Escrito em agosto de 2005.
50 anos de Cinemateca
Carlos Diegues
Comecei a freqüentar a Cinemateca do MAM quando ela ainda não era uma cinemateca, mas sim o Departamento de Cinema do Museu (se não me engano, era esse o nome oficial), e eu ainda estava no Colégio Santo Inácio. David Neves havia se mudado da Tijuca para Botafogo, tornando-se meu vizinho, e foi ele quem me arrastou para lá.

Até ali, minha cinefilia se concentrava nas revistas e livros que eu lia, e nos cadernos de fichas técnicas e observações críticas que eu enchia a propósito dos filmes do momento, vistos nos cinemas do bairro. Estamos falando dos anos 1950, o vídeo só chegaria ao Brasil no início da década de 1980, nossas chances de conhecer a história do cinema e ver filmes clássicos, sobretudo europeus, era portanto praticamente nula.

Minha geração de fãs vivia basicamente do que produzia a Hollywood do pós-guerra e do que os livros de Bazin, Aristarco e Salles Gomes nos contavam que existia. Foi quando o MAM criou a Cinemateca e depois Antonio Moniz Viana, um mito da crítica cinematográfica brasileira, assumiu a direção dela e começou a organizar ciclos de histórias de cinemas nacionais.

Tudo começou com o festival de cinema americano e a descoberta de filmes como “Aurora” e “Cidadão Kane”, que mudaram nossas vidas. E continuou, no ano seguinte, com o de cinema francês e a revelação dos primeiros filmes da Nouvelle Vague (prima mais velha do que seria o Cinema Novo), de “Lola Montès” e da eterna discussão entre os que preferiam Renoir a Clair, ou vice-versa. A esses se seguiram os de cinema italiano, russo e polonês.

Foi durante esses festivais e nas sessões regulares da Cinemateca (toda segunda-feira, às 18 horas, no auditório da ABI, na rua Araújo Porto Alegre), que conheci a maioria dos meus companheiros do que seria depois chamado de Cinema Novo, foi ali que fiz os melhores amigos de minha vida e comecei a viver o que melhor fiz dela.

Foi lá que, uma tarde, saindo do elevador, dei de cara com o homem mais fascinante que conheci na minha vida, Glauber Rocha, um baiano de quem já tinha ouvido falar e lido alguns artigos no Jornal do Brasil, vestido num terno escuro e surrado, a gravata torta e discreta, o cabelo desgrenhado como desde então sempre o veria. Apresentado a ele por David Neves, dali saímos os três, depois da sessão, para um chope no bar Vermelhinho, logo ali em frente, e para uma amizade da qual tenho eterna saudade.

Naquele auditório e nas prolongadas discussões depois das sessões de filmes, ali mesmo ou, noite a dentro, pelos bares e esquinas da cidade, se formou a história de uma geração de jovens cinéfilos que se tornariam cineastas e fundariam o cinema moderno no Brasil. Uma história vitoriosa de generosidade, ousadia e sonho, de certo modo parida pela Cinemateca do MAM.

Rio, 20 de agosto de 2005.
Volta