O Globo
Igualdade na diferença
Carlos Diegues

Eu acredito no amor. Acredito até que um homem pode amar uma mulher por toda sua vida, sem ser amado por ela. Se esse amor for de verdade, daqueles que duram mesmo a vida inteira, ele pode muito bem dedicar sua existência à tentativa de conquistá-la. E vai precisar de aproximações pacíficas, emails vulgares, poemas mal escritos via whatsapp, discursos ao vivo em quase prantos. Isso pode?

Uma vida inteira é tempo demais para que alguma coisa dure sem sucesso. Mas cansamos de acompanhar esses amores eternos, mesmo que unilaterais, na literatura romântica e num velho cinema de Hollywood, antes que o mundo pirasse nos anos 1960. Conhecemos a história trágica de Werther, o romance de Goethe de 1774, fundador do romantismo; ou as desgraças amorosas da Madame Bovary, de Flaubert, e de Anna Karenina, de Tolstoi, heroínas clássicas do século XIX.

A partir da segunda metade do século passado, o amor perdeu um pouco de prestígio, foi sobrepujado pelas aventuras desvairadas da pílula e pelas dores geradas pela AIDS. Nesse início do século XXI, ele está voltando com a multiplicação de gêneros. E com novas regras, agora sob o potencial controle das mulheres mais ativas.

Eu acredito também no tesão. Não vejo nada demais, nenhum pecado, nem falta de civilidade, cruzar na rua com uma bela desconhecida ou com um rapaz charmoso e, por alguns  segundos, imaginar, de acordo com sua opção, essa pessoa em sua cama. O que está errado não é que você ame ou sinta tesão. Mas, sim, que só você tenha direito de amar e sentir tesão. E que, por isso mesmo, tenha direito a todos os gestos possíveis, violentos ou não, para realizar seu desejo.

A vontade é um exercício intelectual a que aderimos conscientes, em nome de um projeto qualquer, individual ou coletivo. Já o desejo é uma necessidade íntima a que só os santos resistem por conta própria.

Cabe ao conjunto dos homens e mulheres dizer que desejos não podemos transformar em atos, quando não é possível admitir que eles se tornem gestos. Assim construimos uma ética para nosso tempo, como todos os complexos morais que foram ajudando a humanidade a avançar, um conjunto de hábitos e comportamentos de acordo com cada momento da história. Não acredito em éticas perenes, religiosas ou  não. O Papa Nicolau V, por exemplo, autorizou o rei Afonso V de Portugal a escravizar, entre outros povos, os negros africanos, numa bula de 1452. Imagino o horror do Papa Francisco, cada vez que é lembrado disso!

Ninguém pode educar o desejo, mas podemos impedir sua manifestação quando ele for hostil ao outro. Essa é uma vitória da civilização, uma das bases de sua existência. E é esse, creio, um dos objetivos, expresso ou não, das mulheres desse novo feminismo que ganha o mundo.

O amor não é um fim em si, mas o começo de alguma coisa sempre nova. Ele não é o fim da estrada, mas a estrada sem fim onde tudo pode acontecer. Se proibirmos o amor por obsceno e o tesão por incivilizado, estaremos excluindo de nossa vida o nosso próprio sentido de ser, as bases na qual a humanidade foi construida. O que as feministas estão tentando nos dizer é que temos de acabar com o império do macho nessa história, dividir o destino do mundo com as mulheres e os outros gêneros, reconhecer o direito que todos têm de igual protagonismo.

Não importa se, na verdade, se tratava do lançamento de uma plataforma política, o discurso de Oprah Winfrey, no Globo de Ouro, dirigia-se ao futuro de modo visceral. Como se, sem aquele futuro que ela viu em seus sonhos, fosse impossível viver. “Por muito tempo”, disse Oprah, “as mulheres não foram ouvidas ou não se acreditava no que elas contavam sobre o poder de seus homens. Mas o  tempo deles acabou (...) Quero dizer às meninas que estão me ouvindo que tenham certeza de que um novo dia está nascendo no horizonte”.

O mundo hoje virou um campo de batalha. Ou sempre foi um campo de batalha, a gente é que nem sempre percebia. Temos esperança de que o amor medie essa crise humanitária, para que traga de volta a paz na vida em comum. Em “Eduardo 3º”, de William Shakespeare, o rei paquera a Condessa com tiradas insinuantes. Quando ela lhe pergunta o que pode dizer ao soberano, o rei lhe responde: “Pra que lingua se os olhos falam tanto, falando mais que a oratória o encanto?”.  Bem, não me lembro mais quem um dia me lembrou que não adianta querer ser Shakespeare na terra de Dercy Gonçalves. Mas gosto dessas gentilezas de reis enamorados. Espero que não nos tirem nunca essa esperança, não nos digam que o amor gentil não pode mais existir.

As mulheres contemporâneas estão exercendo o justo papel da luta pela igualdade.  Uma igualdade que não elimina a diferença. O mundo não pode perder a graça da diferença, a grande graça da existência do que não é igual a nós. Mesmo o transgênero procura seu amor ou sua tesão numa diferença qualquer. Porque é esse o princípio do amor: buscar no outro o que não somos, satisfazer a diferença, torná-la real num momento qualquer da tesão. Sem ninguém mandar em ninguém.

Em Maceió, entre o aeroporto e o centro da cidade, a gente passa por um motel chamado “Amor e Dengo”. Quase parei para me hospedar lá. Tem muita gente, de todos os gêneros, que não consegue viver sem um cafuné.


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