O Globo
O rei do trombone
Carlos Diegues

A felicidade é um assunto que está meio fora de moda na cultura brasileira de hoje. Certamente por causa dos dias difíceis que estamos vivendo, mas também por causa da relação de nossos artistas com o que pretendem da vida e do mundo em suas obras. Nem sempre foi assim. E olha que, em certo sentido, a barra no passado já esteve bem mais pesada para todos nós.

O Brasil parece incapaz de encontrar um rumo certo para um futuro melhor. Ao longo de nossa história, vivemos momentos de muita esperança e até euforia, aos quais se seguiram sempre grandes fracassos e crises de melancolia. É como se, com o fim de nossos sonhos, o Brasil não merecesse existir.

Foi assim no entusiasmo do nacionalismo desenvolvimentista pós-Vargas, que terminou com o golpe militar de 1964; com a redemocratização a partir de 1985, que culminou com hiper-inflação e moratória internacional; com o otimismo das eras FHC e Lula, que se encerraram com o desastre político, econômico e social que vivemos hoje. A cada momento que parecemos encontrar uma saída para o país, a força de eternos defeitos nos empurra para a inevitável  miséria de nossa existência.

Mas, como a verdade nem sempre está com o conjunto de aparências a que chamamos de realidade, o Brasil tem sido fértil em artistas e pensadores que se negam a aceitar o desastre como uma vocação ou uma fatalidade insuperáveis. Eles sempre estiveram por aí, agitando nosso direito de sermos felizes.

Em 1967, no clímax da ditadura militar que se consolidaria no ano seguinte, o Grupo Oficina, em São Paulo, descobre o anarquismo antropofágico de Oswald de Andrade e monta a peça “O rei da vela”, escrita em 1933 num Brasil afogado nas consequências da crise financeira de Wall Street que abalara o mundo. Um espetáculo que marcaria para sempre o teatro brasileiro, por sua liberdade revolucionária e por sua busca de valores culturais que melhor nos expressassem. José Celso Martinez Correa, Renato Borghi, Itala Nandi, Helio Eichbauer, todos os responsáveis pelo grupo propunham o desmonte do convencional e a exaltação da alegria como resposta ao regime anti-democrático que se impunha.

O espetáculo era dedicado a Glauber Rocha, por causa do filme “Terra em transe”, marco inaugural do que seria conhecido como tropicalismo. No manifesto de lançamento de “O rei da vela”, Zé Celso afirmava que “a peça é fundamental para a timidez artesanal do teatro brasileiro de hoje, tão distante do arrojo estético do Cinema Novo”. Não se tratava apenas de arrojo estético, mas também de assumir o direito e o prazer de pensar por nossa própria conta.

Dez anos depois, em 1977, quando a ditadura militar começava a revelar seu cansaço e a propor uma certa “abertura” no regime, um outro grupo teatral que já existia desde 74 no Rio de Janeiro monta a peça “Trate-me leão”, espetáculo fundador de uma nova dramaturgia criada pelo coletivo Asdrúbal Trouxe o Trombone.

Dirigido por Hamilton Vaz Pereira, “Trate-me leão” era um longo improviso de quase cinco horas de duração, em torno do que fosse comum aos jovens de então. Sempre com muito bom humor,  tudo era criado em nome da celebração da vida e do direito de se ser o que se quer ser. Ao ver a peça, Zé Celso, o diretor de “O rei da vela”, afirmou que não se tratava de um espetáculo banal de resistência, mas um exercício de  re-existência. Ou como se comportar num mundo novo.

Além de revelar grandes intérpretes, como o próprio Hamilton, Regina Casé, Luis Fernando Guimarães, Patricia Travassos, Evandro Mesquita, Perfeito Fortuna, Lena Brito e outros, o texto improvisado atraiu grandes nomes da cultura brasileira nos anos 1960 e 70, como Caetano Veloso e Gilberto Gil, que já haviam vivido o impacto de “O rei da favela”.

Tudo isso deve parecer muito estranho a quem está absorvido pela disputa ideológica de hoje. Quando, por exemplo, por causa do tendo como vítima o filme “Vazante”, de Daniela Thomas, se espalha por aí uma nova censura sofisticada, uma obsessão pelo “lugar da fala”, gíria universitária que serve para impedir que se pense sobre o que a cada um der na veneta. A triunfal volta das patrulhas ideológicas sobrevoa a produção cultural, exatamente quando mais precisamos de liberdade para, em nome da felicidade, pensar coisas nem sempre consagradas que podem nos ajudar a sair dessa crise que nos tira o ar.

Para provar que há certas ideias que resistem ao tempo enquanto o tempo precisar delas, “O rei da vela” está sendo re-encenada com grande sucesso, 50 anos depois de sua estréia, no novo Teatro Oficina que enfrenta a ganância de Silvio Santos. E, a partir desse mês, o Canal Viva estará exibindo uma série em 13 episódios sobre o Asdrúbal, um documentário brilhante dirigido por pelo próprio Hamilton Vaz Pereira, 40 anos depois da estréia de “Trate-me leão”. Como está em Oswad de Andrade, “se alguma coisa já exaltou o homem, foi a palavra liberdade”.
Volta