Uma declaração de amor
Carlos Diegues

Os melhores cineastas modernos já demonstraram, na prática do que fizeram, que o filme documentário não precisa ser necessariamente isento, uma racionalização distanciada do assunto que tratamos sem compromisso preliminar. Ele é um gênero cinematográfico que não está mais condenado a esse rigoroso axioma crítico que vigorou até recentemente.

O filme documentáro pode ser também uma carta de amor, a declaração de uma paixão que nós mesmos não compreendemos bem, não sabemos ou não queremos explicar. Um sentimento que está na origem da obra e do qual não podemos abrir mão. Um pouco como nesse magnífico “No intenso agora”, filme de João Moreira Salles que está na seleção do festival É Tudo Verdade, em cartaz no Rio de Janeiro e em São Paulo, dedicado a documentários nacionais e internacionais.

O amor que esse filme proclama é o mais vasto e profundo possível, indo dos reveses da humanidade moderna, exemplificados na Primavera de Praga, no Maio de 68 e na instalação da ditadura no Brasil, até a tentativa angustiada de entender a própria mãe, em registros feitos no recesso do lar ou em longínqua viagem à China e ao Japão. Mas há também uma terceira paixão, disfarçada por trás da narração: o amor ao cinema, o desejo de ser fiel à sua reconstrução, a partir desse pressuposto de sentimentos. Como na sua inusitada e brihante montagem desse filme.

Aparentemente, “No intenso agora” se apieda do destino dos derrotados em Praga, Paris e aqui. Uma piedade acentuada pela bela e competente trilha melodramática de Rodrigo Leão. Piedade que se nutre, muitas vezes, da própria voz autoral, ao mesmo tempo serena e calorosa, que nos narra pequenos acontecimentos de grande dramaticidade. Como o da cantora famosa que se aproxima de Dubcek como sua fã aflita. Ou o de estudantes patéticos, na porta da usina Wonder, tentando explicar a operários oportunistas o papel deles na sociedade. No fundo, os dois lados vivem as mesmas ilusões que os intelectuais da Sorbonne expressam antes, de modo mais sofisticado.

Em todas essas tragédias políticas da segunda metade do século XX, o único personagem realista talvez seja mesmo o então líder estudantil Daniel Cohn-Bendit, sempre rindo de tudo e de si mesmo, a declarar a certeza de que a revolução é um produto que nunca fica pronto de verdade, porque é impossivel saber o que ainda está por vir.

Em contraponto à feérie revolucionária européia em preto e branco, João Moreira Salles nos coloca diante da serena beleza em cores de uma China harmoniosa e sorridente, a China de Mao Tsé Tung e da Guarda Vermelha, cujos monumentos e paisagens é sua mãe quem filma. Ignorando a violência e a arbitrariedade por trás da Revolução Cultural, as imagens nos remetem a um mundo ideal onde, segundo as anotações da mãe que filma, meninas e meninos, a dançar por ruas e parques, têm os dedos mais finos e a pele mais suave que já se viu no mundo. É aí, nesse mundo ideal, que haveríamos de preferir viver, ao lado de uma mãe imaterial.

“No intenso agora” é uma angustiada saudação à humanidade, à sua fragilidade e à dificuldade de entendê-la. Uma celebração do ser humano partido e incompreensível, no coletivo e no particular (é tudo a mesma coisa). E, apesar de tudo, um elogio à nossa capacidade de sonhar, mesmo que esses sonhos fracassem sempre e acabem por nos angustiar. De certo modo, é dessa ideia que “No intenso agora” gera a sua grandeza.

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Já que estamos falando em de cinema brasileiro, vamos lembrar que estrearam, nas salas do país, dois novos filmes que muito merecem ser vistos. Um tem o título bizarro de “Gostosas, Lindas e Sexies”. O outro busca a simples objetividade de seu título, “Joaquim”.

No primeiro, dirigido por Ernani Nunes, quatro mulheres, de gordinhas a gordonas, trabalham com sucesso em atividades típicas da grandeza de São Paulo e se divertem, na noite paulista, com os rapazes mais jovens, fofos e bonitos da cidade. Às vezes, o exagero pode ser uma virtude. No segundo, consagrado no festival de Berlim, o diretor Marcelo Gomes nos conta a vida pessoal do alferes Joaquim José da Silva Xavier, antes de ele se tornar o Tiradentes, nosso herói nacional, montando um retrato naturalista da formação social do país. A virtude pode ser um exagero. Às vezes.

São duas formas distintas de ver o Brasil nas telas. O Brasil que se diverte como é; e o Brasil como se tornou o que é. Não importa qual deles cada um de nós prefira ver. Esses dois filmes são uma celebração de nossa abençoada diversidade.

cacafdiegues@gmail.com

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