O Globo
O bloco do eu sozinho
Carlos Diegues

A saída dos Estados Unidos da Unesco não é mais uma “doidice” de Donald Trump, um de seus típicos gestos de animador de auditório de televisão, ofício que exerceu no início de sua carreira pública, em busca de audiência a qualquer preço. Ele deve ter pensado em seus eleitores, aqueles americanos de cidades médias, vestindo chapéus de cowboy, que nunca deixaram o território de seu estado de origem e não têm a menor ideia de que existe um troço chamado “mundo”. Aqueles americanos de botas que garantem que Buenos Aires é a capital do Brasil e que, em Paris, se faz amor nas ruas protegido por gendarmes.

A retirada da Unesco, o órgão da ONU dedicado a educação e cultura, é mais uma confirmação de sua anunciada política de “America First”, palavra de ordem que ajudou a eleger Trump por tanto agradar os admiradores tarados pelos tiros de John Wayne no Alamo. Trump evita assim qualquer influência internacional naquela consagrada cultura da América profunda, ao mesmo tempo que se afasta de mais um compromisso com os bárbaros não-americanos. Como já fez abandonando o Acordo do Clima de Paris, denunciando o tratado nuclear com o Irã, rompendo o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, com Canadá e México), retirando-se do Acordo Transpacifico de Cooperação Econômica (TPP, com Canadá, México, Japão, Austrália, Chile, Nova Zelândia, Malásia, Vietnã, entre outros países do Pacífico), acabando com as relações com  Cuba iniciadas por Barak Obama.

Como ele gosta, Trump levanta um gigantesco muro higiênico entre os Estados Unidos e o resto do mundo, inaugurando uma política iluminada por nova palavra de ordem, a “America Only”.

Quem ganha com isso é, em primeiro lugar, a China. Segunda economia do planeta, a China não terá dificuldade alguma em substituir os Estados Unidos no sustento da Unesco, incluindo aí a velha dívida americana com a instituição, que é de cerca de US$ 600 milhões. Os chineses vêm, não só comprando empresas e ocupando espaços ligados à cultura no mundo inteiro (sobretudo na área do audiovisual), como também educando quadros para influir na administração e na regulação de organismos internacionais. Guardem, por exemplo, esse nome: Qian Tang, um funcionário qualificado que Pequim prepara para eventuais cargos importantes em órgãos como a Unesco.

Antigamente, no carnaval de rua carioca, havia foliões que preferiam tentar se divertir sozinhos, longe de grupos e blocos. A gente os chamava de “bloco do eu sozinho”. Em geral, iam para casa mais cedo, frustrados em sua solidão. Ou então piravam de vez, não chegando nunca mais em casa ou a lugar nenhum.

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Como Ancelmo Gois noticiou outro dia, o Tempo Glauber está ameaçado de fechar as portas por causa de uma suposta dívida com o INSS, dono do imóvel onde a instituição está instalada há anos. O Tempo Glauber foi fundado em 1983, dois anos depois da morte prematura de nosso maior cineasta, por sua mãe, dona Lucia Rocha, falecida recentemente.

Com a ajuda de familiares, técnicos e cineastas, dona Lucia acumulou no Tempo Glauber toda a documentação existente sobre o filho, sua obra literária, roteiros, desenhos, fotografias, cópias de seus filmes, tudo que servisse para melhor entendermos o que Glauber Rocha significou para a cultura brasileira e para o cinema mundial, na segunda metade do século XX.

Além de colocar esse material ao alcance do público, o Tempo Glauber promoveu, ao longo dos últimos anos, seminários, ciclos de filmes e exposições fundamentais para a compreensão do tempo de Glauber. Não só brasileiros de vários estados, como também estudiosos de todo o mundo, vieram se servir dessas informações, fazendo da instituição um indispensável  centro de cultura brasileira e latino-americana.

O Tempo Glauber se tornou possível quando, ainda no governo José Sarney, o primeiro da redemocratização do país, por iniciativa do ministro da Previdência, Raphael de Almeida Magalhães, o INSS cedeu o imóvel onde a instituição se instalou, em Botafogo. Agora, o mesmo INSS quer recuperar o prédio e cobra um aluguel de 25 mil reais, além de supostas dívidas atrasadas, para não expulsar dali o Tempo Glauber. Por ser um centro exclusivo de serviço cultural, o Tempo Glauber não tem receita e seu credor pode facilmente acabar com ele. Se fechar, seu  acervo vai se perder e tudo o que ele promove será, como sempre acontece no Brasil, uma tênue lembrança longínqua do passado.

E isso está acontecendo justamente no ano em que o mundo inteiro comemora o 50º aniversário do lançamento de “Terra em transe”, o filme de Glauber Rocha que mudou a história do cinema brasileiro e influiu tanto no cinema mundial. Parece até parte de uma campanha para que não lembremos nunca do que somos. Ou fomos.     


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