O Globo
O Mediterrâneo de cada um
Carlos Diegues

Tudo tem história. Mesmo o acaso, que quase sempre comanda nossas vidas, só é acaso para nós que não conhecemos as regras de sua trajetória, que não sabemos de onde ele vem. Isso não significa que estamos condenados a ser vítimas da história, que não podemos mudá-la. Mas, para isso, não basta a nossa vontade. Precisamos também de talento, inteligência e empenho. Precisamos, sobretudo, entender o fato com que estamos lidando em suas circunstâncias.

Centenas de migrantes do Chifre da África, fugindo das guerras, da fome e das epidemias (como a de cólera, que grassa no Iêmen), pagam a traficantes de gente para levá-los, pelo Mar Mediterrâneo, às regiões menos miseráveis do Golfo Pérsico ou, melhor ainda, do sul da Europa. Eles desembarcam sem destino nas praias da Calábria ou da Sicília, quando não são jogados ao mar para que os traficantes possam esconder, dos navios de patrulha da Itália e da Espanha, sua carga proibida.

Que sentimentos os sobreviventes de tal aventura podem ter em relação ao ser humano? O que será possível cobrar deles, que têm o direito de se sentir cruelmente abandonados pelos poderes humano e divino?

Claro que essa é uma situação limite, dificil de ser comparada a qualquer outra, mesmo num mundo desatinado como o deste século XXI. São poucas as tragédias humanas capazes de rivalizar com o sofrimento desses migrantes náufragos do Mediterrâneo. Mas aqueles que sofrem injustamente têm o direito de tratar a sua dor, do tamanho que for, como a maior dor do mundo. Como diziam os gregos, “se a morte fosse um bem, os deuses não seriam imortais”.

No início dos anos 1990, a convite de organizações culturais dessas comunidades, comecei a dar palestras e debater filmes em favelas do Rio de Janeiro. No morro do Vidigal, na zona sul carioca, conheci as atividades do grupo Nós do Morro que, sob a liderança de Guti Fraga, exercia um papel de catalisador dos  talentos criativos da comunidade.

Foi ali que conheci meninos em formação nos quadros do grupo, hoje profissionais trabalhando em teatro, cinema e televisão como, por exemplo, os atores Thiago Martins, Roberta Rodrigues, Leandro Firmino  e Luciano Vidigal, entre muitos outros.

Desde minhas primeiras palestras e cursos, tinha entre meus alunos um menino simpático, calmo e atento, a que os outros chamavam de Ivanzinho. O menino não era muito de participar das discussões que o palestrante provocava, mas anotava tudo o que eu e seus companheiros dizíamos.

Logo depois, já no início desse século, ele estava no elenco do célebre “Cidade de Deus”, o filme seminal de Fernando Meirelles. E, mais tarde, se não me engano, seria um dos cineastas moradores de favela a participar da produção de “5XFavela, agora por nós mesmos”, filme que estreou com sucesso no Festival de Cannes, em 2010. Recentemente, revi Ivanzinho.

Como no “Nosso guri”, a canção de Chico Buaque, ele tinha virado “Ivan, o Terrível” em closes publicados nos jornais de todo o país, acusado de ser o chefe do tráfico de drogas de sua favela e responsável pelo assassinato de um policial, no mesmo Vidigal de sempre.

Aí me lembrei de que, bem antes disso, o Vidigal tinha se tornado um bairro cosmopolita do Rio de Janeiro, desde que a UPP tinha ali se instalado. Entre o boicote de políticos insanos e a corrupção de policiais responsáveis pela segurança local, o tráfico acabou fortalecido, destruindo o papel da UPP e voltando aos pouco a tomar conta da favela. Mais ou menos como era quando lá cheguei pela primeira vez.

Não sei se Ivan tinha sido mesmo atraído pelo tráfico ou não. Mas o que fazer quando se é jovem e se percebe que as oportunidades, que já eram poucas, vão se tornando nenhuma? Quando não se pode mais estudar o que se quer e o grupo, que existia há 31 anos, com o qual você sempre contou, está deixando de existir porque não encontra mais patrocínio dos orgãos e das empresas do governo?  Que o Nós do Morro do Guti já chegou a ter 800 rapazes e moças inscritos e hoje não chega a cem sócios?

(Aliás, se você quer ajudar o grupo e outros Ivans, contribua ligando para O21.2512.4758 ou 021.3874.9412, ou então mandando email para nosdomorro.adm@gmail.com ).

Ivan está atravessando seu Mar Mediterrâneo, vivendo um horror que só ele pode avaliar e que ainda não sabemos como vai terminar. Ele é responsável pelo que fez ou não fez, por cada um de seus gestos na vida. Mas o quanto desses gestos tem a nossa contribuição?

cacafdiegues@gmail.com


Volta