O Globo
O indivíduo criou o estado
Carlos Diegues
Cultura são os objetos e as ideias do homem, tudo o que ele inventou
num mundo que não foi ele que criou. A cultura é sempre o conjunto
das criações humanas físicas e espirituais, em geral ou de uma nação
em particular. Nesse sentido, o homem pode se gabar do fogo e da
fala; enquanto os ingleses, por exemplo, se vangloriam da máquina a
vapor e de Shakespeare.
Nem todo mundo chama cultura de cultura. Os cientistas sociais a
estudam na cátedra de Antropologia. Os literatos, na Academia. Com
a vitória universal do capitalismo, agora inclusive em sua versão
chinesa, apelidada por Xi Jinping de Nova Era, tem cada vez mais
gente que só a trata por “economia criativa”.
O samba feito na Rocinha também é cultura; assim como acabam
sendo cultura os repetidos tiroteios por lá. Para citar batuques e
balas, podemos chamar nossa cidade de puta sonhadora ou perdida
de bom coração. Vagabunda de passado gentil também serve. Como a
lembrança é igualmente cultura, só o ser humano a possui com tal
complexidade, misturada com um pouco de imaginação.
Quem produz cultura é o indivíduo, alimentado pelo que tantos
outros fizeram antes dele, pelas dicas que recebe desde que nasceu. O
gênio de Albert Einstein não se manifestaria daquele jeito, se não
tivessem existido, antes dele, Aristóteles, Copernico, Galileu, Kepler,
Newton, Maxwell, tantos outros. A soma deles todos resultou na sopa
de conhecimentos da qual saiu o criador da Teoria de Relatividade.
No mundo real da natureza, só existe o indivíduo. O resto, como já
dissemos, é cultura, aquilo que o indivíduo quis ou precisou criar,
para melhorar a vida de todos. Ou, às vezes, apenas para sobreviver.
O estado, por exemplo, foi criado para organizar melhor os homens.
O estado serve para permitir que vivamos juntos, sem precisarmos
sair por aí matando uns aos outros para sobreviver. Mas foram os
indivíduos que criaram o estado, e não o estado que criou os
indivíduos. Essa representação de um conjunto de homens que
precisam estabelecer regras de convivência serviu, desde o início,
para que eles não brigassem pelo que podia ser repartido. Mesmo
que não tenha sido criado com palavras tão sofisticadas, o estado é
um ditame superior à nossa vontade pessoal, para que essa se
submeta ao interesse comum.

O limite do papel do estado ficou claro e determinado quando
inventamos o estado democrático de direito. Nessa invenção
superior, a mais próxima do melhor em defesa da espécie, as regras
foram consagradas pelo senso comum baseado na liberdade
individual. E foram escritas para a segurança dessa liberdade,
vigorando para todos e tudo. A cultura humana inventou o estado
para protegê-la da barbárie e seu ódio ao indivíduo.
O estado não pode se meter naquilo que queremos fazer de nossa
vida individual, não tem o direito de se meter em nosso rumo
pessoal. Muito menos em nossos sonhos, expressos pela arte. Não
tem nada a ver com o que permitimos nossos filhos de assistir e fazer
num museu, num teatro ou num circo. Se nossas decisões não ferem o
direito do outro, não esbarram nas regras indispensáveis à
convivência, elas pertencem unicamente a nós, para o bem ou para o
mal.
Não quero que o estado me diga o que é certo e o que é errado na
minha vida pessoal. Cabe a mim escolher o caminho que julgar
conveniente, contanto que não atrapalhe a vida de ninguém. E não
quero voltar a fazer as coisas escondido, como tantas vezes fui
obrigado a fazer durante a ditadura militar. Não quero voltar a tratar
o estado como o inimigo que me censura e me impede de seguir o
caminho que julgo mais conveniente.
Só como indivíduo posso saudar e viver a vida, vivê-la da maneira
mais intensa (“se a morte fosse um bem”, dizia um poeta grego, “os
deuses não seriam imortais”). Detesto os que falam em nome de
maiorias de fantasia, embora reconheça que sem as maiorias não há
democracia possível. Mas elas só pensam em manter seus privilégios
no conjunto de seus iguais, enquanto as minorias estão sempre
empenhadas em lutar por seu espaço e seus direitos. É isso que, às
vezes, o mundo muda.
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Não sei se ainda adianta procurar por ingressos, me disseram que o
teatro já está lotado até o fim da temporada. Mas fique de olho e, se
der, não deixe de ir ver o espetáculo com Caetano Veloso e seus filhos
Moreno, Zeca e Tom, no teatro. Caetano é capaz de harmonizar os
meninos em torno do que há de melhor na música, com serenidade,
humor e delicadeza (coisas que andam faltando tanto no Brasl), sem
deixar de ser, como sempre, radical em suas ideias. Um espetáculo
sobre pais e filhos, em que a mãe é o personagem ausente que

estrutura tudo. Todo homem precisa de uma mãe, como diz a
comovente canção de Zeca Veloso.
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