livros que iam de Aristóteles a Baudelaire, os amigos do Imperador se dividiram. Uns viam o rapaz como um sinal positivo do futuro do Brasil; outros o tratavam como perigoso transviado. Por coincidência ou não, esses últimos eram sempre os partidários de Isabel, num apoio que precisava ser reforçado, agora que o Imperador parecia doente e disposto a iniciar o processo de sua sucessão.


Durante anos, na sala de aula ou fora da escola, sempre ouvi dizer que dom Pedro II se retirara do Brasil, pouco antes de 1888, para que Isabel se fortalecesse junto à população, proclamando ela mesma o fim da escravidão. Pois foi exatamente o contrário. Necessitando de cuidados especiais para seus males físicos, o Imperador viajara à Europa para se tratar, na companhia de Pedro Augusto, o neto predileto.


Na Europa, onde costumava visitar amigos como Pasteur e Eça de Queiroz, Pedro II começara a preparar Pedro Augusto para sucedê-lo no trono, como Pedro III. Com a notícia da Lei Áurea, promulgada pela princesa Isabel, o Imperador voltou correndo para o Rio de Janeiro, na esperança de evitar o ódio que o gesto de Isabel provocaria nos senhores de terras, sobretudo os cafeicultores paulistas. Dom Pedro II planejava convencer Isabel a abrir mão do trono, deixando reinar dom Pedro III, então com 26 anos, no auge de sua juventude e sabedoria.


Tudo deu errado. Na madrugada de 16 para 17 de novembro, a família imperial embarcava num exílio que seria para sempre. Com ela, partia também o “príncipe maldito”, aquele que passara a juventude se preparando para ser imperador, e nunca o foi. Agora, perdia também o amor de Pedro II que, com a agitação política da República, acabou por descobrir as manobras do neto em busca de apoio para subir logo ao trono.


Pedro Augusto viajou na mais profunda melancolia e, uma vez na Europa, ainda tentou inutilmente encontrar no Brasil aliados que o levassem ao trono. O príncipe nunca quis admitir que não seria nunca imperador do Brasil.


O ex-futuro Pedro III fez sua primeira tentativa de suicídio pulando de uma janela do palácio dos Coburgo, na Austria. Ele ainda cometeu várias outras tentativas ao longo dos anos, enquanto convencia seus interlocutores de que, a qualquer momento, seria chamado a assumir o Império do Brasil. Finalmente, Pedro Augusto conseguiu suicidar-se em 1º de setembro de 1934, no Sanatório de Tulln, nos arredores de Viena.

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Uma semana de gala para o cinema brasileiro. Além da continuação do É Tudo Verdade, festival internacional de documentários, estão nas salas de cinema dois excelentes filmes de origens diversas. “Aos teus olhos”, dirigido por Carolina Jabor, é um filme de temática contemporânea, sobre assédio, pedofilia e juízos apressados, uma pequena e delicada crônica de costumes realizada com amor e pudor. “Quase memória”, outro filme importante em cartaz, é uma adaptação do romance homônimo de Carlos Heitor Cony, filmada por um dos mestres do cinema moderno do país, o cineasta Ruy Guerra que, desde o Cinema Novo dos anos 1960, busca sem descanso novas formas cinematográficas para seus filmes, sempre surpreendentes e ricos de ideias.


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