O Globo
Tragam suas crianças
Carlos Diegues

Em 1865, o quadro Olympia, do pintor Edouard Manet, um dos pais históricos do Impressionismo, foi recusado no Salão de Belas Artes de Paris. O quadro rejeitado foi então exposto no Salão dos Recusados, onde provocou um escândalo sem precedentes. Olympia retratava uma mulher nua, deitada na cama enquanto uma criada lhe trazia flores.


Além de mal pintado, um borrão de cores desordenado, atentado à boa pintura de uma época neo-clássica e acadêmica,  Olympia foi acusado também de indecente e pornográfico. Professores e estudantes de Belas Artes organizavam passeatas contra a obra, mães de família cobriam o quadro com lençóis para que ele não fosse visto, jornalistas zombeteiros faziam piadas ao vivo e em seus jornais.


Não se tem noticia, porém, de nenhuma autoridade local propondo sorridente que a tela e seus admiradores fossem jogados no fundo do mar.


Exatamente 150 anos depois, no verão europeu de 2015, o Museu d’Orsay e o l’Orangerie, duas das principais salas de exposição de arte em Paris, iniciaram intensa campanha de promoção de suas mostras com uma frase:  “Emmenez vos enfants voir des gens tout nus” (em tradução livre, “tragam suas crianças para ver pessoas completamente nuas”).  E a imagem que ilustra a frase, nos cartazes da campanha, é a da tela Mulher Nua Deitada, pintada em 1907 por outro mestre impressionista, Auguste Renoir.


Os cartazes foram espalhados pelas ruas, por pontos de ônibus e estações de metrô, por onde quer que a população de Paris passasse. Segundo a diretora do Museu d’Orsay, a campanha, além de lembrar que os filhos podem ser responsáveis pela presença dos pais nas exposições, pretende também educar as crianças para um melhor conhecimento da vida através da arte. Mesmo uma tela como a célebre A Origem do Mundo, de Gustave Courbet, simples, dinâmica e bela reprodução do órgão sexual feminino, está liberada para a visão das crianças.


O estado francês não tem o direito de se meter nesse assunto e não se meteu. A aprovação da maior parte da população do país coroa o avanço ético e educacional que o procedimento representa. Não se pode tratar crianças como débeis mentais, protegidas do mundo pela ignorância cultivada pelos pais e educadores; elas são responsáveis pela direção que o mundo um dia vai tomar. Qual o problema de conhecerem melhor o corpo humano e seu funcionamento? Para que serve a vida?


Além disso, vai à exposição e leva seus filhos quem bem quiser, contanto que não incomode ninguém. Quem não quiser, tampouco será obrigado a ir, sozinho ou acompanhado. É assim que funciona a democracia.


Uma emergente mentalidade restritiva e boçalizante tem se tornado frequente no Brasil de hoje. Os esforços do nosso Modernismo na cultura brasileira, sobretudo durante a segunda metade do século XX, frustram-se na proibição de manifestações de liberdade, de novos conhecimentos, de exercícios da diferença e de alegria. O Modernismo nos ensinou o direito de sermos felizes. Ele livrou o Brasil da falsidade colonial, de uma cultura de repressão, da negação do que somos.  E agora somos ameaçados por essa aurora de um novo medievalismo cheio de  preconceitos e de sombra. Antes de tudo, se condena a felicidade.


Os nazistas sabiam que a cultura é o cerne de toda nação que se quer formar. Goebells inaugurou o domínio deles sobre a Alemanha com uma exposição de “Arte Degenerada”, uma seleção de tudo que fosse liberdade criativa, tudo que representasse manifestação livre da invenção humana. O mais importante teórico do Partido Nazista, Alfred Rosenberg, acusou de degenerada a estética modernista de pintores como Chagall, Mondrian, Kandinsky, Klee,  todos eles, cujas telas foram queimadas, antecedendo a grande fogueira de livros que representavam o mesmo “subjetivismo degenerado”.


Essa experiência não ficou perdida no tempo.  Agora mesmo, já no século XXI, conhecemos o movimento político e cultural dos Talibãs no Afeganistão e do Estado Islâmico no Iraque e na Síria, destruindo monumentos e cidades inteiras, sob o pretexto de adorações que contrariavam as crenças do islamismo. O fundamentalismo se repete no mundo inteiro, através de ações intolerantes em nome das religiões mais populares.


No Brasil, além da violência contra o Queermuseu em Porto Alegre e a performance La Bête no MAM de São Paulo, já tivemos a depredação do túmulo de Chico Xavier em Uberaba, a destruição de uma casa de candomblé apedrejada em Nova Iguaçu, a proibição da peça “O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu” por um juiz do interior paulista, a alegre proposta de atirar uma exposição inteira no fundo do mar. E por aí afora.


A arte é um ofício solitário e sem limites conceituais, ninguém pode tentar domá-la em benefício de uma ideia que lhe é estranha. Desde as estátuas nuas de deuses e heróis gregos, tem sido sempre assim e assim sempre será. Esse é o jeito que temos de saber quem somos e o que queremos ser. A censura a isso, seja em nome do que for, é sempre  inaceitável.


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