O Globo
A festa que merecemos
Carlos Diegues

Em meu livro “Vida de Cinema”, publicado em 2014 pela Editora Objetiva, começo um de seus capítulos dizendo o seguinte.

“O Brasil saía de longa ditadura para a esperança de um horizonte democrático. No primeiro Rock in Rio, realizado na Barra da Tijuca em janeiro de 1985, reunindo mais de 100 mil pessoas durante uma semana para ouvir grandes estrelas internacionais do rock, as bandas brasileiras empunhavam bandeiras nacionais, coisa que se tornara mal vista, desde que os militares haviam imposto rituais patrióticos nas escolas do país.

Ninguém se importava  com a lama que as chuvas de verão deixavam no terreno preparado às pressas para o evento. Muito menos com o cheiro de urina provocado pela cerveja, pelos banheiros precários ou pelos espectadores que desabafavam por ali mesmo, no chão de terra. Depois de tanto samba de protesto e tantos filmes cívicos de resistência, a festa inaugural da democracia brasileira seria um show de rock’n’roll”.

Vou me lembrar sempre do Rock in Rio de 1985 como aquela “festa inaugural”, um projeto de introdução ao que esperávamos que se tornassem os anos que haveriam de logo vir.

Em vez disso, vivemos período tenebroso de super-inflação e moratória da dívida externa, de farsas cívicas que foram coroadas com a eleição de Fernando Collor de Mello, o primeiro presidente a suceder os ditadores militares, eleito pelo voto universal e direto, sob as bênçãos da nova constituição democrática e “cidadã”. Dois anos depois, o presidente eleito pela maioria do povo brasileiro seria apeado do poder, condenado ao impeachment pela corrupção generalizada dele e de seus pares.

Mas ali, na noite da Barra da Tijuca, Cazuza e seus parceiros, com os olhos iluminados, faziam enormes bandeiras do Brasil bailarem ao vento, nos enchendo de orgulho e tanta esperança. Ouvíamos James Taylor cantar a melancólica “You’ve got a friend”, como um hino a anunciar nosso futuro solidário, o futuro de um povo renascido.  O exagero da festa nos fazia vencer a tristeza dos mais de vinte anos que antecederam aquela noite.

Para isso é que servem as festas. Para, nos piores momentos, nos alimentarem de alguma esperança e planos possíveis para o futuro.  Para acreditarmos que podemos ser felizes, como no carnaval ou no reveillon. Como no Rock in Rio de 1985.

Talvez seja esse mesmo o melhor momento para comemorarmos. O Brasil moderno nunca passou por uma crise tão profunda, tão radical, tão dolorosa como essa. Nós nunca sofremos tantas dúvidas, decepções e dores de diversas naturezas cívicas. E, no entanto, estamos todos vivos, não apenas no sentido físico da vida, mas sobretudo no sentido moral, no da expectativa de futuro.

Com mais ou menos entusiasmo, cada um de nós tem um plano para esse futuro, valendo-se da força de nossas próprias convicções, da liberdade que conquistamos, das bases construtoras de nossa existência como nação. Nossos políticos podem mentir, roubar, trair nossa confiança, não importa de que partido venham. Mas eles não são o Brasil – o Brasil desmoronou mas não ruiu. Punir seus políticos agora, sejam eles quais e quantos forem, não significa que estamos punindo o país, muito pelo contrário. Outro dia, alguém disse que, com toda essa crise, podemos estar vivendo o começo da “primavera brasileira”. Acredito nisso.

Uns querem diretas já, outros preparam as campanhas de seus candidatos para 2018. Já disse que eu, por exemplo, gostaria de aproveitar 2018 e a profundidade da crise para refundar o Brasil, sem nenhum apelo à tradição antiga ou recente, fatalmente corrompida, propondo novas políticas com novos políticos, ignorando tudo que ficou para trás e só nos fez muito mal. Talvez esteja na hora de propormos a nova civilização que o Brasil pode fundar e representar.  

Justamente por isso, não é hora de curvar-se ao presente como se fosse o nosso destino, não é hora de aceitar o sofrimento como inevitável e bem vindo. O sofrimento só pode ser bem vindo para os religiosos tarados da auto-flagelação, aqueles que precisam sofrer para merecer o paraíso celeste ou a sociedade sem classes.

No Ano Novo de 2000, o então prefeito Luiz Paulo Conde me encomendou um documentário sobre a aurora do século XXI. O filminho tinha roteiro de Millor Fernandes, narração de Fernanda Montenegro e trilha sonora de Tom Jobim (o Conde era um prefeito que cultivava a cultura!). Eu até que andava meio triste, mas foi filmando o reveillon de 2000 que meu entusiasmo pelo tempo se consolidou. Quando comemoramos um Ano Novo ou um Rock in Rio, estamos celebrando nossa própria existência, nossa passagem por aqui. Não tem nada que mereça mais essa celebração.



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