Desperdício de talentos
Carlos Diegues
Como os povos que lutam apenas por sua sobrevivência, o cinema brasileiro não tem propriamente uma história. Ele vive de acontecimentos que se sucedem em ciclos fechados que, ao se encerrarem, não deixam nenhum valor material acumulado. O próximo ciclo se abre sempre provocado por novos e inéditos fatores materiais, alimentando-se apenas dessa estranha vocação do país para a produção audiovisual.

Só em meu tempo de vida, já testemunhei o nascimento de, pelo menos, uma meia dúzia de "retomadas", da chanchada à Lei do Audiovisual, passando pela Vera Cruz, Cinema Novo, Embrafilme, Cinema Paulista dos 80, etc. Todos esses ciclos se encerram sempre melancolicamente, vítimas de desgraças econômicas ou institucionais, em geral no auge de sua criatividade, em plena maturidade cinematográfica.

Esse ano, uma nova e generosa safra de filmes brasileiros confirma que não é por falta de qualidade que a crise se instala. Ou seja, os cineastas bem que estão cumprindo seu papel, outros atores desse drama é que não devem estar cumprindo os seus. Os nossos cineastas não são os únicos responsáveis pelo futuro do cinema desse país.

O primeiro semestre ainda não acabou e 2000 já nos deu "Bossa Nova", "Hans Staden", "Villa Lobos", "Através da Janela", "Cronicamente Inviável", "O Rap do Pequeno Príncipe" e outros (cito de memória), uma produção vencedora, para todo gosto. E o Festival de Cannes, neste mês de maio, coroa essa geração de filmes, selecionando três curta-metragens ("Rota de Colisão" de Roberval Duarte, "De janela para o cinema" de Quiá Rodrigues, e "Três Minutos" de Ana Luiza Azevedo), além de "Estorvo" de Ruy Guerra, e "Eu Tu Eles" de Andrucha Waddington, duas novas jóias do cinema brasileiro.

Como todos sabem, "Estorvo" é o nosso representante na competição oficial de Cannes. Seu diretor, Ruy Guerra, chegou ao Brasil quando os primeiros filmes do Cinema Novo começavam a ser planejados, se tornando um de seus nomes mais importantes. Ele trouxe para o cinema brasileiro os conhecimentos técnicos que havia adquirido estudando em Paris, além de enriquecê-lo com um certo rigor formal e o gosto pela dissidência. Este é, sem dúvida, ao lado de "Os Fuzis", seu melhor filme.

"Estorvo" é um filme de exceção, contra a corrente hegemônica do cinema mundial contemporâneo. Seus personagens não reagem segundo uma lógica do realismo psicológico, sua câmera não é um mero aparelho de registro da encenação teatral. Seu tema, sobretudo, não é uma trama convencional qualquer, mas o próprio tempo e seu inexorável movimento rumo à morte. É surpreendente como um filme, baseado em consagrada obra literária (o romance de Chico Buarque, do mesmo título), é capaz de manter a densidade dela e, ainda assim, ser uma radical experiência de cinema.

Radical no sentido de que Ruy Guerra parece retomar a evolução do cinema de onde ele se desviou, no final do cinema mudo, para se tornar teatro filmado, folhetim discursivo, melodrama populista. "Estorvo" não é construido a partir de uma estrutura dramática que submete a fabricação de suas imagens; ao contrário, ele se organiza como um quebra-cabeças ideológico, a partir do valor de cada plano, do gosto pela construção deles como signos de uma lingua nova, desenhada com luz e movimento, como uma colagem expressionista, como em Murnau, Mizoguchi ou Mario Peixoto. Em busca permanente de imagens nunca vistas, alguns de seus planos são inesquecíveis (como, por exemplo, o de uma vaca a lamber a janela de uma viatura ou o da mão de uma menina sobre o joelho do irmão) e a beleza eficiente deles é seu principal tema. "Estorvo" é um filme que se vê com espanto.

