O Globo
Todo domingo
Carlos Diegues

No domingo, o mundo entra em parênteses para que sacudamos os ombros e nos livremos de sua poeira acumulada sobre nós durante a semana. Mesmo que chova a cântaros, no domingo o sol não se poupa e se esconde do pranto para queimar por dentro, bem devagar. No domingo, pede cachimbo, mesmo que você não saia da cama, há sempre uma certa energia disfarçada na preguiça a que temos direito.  

No domingo, não tem guerra. A guerra é suspensa sem nenhum motivo para a paz, pois no domingo choramos a falta de não sabemos direito quem.

É o dia em que lemos tudo sem opinião formada, confrontando com a novela dos dias de semana nosso palpite sobre o sentido da vida. Como se de nós não se esperasse lá muita coisa, como se não merecêssemos mesmo a fé de ninguém.

Em  geral, é no domingo que temos vontade de dançar, embora permaneçamos deitados para a festa solitária no leito, sonhando com mais seres que nos amem. E se nossa fantasia é mais bela e não faz mal a ninguém, façamos o que mais nos convém e troquemos a realidade por ela.

Domingo é dia de pensar em estratégias, de projetar ataques ao inimigo. Até o fim do dia, quando, mudando de posição diante da televisão ligada, à qual mal demos atenção, descobrimos que o inimigo pode até ter razão. E nós, não. Dormimos então conciliados com as armas do mundo, aliados por esperteza ao acaso, pois segunda feira não nos restará muita esperança.

No gramado dominical, boas e mais fracas equipes batem bola para balançar as redes da razão, em disputa do troféu que quase todos irão receber. Temos nosso escudo aprovado há muito tempo, torcemos por ele, preparamos as mais ardilosas fintas contra seus adversários. Mas gostamos mesmo é do jogo jogado, os gols lá e cá, para que possamos sentir a febre do chute certeiro, mesmo que seja contra nosso próprio arco. Reverenciamos o prazer de ganhar, mas perder nos faz pensar.

Nesse dia, um dia de domingo, mesmo que trancados a chave, sob os lençois do reino em que reinamos, seja em que momento do ano for, temos o direito de proclamar que se trata do mais absoluto verão, que podemos esticar o corpo e decidir que viveremos para sempre.

Todo domingo a gente pensa sobre o resto da vida.

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E minha vida, o que já era e o que me resta, sempre foi e será sempre o resultado de minhas relações com o cinema brasileiro e as deste com o mundo.

O ano passado, foram lançados 143 filmes nacionais, número nunca antes alcançado. Mais importante que o número recorde é a diversidade dessa produção, representativa de diferentes regiões e gerações, estilos e políticas, modos de ver a vida e o entretenimento, a cultura e o gosto pessoal. O cinema brasileiro já foi um gênero, hoje é um espaço de vários gêneros, alguns clássicos e universais, outros inventados por nós.

Parece que a expectativa para esse ano de 2017 é ainda a de mais crescimento no número de filmes lançados. Contribui para isso, não só a multiplicação de projetos e produtores, como também o surgimento de novas casas distribuidoras, em geral independentes, entrando agora no mercado com novas ideias e preferências. Some-se a isso as firmes intenções, anunciadas pela Ancine e pelo próprio Ministério da Cultura, de o governo desburocratizar sua participação nesse crescimento.  

Essa semana, encontram-se em cartaz no Rio de Janeiro, começando ou encerrando suas carreiras comerciais, 12 filmes brasileiros.

Desde dramas realistas, como “Bingo”, sobre a tragédia do palhaço Bozo da televisão, e “Como nossos pais”, observação sensível sobre uma família de classe média; até comédias, como “Um tio quase perfeito”, fruto de nossa tradição no gênero, ou “Malasartes”, uma adaptação modernista de contos populares. De paixões existenciais, como “João, o maestro”, a história de nosso gênio do piano João Carlos Martins, a sentimentos mais secretos, como “O filme da minha vida”, dirigido e interpretado por Selton de Mello. Filmes infantis de grande sucesso popular, como “Detetives do prédio azul”, e filmes de temática exclusivamente adulta, como “Corpo elétrico”. Ou documentários sobre o próprio espetáculo, como “Um filme de cinema”, “Divinas divas” ou “O homem que matou John Wayne” (uma cinebiografia do nosso grande cineasta Ruy Guerra). Ou ainda “Doidas e santas”, do veterano diretor Paulo Thiago.

Mais do que um cinema nacional, esses filmes representam um país. Não importa se alguns deles são mais vistos do que outros; ou que outros sejam mais amados do que os primeiros. O que importa é que estamos todos em cada um deles, mesmo naqueles dos quais gostamos menos.


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