Artigo publicado pelo jornal "o Globo" em setembro de 2006.
O Maior Sonho do Mundo
Carlos Diegues
Não acho que os sonhadores sejam necessariamente umas bestas, só porque seus sonhos um dia fracassaram. Os sonhos se renovam, como a vida e o mundo, fazem parte da condição humana. Sem eles não haveria civilização, não haveria nem mesmo humanidade. Ao contrário de desdenhá-los, é preciso ficar atento a eles – os sonhos são a tradução possível do presente que não sabemos ou não suportamos explicar. São eles que nos fazem sobreviver aos defeitos, nossos e do mundo.

"O maior amor do mundo" conta a história de um homem que, de profissão astrofísico, passou a vida a olhar para o céu e as estrelas, sem se dar conta do que estava a seu lado, aqui mesmo na terra sobre a qual pisava. Por isso mesmo, perdeu sua vida na solidão física e na avareza de sentimentos. De certo modo, trata-se de um filme contra o fanatismo iluminista, aquela idéia de que a razão um dia nos elevará à condição de deuses, nos dará o controle sobre tudo. A visão final do homem como uma espécie de travesti de Deus.

Em vez disso, precisamos reconhecer nossa condição inexorável de bichos e, como tal, descobrir as virtudes que se encontram por trás de nossas fragilidades. Como, por exemplo, o amor que nos aproxima do outro e, mais uma vez, como o sonho que nos diferencia da natureza. Segundo Charles Darwin, as espécies só se reproduzem porque, apesar do sofrimento permanente e da morte inevitável, existe uma esperança de felicidade no horizonte; sem isso, elas se recusariam a reproduzir-se. É desse otimismo trágico que podemos inventar uma nova alegria de viver, baseada no instante iluminado, mais do que no projeto de vida.

Quando éramos mais jovens e desejávamos que o mundo fosse outro, acreditávamos que a História era um trem sobre trilhos, que avançava numa direção precisa e inexorável. Nosso papel era apenas o de fazer esse trem correr mais rápido. Hoje sabemos que a História é apenas uma senhora bêbada, tropeçando em zigue-zague por aí, não podemos contar muito com ela.

Por isso mesmo, como dizia o grande cineasta Hou Hsiao Hsien, devemos fazer filmes para arrancar a história das mãos dos políticos. Neste sentido, "O maior amor do mundo", ouso dizer, é um filme político que não fala de política; mas faz política quando pensa o modo de estar no mundo, com toda a emoção possível, sem nenhum medo dela. Nele se repete que é impossível ser feliz sozinho e que o amor necessário que dedicamos a mãe e pai, a amigo e amante, deve se reproduzir também no amor ao semelhante pelo qual somos responsáveis, mesmo que não o conheçamos.

Nada disso teria sentido para mim se não houvesse também, a iluminar todas essas idéias mais ou menos brutas, um cada vez maior amor pelo cinema, essa maravilhosa ponte do imaginário humano entre o século 19 e o 20, que se reconstrói, com extraordinário vigor e juventude, neste início de século 21. Estamos assistindo a um provável reflorescer da inteligência humana que vai se dar através do audiovisual e de todas as novas tecnologias que o põem ao alcance de todos. Um pouco como uma outra tecnologia inventada pela homem, a imprensa, ajudou a semear o Renascimento.

Por isso que, para voltar a falar de sonhos, penso que hoje, no Brasil, não basta fazer bons filmes; é preciso também construir uma cinematografia nacional, em que todas as vozes da sociedade brasileira estejam representadas, para que o cinema se transforme numa atividade permanente no país. E que, assim, ele seja entre nós, definitivamente, um instrumento de conhecimento e um pilar do sonho.
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