É curioso como este olhar às melhores virtudes dos últimos filmes mudos, quando o cinema se preparava para ser uma arte inédita e autônoma, se dá também, embora de outro modo, em "Eu Tu Eles", a produção brasileira selecionada para Un Certain Regard, outra seção de Cannes. Sobretudo porque, neste caso, trata-se de um jovem cineasta, mal chegado aos 30 anos de idade, que realiza aqui seu segundo longa-metragem (o primeiro, "Gêmeas", foi lançado comercialmente, no Brasil, no início deste ano).

Andrucha Waddington vem das formas mais modernas de expressão cinematográfica, como a publicidade, o video-clipe, o documentário de televisão, e em todas elas brilhou intensamente. É absolutamente inesperado (ou sintomático!) que ele retome, com tanta força e inspiração, alguns dos melhores motes da tradição cinematográfica brasileira, de Humberto Mauro a Walter Salles, passando sobretudo por Nelson Pereira dos Santos, de quem ele é certamente legítimo herdeiro.

"Eu Tu Eles" é uma obra prima de sentimentos humanos e organização de imagens, uma rara adequação de uns e outra. Em geral, essas valores se excluem no cínico e pessimista cinema contemporâneo. O formalismo dominante é, em geral, frio e desumano; os sentimentos que ocupam as telas são, em geral, artifícios de demagogia dramatúrgica. Aqui, no entanto, sentimentos e imagens se completam e se adequam, falam um do outro para dar lugar a uma sinfonia de profunda beleza estética e moral - como propunha Abel Gance, em Andrucha Waddington o cinema é a música da luz.

Com três atores extraordinários (Lima Duarte, Stênio Garcia e Luis Carlos Vasconcellos), tendo à frente a grande Regina Casé (ela é uma das poucas estrelas brasileiras a interpretar personagens populares sem caricatura ou asco, com a nobreza e o respeito que só os grandes conhecem), "Eu Tu Eles" é, mais que um filme de amor, um filme sobre a amizade e a tolerância, o elogio da compaixão e da imperfeição humanas. Um filme radicalmente humanista, sem auto-piedade ou má consciência, com seus planos longos, seus tempos largos, seus espaços abertos, seu humor denso, sua generosa humanidade, "Eu Tu Eles" já nasce um clássico.

Diante desses dois filmes, temos sempre a sensação de que eles não poderiam serem feitos de outro maneira, em outro lugar, por outros autores. Essa garra, essa assinatura radical, enche a tela a cada segundo, não só pelo trabalho de seus diretores, como também pela riqueza, precisão e originalidade da música, da montagem, da direção de arte, da fotografia. Marcelo Durst e Breno Silveira, por exemplo, estão para Ruy Guerra e Andrucha Waddington, como Edgar Brasil esteve para Mario Peixoto, Luis Carlos Barreto para Nelson Pereira dos Santos, o grande Mario Carneiro para Paulo Cesar Saraceni e Joaquim Pedro de Andrade.

A bela trilha musical dos dois filmes ilustra bem a diferença entre eles. Em "Estorvo", a música escrita por Egberto Gismonti é um personagem vivo, intervindo nas imagens para lhes acrescentar alguma coisa que elas não contêm. Em "Eu Tu Eles", de Gilberto Gil, a música nasce, ao contrário, das imagens e da ação que elas descrevem, envolvente e adequada, consistente com o que vemos diante de nós (ressalte-se, aqui, a canção-tema do filme, uma das mais belas já escritas por Gil). Duas trilhas que reiteram que o cinema pode ser muitas e diferentes coisas ao mesmo tempo, que ele é capaz de absorver todas as diferenças e manter sua beleza.

Um cinema nacional capaz de produzir filmes como "Estorvo" e "Eu Tu Eles", não pode viver de sustos, nem no acanhamento de penetra na festa dos outros, em nosso próprio mercado. É preciso que ele se torne uma atividade permanente, sem as crises que levam aos desaparecimentos periódicos. Não é possível que se desperdice impunemente esse tanto talento, capaz de atravessar décadas e gerações, se renovando sempre.
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