O Globo
A pedra perdida
Carlos Diegues

O Estado Novo de Getúlio Vargas, de 1937 a 1945, assim como a ditadura militar de 1964 a 1985, foram duas formas de vandalismo político. E, no entanto, Vargas sempre foi (e continua sendo) um herói popular, consagrado e seguido mesmo depois de sua morte, em 1954. Por outro lado, muita gente hoje pede a volta dos militares, mesmo que não tenham coragem de pedir expressamente a volta da ditadura. E o Bolsonaro não é o único a professar esse projeto.


Nós, brasileiros, nunca tivemos mesmo um padrão de reconhecimento em relação ao que nos acontece politicamente, agimos sempre no espaço entre um certo sentimentalismo mágico e aquilo que nos dizem com mais convicção dramática.


Converso com as pessoas nos botequins e na rua, ouço os taxistas com sincera atenção, leio as pesquisas de opinião que procuro entender. E não vejo nenhuma vontade de novidade política no que me dizem ou me mostram. Nenhuma vontade real de mudança. Os mais citados são sempre os mesmos ex-presidentes ou ex-governadores, os políticos ou ex-políticos que não almejam mais nada de diferente em suas vidas. Se continuarmos assim até outubro, vamos novamente viver de tosca esperança por mais quatro anos. Vãs esperanças.


Entre intelectuais e ideólogos, todos querem o centro que nos conforta e bloqueia o sobressalto. O centro da esquerda vai de um populismo de cordel para esquecer os anos desastrosos de Dilma, até as análises sofisticadas de impotência que justificam um certo muro. O centro da direita passou a agir, em vez de apenas  observar por trás das cortinas, como era seu hábito. Mas, ainda assim, se divide entre o militar sem uniforme e a volta dos uniformes militares ao poder.


Gostamos mesmo é de tudo aquilo que parece nos proteger, como o populismo que mais uma vez ameaça nosso progresso político. O partido que se preparou, durante toda a sua formação, para ser o mais ideológico e construtivo possível, exemplo de um partido democrático disposto a tudo para construir o novo do que ruía à sua volta, deixou de ser um partido político para, como disse um de seus líderes arrependido, se tornar “uma seita guiada por uma pretensa divindade”, uma definição contemporânea para nosso populismo atrasado.


Em 1808, o Rio de Janeiro se tornou, quase que por acaso, a capital do país. Dom João VI, obrigado a se mudar para a colônia com sua Corte, estava de saco cheio da sujeira e do calor da Bahia, para onde o haviam levado. Dos 60 mil habitantes do Rio de então, mais da metade era de escravos, a maior concentração deles no mundo ocidental. Os membros da Corte, a origem de nossa elite nacional, tratavam esses negros como desprovidos de humanidade, pior que seus bichos domésticos. Portanto, gente sem direito à vontade.


Os rapazes da Corte inventavam jogos e brincadeiras em que podiam usar os afro-brasileiros, seus escravos, como melhor entendessem. Uma das brincadeiras mais comuns era a da “pedra perdida”, em que os rapazes, a pé ou montados em seus cavalos, atiravam pedras nos negros que passassem ao largo. A ideia era sobretudo a de lhes atingir a cabeça e assim ganhar mais pontos para seu time.


A sociedade brasileira de brancos segue atirando suas pedras nas cabeças de desempregados e necessitados que, não tendo como reagir, apostam naqueles que têm pior pontaria ou que prometem, depois das pedras, cuidar do sangue derramado. A pedra talvez lhe doa menos, se tiver a promessa de uma prato de sopa na porta dos palácios onde não entram.


Ninguém mais se sente representado politicamente no Brasil, a desconfiança em relação aos políticos em atividade é absoluta. Mas cada vez que tratamos desse assunto, escolhemos sempre negar a importância da política, escolhemos eliminá-la do concerto das ideias que podem mudar a sociedade. A política é o universo dos maus políticos que conhecemos de sobra, portanto é preciso evita-la. Se possível, eliminá-la de nossa vida.


E, com isso, damos origem ao nosso especial populismo, aquele que reconstrói, com um sorriso nos lábios e um abraço apertado, a dependência em que vivemos e que não deixamos nunca de cultivar.


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Está em cartaz, no Rio e em São Paulo, a 23ª edição do festival internacional de documentários É Tudo Verdade, dirigido por Amir Labaki. Aliás, “dirigido” é muito pouco para explicar o que Amir Labaki tem feito pela cultura documentarista em nosso país. É Tudo Verdade, o maior evento dessa natureza na América Latina, tem ajudado nossos documentaristas a descobrir os mestres da atividade. Dessa vez, o festival deu grande espaço em sua programação a documentários brasileiros, realizados por cineastas consagrados ou jovens iniciantes.  No Rio, a inauguração do festival ocorreu na tradicional sala do Museu de Arte Moderna, com a exibição de “Carvana”, filme de Lulu Corrêa, sobre nosso grande ator e cineasta.


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