O Globo
A ascensão de Chico Estrela
Carlos Diegues

Jantei com o Batata no início dessa semana. A chuva caía forte e fria sobre a cidade, inaugurando um inverno que custou a chegar, excelente pretexto para esquentar a conversa com cafés e conhaques, adiando o fim de uma noite que me encantava com o que ele me contava e eu ouvia em proveitoso silêncio.

Conheci o Batata quando filmei na favela do Inácio, na zona norte da cidade, uma das primeiras a receber uma Unidade de Policia Pacificadora. Com forte vocação para os negócios, Batata se orgulhava de ter sido o primeiro morador do Inácio a pedir um empréstimo ao primeiro banco que se instalara na favela, graças às garantias do projeto das UPPs.  Hoje, o banco não está mais lá e o financiamento do Batata também não.

Ele acabou encontrando onde exercer com proveito sua vocação, tornando-se empresário de um artista da comunidade, jovem criador e intérprete de raps que celebravam os costumes e denunciavam os males vividos pelo povo do Inácio. O rapaz se chamava Chico Estrela e o sobrenome não fora adquirido com o sucesso em botequins e espaços culturais. Ele sempre fora Estrela, desde seu nascimento, não se sabe bem porque.

O Batata criara para Chico Estrela um estilo de se comportar e teve a imaginosa ideia de rebatisá-lo Chiquestrela, como nosso rapper passou a assinar os cartazes de seus shows, feitos à mão. Chiquestrela se tornou um astro alternativo, até que um episódio inesperado o levou mais longe.

A favela do Inácio estava sendo invadida por policiais em busca dos assassinos de um companheiro deles, morto quando bandidos o viram cometer a imprudência de sair para trabalhar vestido na farda que denunciava seu oficio. Os policiais esculachavam os inocentes moradores, sob o pretexto de que eles protegiam os traficantes assassinos. 

Chiquestrela se apresentava numa casa de shows na favela e saiu dali cantando raps inventados na hora, cujos refrões fáceis e contundentes, escorraçando os policiais,  eram repetidos por moradores encorajados por sua determinação. Os policias recuaram e, diz o povo, até os invasores cantavam os refrões de Chiquestrela.

O astro curtiu seu novo papel e se tornou um líder popular, sempre que os moradores precisavam dele, criando rimas que a comunidade reproduzia aos gritos, entre saídas pro trabalho, noites de festa e gestos de resistência. Ele improvisava raps acusando a policia e os políticos como responsáveis pela miséria da favela, cantava com humor o horror do estado de coisas. Bom negociante, o Batata tirava proveito disso e as apresentações de Chiquestrela bateram recordes de bilheteria, entre espetáculos populares.

Um dia, o delegado de polícia do bairro chamou Chiquestrela para conversar.  O rapper foi e Batata foi com ele, para protegê-lo de qualquer surpresa.

O delegado dizia que as UPPs começavam a fracassar, que era impossível manter esse luxo, uma forma pretensiosa de obter a paz nas comunidades. Os traficantes estavam voltando, graças ao fortalecimento que ofereciam a alguns policiais, uma espécie de justo salário para que os deixassem em paz. Era impossível evitar o sistema, a lei natural das coisas era essa mesma: para onde vai o dinheiro, vai junto o progresso da humanidade. O delegado achava que, se Chiquestrela topasse participar do esquema, tudo se tornaria normal, inquestionável.

Chiquestrela topou o arrego. Afinal de contas, se eles não recebessem o dinheiro dos traficantes, outros o receberiam e não o usariam em benefício da comunidade, como eles podiam fazer. Batata viu logo que, aquilo de usar os recursos doados pelos traficantes em benefício da comunidade, era uma ilusão criada para espantar a culpa. Mas Chiquestrela não quis ouvir o Batata, o declarou ingênuo.

Agora, o rapper fora visitado pelo subprefeito regional, que subiu o morro para conversar sobre as próximas eleições.  O cara trazia um recado do prefeito, que queria que Chiquestrela se candidatasse a vereador pelo seu partido. Chiquestrela ficou revoltado, se exaltou, disse que jamais aceitaria tão vergonhosa proposta. Entusiasmado, o Batata incentivou-o a evitar a corrupção fatal da política, e a não se aliar a quem quer acabar com as festas do povo, com tudo que traz alegria para a cidade.

Chiquestrela se reuniu a portas fechadas com o emissário do prefeito. O povo dansava e cantava no pátio de ensaio da escola de samba do Inácio, quando a porta da sede se abriu e Chiquestrela saiu, sorrindo para geral, com o braço sobre os ombros do subprefeito. E um sorriso para geral.  Batata se aproximou para ouvir o que Chiquestrela lhe soprou: “Deputado. Vou ser é deputado!”. Nessa parte da narração de Batata, não pude deixar de rir. É que imaginei Chiquestrela, em seu horário gratuito na televisão, anunciando seus projetos em forma de raps.

Antes de ir embora, Batata me disse em voz alta: “Vou entregar esse cara, contar tudo que sei dele. Se não fizer isso, ele acaba sendo mais um político desses que fizeram fortuna enganando e roubando o povo”. Batata então pediu seu chapéu, esqueceu de pagar sua parte na conta e foi embora, debaixo da chuva, cantarolando um rap que devia ser de seu contratado.

Sozinho na mesa, cheguei à conclusão de que aquela era uma história tão nossa e atual, que merecia ser contada por aí. Do restaurante, telefonei para um amigo roteirista de grande sensibilidade e competência, e lhe propus escrever um filme sobre Chiquestrela Chico Estrela.

cacafdiegues@gmail.com
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