O Globo
Progresso contra civilização
Carlos Diegues
Ao longo da história da humanidade, o progresso nunca existiu como
ideologia social até que se tornou uma invenção do capitalismo
produtivo. Ou seja, um mito criado para justificar o lucro, o resultado
de sua produção em benefício do bem estar de todos.
Mas como seu rumo não depende de regras morais ou qualquer
pressuposto ético, o progresso não pode ser medida justa para o
julgamento do estado da humanidade. O que caracteriza o bem estar
de qualquer grupo humano é seu nível de civilização, a medida justa
dos valores que valem. A civilização pode avançar através do
progresso; mas quando houver conflito entre um e outro, temos que
estar sempre com a civilização.
Num regime democrático, essa distinção entre um bem aparente e o
própro sentido da vida tem que ser sempre encarado e respeitado, a
qualquer custo. O progresso pode ser um bem-vindo produtor de
bens para melhor servir à nossa vida; mas o sentido último de nossa
vida está na idéia de civilização, de maior bem-estar entre seres
humanos que devem coexistir apesar de sua natureza selvagem.
Construir uma civilização significa construir regras de
comportamento, uma ética em permanente aperfeiçoamento de
hábitos e costumes que sirvam a um maior entendimento, a uma
coexistência de paz entre seres humanos. A civilização faz progedir, o
progresso não civiliza nada.
Essa dialética entre civilização e progresso me ocorre sempre que
ouço ou leio essa história de que a luta contra a corrupção pública, o
processo desencadeado pela Lava Jato, está levando o país a perder
suas grandes empresas e portanto a empobrecer. O castigo a ladrões
presos e a empresas que, em detrimento do que é devido ao resto da
população, compraram com dinheiro público os serviços desses
ladrões é um gesto político civilizatório.
É impossível saber se serão bem sucedidos mas, mesmo que não
tenham sido esses seus objetivos expressos, o que os homens da Lava
Jato fazem é reorganizar a vida do país de maneira mais justa e
igualitária, com mais confiança no futuro. Uma vida mais civilizada,
não importa se não estão todos a favor da Lava Jato, torcendo por ela.
O desencanto e o desinteresse da população revelam uma falta de

ânimo, uma ausência de dopamina social, resultado de tantas vitórias
fracassadas, de tantos fracassos inúteis.
A esperteza política faz com que a virtude máxima da democracia (o
conflito democrático, que faz o mundo avançar com a vitória da razão
e do mais correto) seja sempre substituida pelo mito da unidade. E é
em nome da unidade, contra o perigo do discenso ideológico, que os
golpes mais sórdidos são executados. Como esse que se tenta agora
contra a Lava Jato, sob o argumento fariseu do “empobrecimento” da
economia.
A pregação da unidade em momento de crise visa sempre o recuo em
nome de uma paz mentirosa, contra o avanço político e moral. Para
ter unidade, é preciso que as partes abram mão de suas idéias e
assim permaneçam, no estágio anterior a elas. Na verdade, a crise e o
conflito é que são democráticos. O unitarismo, não. E é sempre ao
unitarismo que a esperteza política recorre para evitar o avanço da
democracia.
O problema urgente é que temos diante de nós outubro de 2018,
como meta para fazer democraticamente as necessárias
transformações no país. Trata-se de preparar um movimento popular
que se importe com o que as pessoas precisam. E não com siglas
partidárias, seus objetivos e interesses pessoais, financeiros ou
ideológicos. É quase uma outra revolução cultural; a revolução
cultural do extremo-ocidente, o lugar do Brasil no mundo. A
alternativa a essa revolução, só pode ser a força que ninguém quer.
Seu cansaço coletivo me dá a sensacão e a esperança de que nossa
população não quer mais saber do sebastianismo autoritário de
nossa tradição, sempre disfarçado pela conversa fiada de evitar o
pior. É sempre possível, através do conflito democrático, fazer a
sociedade avançar com a vitória da razão e da sensatez, sem apelo à
polarização burra ou ao mito da unidade que acaba servindo de
pretexto ao autoritarismo.
Ninguém nasce livre, todos já nascemos dependendo dos outros; a
nossa relativa liberdade só é conquistada ao longo da vida. Mas ela
também significa compromisso com os outros, naquilo que julgamos
convir a todos. É sempre uma ilusão considerar que existe uma
vontade coletiva, firmada em torno de uma verdade coletiva. Há, em
certa filosofia contemporânea, a idéia de que não existe a verdade,
mas sim uma versão de fatos segundo cada narrador. Vamos então

instaurar uma versão de fatos que sirva a todos e não apenas a
alguns.
Volta