O Globo
A última que morre
Carlos Diegues
Esse ano, não pretendo votar nas eleições de outubro. Não me
entusiasmo por nenhum candidato à vista, não acho que nenhum dos
até aqui citados e seus partidos representem o que penso do país e de
mim mesmo. A lei me facilita as coisas, na minha idade não sou mais
obrigado a votar. Melhor assim, me abstenho sem culpas.
Mas não quero que sigam meu exemplo, acho que todos devem
sempre votar. Sobretudo os mais jovens, que ainda não
experimentaram a crucial, embora parcial, responsabilidade de
eleger o próximo governo. Aquele governo que, durante os próximos
quatro anos, nos fará sofrer por perdas, danos e fracassos de nossos
sonhos. Como sempre.
Meu tempo de vida me permitiu viver em vários países diferentes. O
Brasil do ditador Getúlio Vargas e o do presidente eleito Getúlio
Vargas. O do jovial e esperto Juscelino Kubistchek, o do triste e
esquizofrênico Jânio Quadros. O Brasil de uma ditadura longa e cruel,
o Brasil da chanchada democrática do Sarney. Da pompa culta de FHC
e do populismo simpático de Lula. Nunca fomos o mesmo.
Votar deve ser sempre o melhor, o mais prazeroso momento de uma
vida num regime democrático. O momento em que, na solidão da
cabine eleitoral, escolhemos o futuro do país, com o sentimento febril
de que nossa escolha é decisiva. E a expectativa de que o país é muito
grande e, mais cedo ou mais tarde, se livrará das merdas em que
sempre se mete.
Acho até que sou capaz de mudar de ideia e, mais uma vez, acabar
votando de novo, em outubro desse ano. A gente tem sempre que ter
alguma esperança.
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A Ancine (Agência Nacional de Cinema) está fazendo uma pesquisa
com os 142 filmes brasileiros lançados no ano passado. O objetivo é
levantar a incidência de gênero e raça dos profissionais envolvidos
nesses títulos. A injusta discrepância do resultado não é muito
diferente daquela que encontramos em outras atividades no Brasil,
culturais ou não. Mas nunca é demais lembrá-la, para começar a
corrigir nossa vergonhosa desigualdade.

Hoje, as mulheres representam 51,5% da população do país e os
homens 48,5%. No entanto, apenas 19,7% de nossos filmes foram
dirigidos por mulher, enquanto 75,4% foram dirigidos por homens. A
população preta e parda no Brasil é de 54% dos brasileiros. Mas
apenas 2,1% de nossos filmes são dirigidos por cineastas pretos ou
pardos, contra 75,4% de diretores brancos. Nenhum filme foi dirigido
por mulher negra.
Podemos explicar esses absurdos com a velha fórmula culta de
Joaquim Nabuco (no Brasil, a escravidão acabou, mas seus efeitos
ainda vão durar por muito tempo). Mas alguma coisa tem que ser
feita para romper, o mais rápido possível, com essa discriminação
silenciosa, patriarcal e racista. Se isso não acontecer, o Brasil nunca
estará plenamente representado em nossos filmes.
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Há controvérsias sobre o personagem da coluna da semana passada.
O proprietário daquele terreno sob a Avenida Niemeyer, onde um
lavrador mineiro, depois de deixar o lamaçal de Mariana, teria se
instalado, afirma que não é verdade que nosso personagem, Joaquim,
descobrira a área em estado de abandono, cheia de entulhos, jogada
às baratas. Como não encontrei mais o nosso herói, passo a contar o
que me foi contado.
A área já teria sido limpa dos restos da demolição ordenada pela
prefeitura. Ela fora cercada com portão de alumínio a cadeado para
iniciar a construção autorizada por licitação municipal. Um dia
depois de terminada a limpeza e instalado o portão, o local fora
invadido e transformado em ponto de venda de drogas.
Segundo o proprietário, quando Joaquim chegou à área não estaria
vindo de Mariana e sim da Rocinha, de cuja comunidade havia sido
expulso. Um encarregado do empreendimento lhe teria solicitado
que deixasse o lugar. Além de tratar-se de um projeto privado, não
havia segurança para que alguém pudesse permanecer ali. O
encarregado deu-lhe então algum dinheiro, para que pudesse ir
embora. Depois disso, construiram um muro de alvenaria para
novamente cercar a área. Dois dias depois, o muro tinha sido
derrubado.
A idéia de seu proprietário é fazer da área um beach club, atração
para moradores e turistas da cidade. Ele planeja contratar mão de
obra da ONG que o chef Atala mantém na favela do Vidigal, logo ali

adiante. Segundo o proprietário, o Hotel Sheraton, vizinho da área,
está apoiando a iniciativa. Ao lado dessas informações, me foi
enviada também uma cópia do projeto que será submetido à
aprovação da prefeitura.
Aí está. Como não encontrei mais Joaquim, passo a história como me
foi contada pelo proprietário do terreno. Quem sabe, Gustavo
Goulart, o competente repórter do Globo, se anime em fazer uma
continuação da reportagem que chamou minha atenção para o caso.
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