O Globo
Perto do nosso coração
Carlos Diegues
O Festival de Havana, o mais importante evento cinematográfico da
América Latina, acontece a partir dessa semana. Essa é a 39ª edição
do festival, cujo nome oficial é Festival Internacional do Novo Cine
Latino-Americano. Um título tipicamente nosso, folgado como
sempre fomos, envolvendo todos os mitos clássicos do que
pretendem nossos filmes – internacionais, novos, com a nossa
identidade geográfica e cultural.
Independente dos regimes políticos vigentes, não há nenhum outro
povo no mundo mais parecido com o nosso. Os portugueses não
estiveram no Caribe, mas a outra metade da península ibérica que
ocupou a ilha de Cuba acabou envolvida pelas mesmas influências
que formaram o nosso caráter.
Lá, entre outras façanhas, os escravos trazidos da África impuseram
aos europeus a convivência com a Santería, como aconteceu no Brasil
com o Candomblé. Os negros da América do Norte, mesmo já libertos,
se tornaram músicos de gospel nas igrejas cristãs, nunca fizeram
nada parecido com samba ou conga, rumba ou batuque. Nunca
produziram um Cartola ou um Bola de Nieve, o velho e popular
compositor de boleros já falecido que, por “decadente”, não era muito
bem visto pelas autoridades que sempre preferiram o pop engajado
de Pablo Milanés.
A primeira vez que fui a Cuba, em 1981, foi como presidente do júri
do Festival de Havana que deu o Coral de melhor filme a “Eles não
usam blacktie”, do nosso grande cineasta Leon Hirszman. Meu
encanto imediato por Havana não se resumiu a uma solidariedade
social e política inevitável, mas se estendeu também a um amor
sincero por tudo que eu via, ouvia e experimentava pela cidade afora.
O pessoal do protocolo nos levou um dia, a mim e a Leon Hirszman,
para almoçar na famosa Bodeguita, onde Ernest Hemingway passara
grande parte de sua vida bebendo e escrevendo. Tomados pela
comida que nos serviam e pelas canções que ouvíamos, mal
percebemos que nos embriagávamos um pouco com o generoso rum
que nos era oferecido. No fim da tarde, ao deixarmos a Bodeguita,
com o sol mortiço e sombras noturnas tomando a cidade, olhamos
em volta para as ladeiras e o povo que subia e descia por elas, a

requebrar e sorrir para ninguém. Leon me abraçou pelos ombros e,
com voz emocionada, me perguntou sussurrando:
“Como é que nós viemos parar na Bahia?”.
Estávamos num lugar que conhecíamos bem, sem nunca termos
estado ali. Um lugar com o qual podíamos dividir nossos sentimentos
e nossas lembranças, nossas ideias e nossos atos, um lugar onde
todos nos entenderiam muito bem porque estávamos entendendo a
todos. Não é só com o povo da Bahia que os cubanos se parecem; mas
com todos os povos do Brasil, não importa de que região ou etnia.
Não existe outro lugar no mundo em que eu me sinta tão em casa e
essa sensação se aprofundou conforme fui conhecendo melhor o
cinema cubano e seus mestres de todas as gerações.
Um filme como “Memórias do Subdesenvolvimento”, de Tomás
Gutierrez Aléa, o mesmo realizador do sucesso internacional que foi
“Morangos e chocolate”, serve tão bem para dizer quem somos,
quanto “Rio, 40 graus”, de Nelson Pereira dos Santos, ou “Terra em
transe”, de Glauber Rocha. Talvez por isso mesmo nos entendamos e
sempre nos entendemos tão bem, mesmo quando divergimos
politicamente. Nunca, ao longo de toda a história do cinema latino-
americano moderno, os cineastas brasileiros e cubanos estiveram em
campos opostos do cinema.
Quando Barack Obama e Raul Castro se apoximaram para romper de
vez a cruel segregação, o bloqueio internacional que Cuba ainda
sofre, imaginei a alegria dos cubanos que conheci. Tenho certeza de
que estavam cansados de sofrer por uma revolução impossível, que
as novas gerações se preparavam para construir uma nova Cuba, com
o mesmo caráter e a mesma personalidade com que enfentaram o
poderoso inimigo no passado, sem os equívocos que impediam que
caminhassem em direção ao futuro.
Agora, vem esse monstro autocentrado, esse animador de
apocalipses, esse assassino insaciável da paz e da concórdia que é o
presidente dos Estados Unidos, e começa a desmontar os acordos
celebrados por Obama e Raul. O horror que Donald Trump leva ao
Oriente Médio nesse momento talvez seja o que deve nos causar mais
asco e medo. Mas o que esse homem do mal deve estar preparando
para Cuba não será menos relevante, sobretudo para nós que
estamos tão perto e para os nossos corações.
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