O Globo
Pro dia nascer feliz
Carlos Diegues
Talvez a felicidade não exista mesmo. O que deve existir são
momentos felizes e infelizes, pelos quais todo ser humano passa ao
longo de sua vida. Moralmente nada impede que prefiramos os
momentos felizes aos infelizes, que saibamos sobreviver a esses e
lutemos para esticar aqueles. É esta a luta permanente do ser
humano, disfarçada em pretensões políticas ou amorosas, espirituais
ou existenciais, seja lá o que for. Cada um escolhe o que prefere viver.
Cada vez que nossas utopias sociais entram em crise, cada vez que
elas se afastam de nosso horizonte como se nunca fossem se realizar,
temos a tendência a nos culpar e punir, como se fôssemos os
responsáveis pelo fracasso de todos. Entram na moda revolucionária
a tristeza e a melancolia, tornam-se reacionárias a alegria e a festa. Se
você por acaso sorri é um irresponsável; sua obra (e se possível sua
vida também) tem que produzir somente lamento e pena. É como se
a agonia e sua sombra fossem a prova dos nove de nossa sinceridade
revolucionária.
O elogio da morte é o próximo passo - só morrendo podemos garantir
a urgência do que pregamos. Os mártires se tornam assim heróis
absolutos, cobrando de nós o que nunca pedimos que fizessem. Se
bobearmos, a pressão do martírio nos faz esquecer a sabedoria do
poeta grego da Antiguidade que dizia que, se a morte fosse um bem,
os deuses não seriam imortais.
Na história do Brasil moderno, essa luta entre a vida e a morte na
cultura sempre esteve em destaque. Entre 1964 e 68, naqueles
quatro primeiros anos de ditadura militar ainda não consolidada,
jovens artistas e pensadores pelo país afora pareciam querer se
adiantar ao que estava para acontecer, fortalecendo idéias de
construção e vida, contra a sujeição ao silêncio a que tentavam
condená-los.
Os filmes do Cinema Novo, assim como a peça “O rei da vela”, não
eram simples espetáculos dramáticos, mas propostas muito objetivas
de elementos novos e originais que nos permitiam compreender o
Brasil que nos haviam escondido até ali, durante centenas de anos, e
que agora nos surpreendia. Em vez de nos tornarmos vítimas inúteis
da desgraça circunstancial, inventávamos outra forma de entender o
que vivíamos, de viver novamente. Zé Celso Martinez Corrêa, o líder

do Teatro Oficina, dizia que isso não era um gesto banal de
resistência, mas um desejo de re-existência, o aprendizado de um
mundo novo. Nossa vitória era seguir vivendo.
Nascido oficialmente em 1967, durante o frenesi de um Festival da
Canção daqueles, o Tropicalismo foi a mais bela síntese dessa ideia de
viver com gosto a vida possível, entendê-la a partir de novos
elementos a descobrir, revelar e montar. O Tropicalismo melou a
melancolia inevitável do fracasso eventual, misturando elementos da
tradição que amávamos tanto, com o mundo do presente vivo vindo
de fora. Na minha opinião, a genial soma clara disso tudo está na
canção “Baby”, de Caetano Veloso.
A experiência do Tropicalismo vibra entre nós, até hoje, em nossa
moderna tradição cultural, porque ela talvez tenha sido a mais forte
de todas, aquela que acertou o coração e a mente de nossos sonhos.
Mas nem por isso foi única. Muitos outros jovens, através dos anos
que se sucederam à ditadura, cantaram para fazer o dia nascer feliz.
Apesar dos sinais de movimentos e projetos totalitários que
ameaçam a cultura brasileira, não acredito que eles serão bem
sucedidos. Hoje, o problema do Brasil não é mais o dos anos 1960,
quando estávamos em plena Guerra Fria e a direita no poder
precisava eliminar a liberdade de expressão para impor sua ideia de
sociedade. O que temos que temer agora de imediato é a destruição
de nossa economia, o desmantelamento de nosso estado
democrático, a desordem jurídica, o desprezo à crescente
desigualdade, o desmonte de nossa forma de viver. Apesar das
aparências, estamos hoje num mundo muito mais sofisticado do que
o de 50 anos atrás, e isso exige de novo um esforço cultural inédito.
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Para quem ainda duvida da vitalidade do cinema brasileiro, sugiro
dar uma olhada na programação das salas nessa semana.
Além das estréias de “Gabriel e a montanha”, de Felipe Barbosa, “No
intenso agora”, de João Moreira Salles, “Vazante”, de Daniela Thomas,
“Gosto se discute”, de André Pellenz, e “Olhando para as estrelas”, de
Alexandre Peralta, continuam em cartaz os filmes “Bingo”, “A
comédia divina”, “Como nossos pais”, “Como se tornar o pior aluno da
escola”, “Duas de mim”, “Entre irmãs”, “Pendular”, “Policia Federal”,
“Um tio quase perfeito” e duas animações, “Historietas assombradas”
e “Lino”.

E se você quiser ver filmes desse ano que deixou passar, recorra ao
“18º Projeta Brasil”, nessa segunda feira, em todas as salas Cinemark,
a R$ 4 o ingresso. Poucas cinematografias no mundo têm condição de
exibir essa qualidade espalhada por tanta diversidade.
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