O Globo
Um avanço democrático
Carlos Diegues
Escrevo antes de encerrado o julgamento no TSE. Não conheço e não

me interesso muito pelo resultado, a não ser por curiosidade natural

de quem acompanha o noticiário. Se Michel Temer cair fora, será

substituido por Rodrigo Maia que convocará o Congresso para a

escolha do novo presidente. O Congresso escolherá certamente

alguém parecido com um dos dois. Se não escolher um dos dois.

Apesar do fervor das Diretas Já, não haverá eleições diretas antes

daquela prevista para outubro de 2018. É evidente que os que podem

decidir antecipá-la não estão a fim disso. Mesmo que estivessem, não

há tempo útil para aprovar uma reforma da Constituição e organizar

eleições imediatas. Ia acabar uma eleição embolando na outra.

A política brasileira se desmaterializou, não temos mais referências

concretas confiáveis, sejam elas a de um líder, a de um partido ou a

de uma ideia. É tudo mais ou menos parecido, no caos polarizado em

que giramos. Uma confusão de fins sem princípios contagia todas as

ações e todos os temas políticos. Os Juízes supremos se tornaram um

novo Poder Moderador, como ele era exercido pelo Imperador na

primeira constituição do Brasil, a de 1824. E se esganam diante de

nossos olhos pregados na televisão.

Como não sabemos que rumo tomar, zanzamos em torno de

sentimentos primários que cultivamos como ideologia. Voltamos aos

ódios massificados que nos enfiaram na cabeça desde tempos atrás,

dividindo o mundo em dois largos campos de pensamento único, sem

direito a qualquer nuance, muito menos contradição. Como durante o

horror da Guerra Fria, quando ou se era agente do imperialismo

ianque, ou sórdido comunista que comia criancinhas grelhadas.

Estamos perdendo tempo, prisioneiros de mitos públicos e obsessões

particulares. Os que neste país ainda pensam, tinham que estar

refletindo sobre formulação e militância além dos partidos que,

quando não vivem de propina, viram simplesmente um bom negócio:

se você conseguir juntar um certo número de assinaturas, ganha um

generoso fundo partidário, mais um tempo de rádio e televisão que

pode ser negociado com um candidato mais exequível que o seu.

A criação de movimentos populares atualizados e mais ou menos

informais, que estejam mais interessados na vida das pessoas do que

em siglas ideológicas, mudou o sentido da política na Espanha e na

Itália, fez o Reino Unido deixar a União Europeia e a França

permanecer nela. Se não formos capazes de organizar alguma coisa

que tenha a ver com esse avanço democrático, nossos próximos

eleitos não serão nada diferentes dos que aí estão, há tanto tempo.

Temos que usar a crise aguda em que vivemos como pretexto e ponto

de partida para um relançamento do Brasil como projeto, e não como

uma velha repetição do que sempre fomos, à direita ou à esquerda.

Não são as leis que fazem os costumes de uma sociedade; são os

costumes da sociedade que fazem as leis. Não dá mais para disfarçar

que nossa nobre Constituição cidadã, que organizou nossa vida

depois do autoritarismo, envelheceu e perdeu sua energia, num país

e num mundo que, apesar de tudo, mudaram e seguem mudando

todo dia. Somos penitentes de seu lancinante burocratismo, de seu

formalismo irritante, da abstração que nos impõe para nos paralizar

concretamente.

Se vamos convocar uma necessária Constituinte para 2018, ela não

pode ser exclusiva dos eternos bacharéis, sempre alugados pela

oligarquia. Precisamos, desde agora, discuti-la em função do que

somos de fato e do que sonhamos ser. Precisamos reconhecer a

existência e o poder das redes sociais da internet, não importam as

pós-verdades e as tolices rabugentas que divulgam, a dispersão inútil

que hoje estimulam. É preciso reconhecer o poder de representação

da própria internet, como foi feito com a força emergente dos

sindicatos nos anos 1950.

Voltemos a pensar as novidades políticas que as manifestações

juvenis de 2013 puseram nas ruas, antes que a boçalidade dos black

blocs e a esperteza do poder oligarca as tirassem de lá. Com elas,

podemos construir a solidez de uma democracia brasileira,

eliminando a síndrome do escravismo que herdamos e do qual

sofremos as consequências até hoje. Quem sabe, eliminemos desse

jeito nossa trágica desigualdade, mãe de nossa miséria profunda.

Em vez de ficarmos sem dormir pensando no destino de Temer e

seus ministros investigados, aproveitemos os meses que nos separam

do 2 de outubro de 2018, para preparar uma revolução sem sangue,

um novo projeto de país. Diante do que nos espera como trabalho e

empenho, temos pouco tempo, não podemos perdê-lo com velhas e

inúteis lamentações da política tradicional. Só assim o Brasil pode

mudar.

cacafdiegues@gmail.com
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