O Globo
Sem poder moderador
Carlos Diegues

Cada vez que o país se polariza politicamente, como está polarizado agora, tenho receio do que pode acontecer com a escolha de seu povo. O conflito democrático, aquele em que o outro pode até ter razão, é sempre bem vindo, nos ajuda a crescer. Já a polarização é apenas irracional e burra. Ela facilita a escolha da população na direção de um rumo para o qual tem sido treinada, desde sempre, pelas oligarquias que nos dominam através dos tempos.

Temos sido educados para gostar de uma autoridadezinha em cima da gente, a nos acender a luz da verdade. De preferência, disfarçada em salvação democrática, contra os exageros dos insensatos. Ou em paternalismos que nos façam calar e, de preferência, nem pensar. Não foram poucas as vezes em que, em nome da liberdade, nós a perdemos.

Desde a criação institucional da nação brasileira, temos nos submetido a um poder superior a todos, que surge na reta final das crises como única saída. Um sebastianismo de direita, a nos colocar sob o controle de alguém muito mais forte e competente que o povo, o único capaz de salvar o povo. Que não raro, infelizmente, o reconhece.

Em 1824, a primeira Constituição do Brasil inventou o Poder Moderador, criação nossa, uma jabuticaba que nunca existiu em qualquer lei no mundo ocidental. No caso, o Poder Moderador era o Imperador, a quem cabia dirimir dúvidas e resolver conflitos, estabelecendo o que era mais justo e melhor para a nação. Nos acostumamos a isso durante quase todo o século XIX. Diante de qualquer dificuldade, tínhamos à disposição a obrigatória escolha iluminada do Poder Moderador, um eufemismo que, como tantos outros, enfeita o jardim perverso de nossa política.

Na República Velha, o Poder Moderador, não eleito e não nomeado, passou a ser os senhores de terras, sobretudo os cafeicultores paulistas. No Estado Novo, o próprio Getúlo Vargas exerceu esse papel, na voga dos autoritarismos europeus de direita e de esquerda. A partir de 1946, as Forças Armadas assumiram a voz do Poder Moderador, até a ditadura militar em que o sistema se escancara.

Agora, depois de nossa redemocratização tão sem caráter, damos ao Judiciário esse papel, para manter em equilíbrio o regime ambíguo e quase insustentável. Para isso, os Juízes, os representantes de nosso novo Poder Moderador, começam a condenar antes de investigar, mesmo que essa condenação não seja o resultado de uma sentença, mesmo que seja apenas declaratória, a afastar para sempre o político da vida pública.

A Constituição de 1988, um produto híbrido da redemocratização híbrida, já prestou seu serviço à nação, já deu o que tinha que dar. É preciso atualizá-la, introduzir nela as novidades políticas, sociais e culturais do Brasil e do mundo. Hoje, por exemplo, a internet tem um poder de representação muito maior que o Congresso. É preciso se dar conta dessa representação, introduzi-la em nossa vida pública, do jeito mais justo e eficiente possível.


Ao contrário do que se pensa, a crise que vivemos pode nos colocar na vanguarda mundial da luta contra a corrupção pública, um mal planetário (veja a França recentíssima de Macron e seus quatro ministros considerados corruptos, demitidos antes de assumirem). A crise é uma bem vinda oportunidade de o Brasil mudar de verdade e encontrar um rumo que corrija os erros e as mentiras do passado. Insisto sempre que é preciso, antes de tudo, refundar o Brasil.


=   =   =   =   =

Não existem muitos homens bons. Seria bom se existissem, mas o mundo muda nossas vidas, nem sempre deixa que sigamos nossos sentimentos, aquilo que julgamos melhor fazer ou simplesmente pensar. Somos vítimas do mundo e de suas circunstâncias, mesmo quando queremos ser generosos.

O homem bom decidiu ser bom. Ele tem emoções profundas, mas não as expressa por escândalo, e sim por discrição. Sabe que a felicidade é um sopro de alegria, não é uma gargalhada frenética. Ela, a felicidade, é uma graça que se deve receber modestamente e com cuidado. Não como um estrondo em nossas vidas, mas como um sussurro do acaso. E o projeto de felicidade só vale se estiver também ao alcance dos outros. É o que acha o homem bom.

Ele não tem opinião sobre tudo. Mesmo sabendo muito, o homem bom acha sempre que sabe menos. E pergunta mais do que afirma, para que a ilusão não o cegue. A generosidade do homem bom é irreconhecivel entre seus gestos, pois são todos eles contaminados por ela. Como se fosse melhor ser amado em silêncio.

Navegando por planíceis de gelo, o homem bom navega por nós, o que o faz sorrir satisfeito. Mas só sorrir. Não mais que isso, que o homem bom nunca exagera. Ele deseja apenas ser o que é, em paz. Meu irmão Fernando era um homem bom.

cacafdiegues@gmail.com


Volta