Publicado no jornal "O Globo", em 12 de setembro de 2005
Agora por eles mesmos
Carlos Diegues
O público do próximo Festival do Rio terá a oportunidade de assistir à estréia oficial de “Neguinho e Kika”, curta-metragem de Luciano Vidigal, cineasta ligado ao grupo cultural Nós do Morro, sediado no morro do Vidigal, zona sul do Rio de Janeiro. Nele se conta a história de um adolescente favelado, seus amores e seus embates num ambiente de despossessão e violência, através de uma narrativa ficcional que tem o frescor de alguma coisa que não vimos antes. Mais um exemplo de algo de novo que começa a despontar no horizonte do cinema brasileiro.

As novidades que caracterizaram estes últimos 15 anos de nosso cinema, desde a chamada “retomada”, vieram de uma talentosa geração de cineastas que se formou na televisão e na publicidade, do surgimento de núcleos regionais de produção e de uma onda de notáveis documentários. Esses não são fenômenos necessária ou exclusivamente brasileiros, eles estão todos, em maior ou menor grau, presentes no cinema contemporâneo universal.

Agora começa a se manifestar, entre nós, um elemento novo e único que não tem mais a ver apenas com a técnica, a ética e a estética cinematográficas, mas com o próprio sentido humano de estar no mundo.

Quando, na Europa do Renascimento, a imprensa foi inventada, ela produziu uma potencial redistribuição do conhecimento, antes privilégio de poucos protegidos da Igreja e dos barões. Novas parcelas da população se alfabetizaram rapidamente, estimuladas pela novidade que punha o saber ao alcance de muitos mais. Hoje são as novas tecnologias digitais que fazem esse papel, numa espécie de "alfabetização audiovisual" de multidões, a difusão acelerada de uma nova forma de conhecer o mundo. Uns com mais, outros com menos dom, todos agora somos (ou podemos potencialmente ser) cineastas.

Os filmezinhos feitos por militares americanos, sobre tortura de prisioneiros no Iraque, produziram uma comoção moral de conseqüências globais. Os registros da tsunami, feitos por turistas nas praias do sudeste asiático, não provocaram menos emoção que as superproduções de filmes de catástrofe. Uma camerazinha à toa deflagrou, ao registrar um funcionário recebendo propina nos Correios, nossa maior crise política dos últimos tempos.

Um cinema instantâneo, sem centro e sem controle, mais democrático, distributivo e diverso, pode estar nascendo da galáxia desses "vídeos domésticos" e de seu modo de fazer, seja pelo registro naturalista do real, seja pela interpretação deste em forma de alta ficção (visionário, Jean-Luc Godard já nos alertava, há umas três décadas atrás, na aurora da popularização do vídeo, que o mais autoral dos filmes seria aquele em que um pai filma, por exemplo, o aniversário de seu filho). Quando, há um tempo atrás, fui dar a aula inaugural do primeiro curso regular de audiovisual da CUFA (Central Única das Favelas), ainda na sua antiga sede em Madureira, pensava com receio em como deveria introduzir o assunto para mais de uma centena de jovens de comunidades carentes, com pouco ou quase nenhum acesso à educação. Para minha surpresa, parte daquele primeiro dia do curso foi tomada pela exibição de filmes já feitos pelos alunos, imagens captadas em mini-DVs domésticas e editadas em programas simples como o Final Cut, tudo muitas vezes adquirido em sistema cooperativo.

Hoje a CUFA já está em seu terceiro curso anual de audiovisual e muitos daqueles rapazes e moças, bem como outros de grupos culturais do Vidigal, da Cidade de Deus, da Maré, de Vigário Geral, da Rocinha, e por aí afora, estão trabalhando em equipes regulares de produção cinematográfica. (Alguns deles fazem parte do elenco e da equipe técnica de nosso novo longa-metragem, "O maior amor do mundo"). Mais importante que isso, eles estão produzindo, por sua própria conta, um número cada vez maior de filmes sobre eles mesmos, registros documentais ou ficcionais de suas próprias vidas e da vida em suas comunidades.

Além de “Neguinho e Kika”, filmes como “Falcões” (de Celso Athayde e MVBill), “Mina de fé” (de Luciana Bezerra), “Um dia de ambulante” (de Arthur Scherman), “O Segredo” (de Denilson Barbosa e Erick Magro), “Um ano e um dia” (de Cacau Amaral, Rafael da Costa e João Xavier), “SOS Vidigal” (de Gustavo Melo e Caví Borges), e outros, já compõem, em seu conjunto, uma cinematografia original e específica, ocupando um espaço inédito no cinema brasileiro. Em todos os sentidos, uma espécie de “cinema de periferia”, nas franjas do injusto e tortuoso desenho da sociedade brasileira.
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