O Globo
Da lama às ruínas
Carlos Diegues

Eu passava pela Avenida Niemeyer, quando vi uma cena que me fez
parar o carro e descer. Um homem franzino de meia idade, que eu
havia conhecido de uma matéria de jornal publicada no dia anterior,
estava sendo despejado do lar que ele mesmo construira. Mal o vi,
pois uma pequena multidão cercava os envolvidos no acontecimento,
protestando contra o despejo. Mas eu tinha certeza de que era ele.
Joaquim André Pereira, de 50 anos, era lavrador em Mariana quando
aconteceu aquele desastre ambiental que destruiu sua casa e tornou
improdutivas as terras que cuidava. A lama tomou conta de tudo e,
até hoje, ninguém pagou pelo grave crime cometido contra Minas, o
país e os lavradores locais como Joaquim.
Dois anos atrás, Joaquim deixou o lamaçal de Mariana e veio cuidar
da vida no Rio de Janeiro. Na cidade, ele arrumou um emprego de
ajudante numa pizzaria do Leblon e, procurando onde morar,
descobriu os restos abandonados de uma casa, cuja construção fora
interditada pela prefeitura há uns anos, nas pedras embaixo da
Avenida Niemeyer.
Depois de consultar seu proprietário, Joaquim a ocupou. Da casa que
não se completara e da qual fora destruido o que já estava pronto,
restava em pé apenas um pequeno pedaço de sala, transformado por
Joaquim em varanda, e o banheiro ao fundo, onde ele dormia diante
de enorme vazio aberto para o mar. Ruínas que não prejudicavam em
nada o que havia em cima – o espaço da Ciclovia Tim Maia, o passeio
de pedestres e os jardins mirantes ao lado, e finalmente a própria
pista asfaltada da engarrafada Avenida Niemeyer.
Ocupando os restos desertos da construção, Joaquim obteve do
proprietário do imóvel autorização para melhorar as condições em
que se encontrava o que sobrara da casa abandonada. Foi assim que
ele passou a morar naquelas ruínas sob a Niemeyer, repintando o que
podia repintar, desenhando textos e figuras pelas paredes, criando
uma horta hoje viçosa, consertando velhas bicicletas usadas na
ciclovia, dormindo no fundo do banheiro de onde via o mar repleto
de barcos em noites de lua e acordava vendo o sol nascer no
horizonte.
Joaquim só bobeou se deixando entrevistar pela imprensa e
autorizando fotos do lindo espaço que havia criado da ruina
abandonada. Além do que viram, a admiração positiva dos repórteres
deve ter provocado o ódio dos funcionários da prefeitura que, no dia
seguinte ao da publicação, vieram céleres despejar Joaquim dali. O
talento e a felicidade, para esses severos servidores públicos, não
devem ser produtos convenientes a um lavrador mineiro fugido da
lama.
Naquele dia do despejo, Joaquim ainda protestou muito, dizendo a
verdade: “Isso não se faz, tomei conta desse lugar, cuido dele como se
fosse minha própria casa, e querem que eu saia daqui?”. O pessoal da
Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos (!),
certamente preocupado com a reação dos curiosos em volta, ainda
ofereceu a ele um lugar no programa Minha Casa, Minha Vida ou um
acolhimento no célebre abrigo Albergue da Central do Brasil. Dois
nem tão nada bons exemplos assistencialistas do capitalismo
populista brasileiro. Mas Joaquim sempre respondia, certo do que
merecia: “Meu lugar é aqui”.
Um vizinho da região, morador do morro do Vidigal, ali perto,
indignado com o acontecido, prestou seu testemunho à reportagem
de Gustavo Goulart sobre o despejo, publicada no Globo do outro dia
seguinte ao despejo: “É um absurdo. Isso aqui era um lixão, uma área
aberta com entulho e ferro, que botava as pessoas em risco,
principalmente as crianças, alguém podia se ferir. Por que tiraram ele
de lá, se a prefeitura não tem nenhum propósito para aquele lugar?”.
O fato é que Joaquim não mora mais ali e o lugar está novamente
abandonado, entregue ao futuro de entulho e ferro, às crianças que
vão fatalmente se ferir. Joaquim deve estar dormindo em algum canto
de rua da cidade, como tantas outras vítimas de desastres privados
ou públicos, como o do lamaçal de Mariana. Em vez dos olhos virados
para o mar, ele deve é estar com eles em cima de algum esgoto mal
cheiroso. Grande prefeito que veio para cuidar das pessoas!
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Bela entrevista de Zé Celso Martinez Correa na “Folha de São Paulo”,
essa semana, sobre a remontagem de “Roda Viva”, a peça musical de
Chico Buarque. O título da matéria é uma maravilhosa confissão de
Zé Celso: “Sou eternamente 1968”. Ah, como Zé Celso está certo,
nesses dias de tanta burrice e falta de imaginação de todos os lados. O
ano de 1968 marcou, na história da humanidade ocidental, o
contrário exato da atual mediocridade – o nascimento da moderna
liberdade de pensar e fazer. A busca da verdade e do sonho de um

momento sem peias. Precisamos voltar a falar sobre isso.

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