O Globo
Algumas morenadas
Carlos Diegues
Conheci Jorge Bastos Moreno há relativamente pouco tempo.

Acompanhava seu trabalho de jornalista, muito antes disso, mas não

deve fazer mais do que uns cinco ou seis ou sete anos que Rodolfo

Fernandes nos aproximou e Moreno me introduziu a seu mundo

festivo. Festivo de festas claras e raras, em que o saber e o riso, em

iguais proporções, nos ajudava a entender o estado do mundo. Nas

noites de longas conversas em sua laje alegre, alimentado pela

sublime Carlúcia, eu costumava dizer-lhe que, não tê-lo conhecido

antes, tinha sido uma perda de tempo.

Moreno era mais do que um jornalista político acostumado a furos

que só ele sabia obter. Ele era um formulador de ideias para o Brasil

que tirava, com humor, do que via e lia, mais do que havia estudado

na escola em que fora sempre bom aluno.

Por iniciativa de Renata Magalhães, minha mulher e produtora,

tentamos realizar uma série inspirada em seu livro “Diário de Mora”,

extraordinário texto sobre vida, obra e fofocas de Ulysses Guimarães,

com quem ele havia trabalhado e convivido até sua morte. A série

não foi realizada porque não encontramos financiamento e ela

acabou atropelada pela produção de “O Grande Circo Místico”.

Durante sua frustrante preparação, aprendi tanto com as histórias

de Moreno, que só pensava em inventar outro projeto com ele, para

assim que terminasse o “Circo”.

Nos últimos tempos, eu havia inventado criado o termo “morenada”

para definir a qualidade jornalística de sua coluna dos sábados, esse

poder de rir ensinando, de ensinar fingindo que não está levando

nada a sério, para melhor ser absorvido pelos leitores. Ele sabia rir

do mundo à sua volta e, ao mesmo tempo, nos comover com ele.

Recentemente, tendo um programa na rádio CBN, Moreno havia me

convidado para fazer uma pergunta a Gilberto Gil, seu amigo querido

e parceiro recente, a quem ia entrevistar. Preparei com cuidado uma

pergunta baseada em longa entrevista que Gil havia dado, naquela

semana, à “Folha de São Paulo”. Fiquei com ódio quando, mal tinha

começado o programa, Moreno fazia a Gil a mesma pergunta que eu

pretendia fazer. Depois pensei que aquele era um assunto que tinha

mesmo tudo a ver com ele, eu é que devia ter adivinhado que Moreno

tinha que fazê-la.

Gil dissera à “Folha” que “Deus devia se livrar das religiões” e isso era

a cara do Moreno. Só pode ser esse o Deus de alma livre que deve

estar agora se divertindo e aprendendo em sua companhia, dando

muita risada.

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O ministro interino da Cultura, João Batista de Andrade, se demitu na

sexta-feira, justamente quando acabara de resolver um velho e

angustiante problema da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, que

funciona há 20 anos em um prédio dos Correios que pretendia agora

desalojá-la.

João Batista protesta que o MinC está abandonado pelo governo que

o deixou com apenas 43% de seu orçamento original, além de não

resolver as questões básicas de instituições que estão sendo

destruidas, como a Biblioteca Nacional, a Funarte, o Fundo Nacional

de Cultura, e muitas outras. É como se, para o governo, a cultura fosse

um enfeite secundário, que às vezes incomoda com reivindicações

desagradáves.

É uma pena que João Batista de Andrade vá embora, porque o MinC

sempre funcionou melhor quando foi comandado por artistas e

intelectuais de respeito, como ele. Gente como Celso Furtado,

Antonio Houaiss, Francisco Weffort, Gilberto Gil, Ana de Holanda,

além de seu inventor e primeiro ocupante, no governo Sarney, o

icônico José Aparecido de Oliveira.

Quando escrevo esse texto, anda não sei quem ocupará o cargo no

lugar de João Batista. Mas duvido muito que seja alguém de sua

estatura, realmente disposto a resolver os problemas da produção

cultural. Alguém que saiba que a cultura é o caráter do país que, sem

ela, é um corpo molenga e sem alma.

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Dois acontecimentos que poderiam dar boas morenadas.

Benito Mussolini organizava brigadas fascistas para constranger os

adversários com vaias e gritos, nas estações ferroviárias por toda a

Itália. Os volantes voluntários do fascismo criaram assim um costume

político autoritário. A jornalista Miriam Leitão acaba de ser vítima

desse fascismo cotidiano que toma conta de certas cabeças militantes

no Brasil, a intolerância organizada contra os que não pensam como

eles. Lembra muito a ditadura militar.

Outra morenada. Estava na cara que o prefeito Marcelo Crivella não

gosta de Carnaval. Agora a gente fica sabendo que, além disso, ele

também quer acabar com o Carnaval, mesmo tendo pedido

publicamente o voto dos sambistas na Liesa. Crivella nega os

recursos necessários ao desfile que traz tantos turistas ao Brasil. O

dinheiro que eles deixam na cidade daria para alimentar as crianças

que das quais ele afirma demagogicamente que precisa alimentar

cuidar com os recursos do samba. Esse populismo barato esconde

seu preconceito contra a festa e contra a alegria. Se Crivella tem

aversão ao Carnaval, devia ter procurado outra cidade para ser

prefeito. Não o Rio de Janeiro.

cacafdiegues@gmail.com
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