Oficinas "Cinco vezes Favela, agora por nós mesmo", se iniciam na RioFilmes

          Cidadania foi o dever de casa deixado por Nelson Pereira dos Santos aos jovens diretores, técnicos e atores egressos de diferentes comunidade do Rio de Janeiro e Baixada Fluminense reunidos nas oficinas de preparação para o longa-metragem “Cinco vezes favela, agora por nós mesmos”. Com as filmagens agendadas para se iniciar no dia 29 de junho, coordenadas por Cacá Diegues, a produção, que dá sequência a um clássico do Cinema Novo, agora entra em uma fase “de estudos”, a partir de uma série de aulas com profissionais de prestígio no setor audiovisual. Os encontros acontecem diariamente na sede da distribuidora Riofilme, em Laranjeiras, até maio. Na aula inaugural (segunda-feira dia 13/4), o diretor de “Vidas secas” (1963, primeiro “professor” do grupo, abriu o circuito de debates em uma palestra lotada.

- Meu primeiro filme, “Rio 40 graus”, do início dos anos 1950, foi feito por uma equipe formada por ex-assistentes de direção, com equipamento que Humberto Mauro (um dos realizadores pioneiros do cinema nacional, diretor de “A velha a fiar”) emprestou, crédito do laboratório de revelação e distribuição de uma companhia americana, a Columbia. Mesmo assim, houve um chefe de polícia que nos interditou, alegando que o filme era comunista – lembra Pereira dos Santos, compartilhando memórias e lições com a turma. – Quando eu comecei, a única relação do Estado com o cinema era a censura. Ícone do Cinema Novo, o diretor recomendou à platéia uma dieta rica em cinema nacional. 

- Quero saber o que o meu semelhante está filmando a partir da mesma realidade em que eu vivo.

          Pereira dos Santos elogiou os roteiros de “Cinco vezes favela, agora por nós mesmos”, que conta com um coletivo de cineastas ligados a projetos de fomento cultural das periferias. Os episódios do longa serão “Acende a luz” de Luciana Bezerra (Nós do Morro); “Arroz com feijão”, de Cacau Amaral e Rodrigo Felha (Cufa); “Fonte de Renda” de Wagner Novais e Manaíra Carneiro (Cinemaneiro); “Deixa vor” de Cadu Barcellos (Observatório de Favelas); e “Concerto para violino” de Luciano Vidigal (AfroReggae).

    

     

Ruy Guerra e Walter Salles integram o corpo docente.

Para os membros desse colegiado, o encontro com o realizador de “Memórias do cárcere” (1984) alimentou reflexões estéticas e éticas. Entre os próximos “professores” estão Ruy Guerra, Lauro Escorel e Dib Lufti. Walter Salles e Fernando Meirelles também ministrarão palestras. 

- Se pensamos em colocar a câmera no set de uma determinada maneira, saímos do contato com o Nelson com uma visão que fomenta essa nossa escolha. Estamos em evolução – diz Cadu Barcellos, que, aos 22 anos, vai filmar “Deixa voar”

Ex-aluna da Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu, Caroline da Costa Barros, de 21 anos, foi assistir ao colóquio de Pereira dos Santos para adquirir mais referencias para seu trabalho na equipe de arte do novo “Cinco vezes favela”
- Quem estuda cinema valoriza tanto um encontro como este que, mesmo se não entrasse no filme, já se sentiria feliz de estar aqui. É raro poder conhecer de perto o trabalho de gente que a gente se espelha – diz Caroline.

Diegues, que, em 1961, dirigiu “Escola de samba, alegria de viver”, um dos cinco episódios do “Cinco vezes favela” original, assinado ainda por Miguel Borges, Joaquim Pedro de Andrade, Marcos Farias e Leon Hirszman, inaugurou o ciclo justificando a escolha de Pereira dos Santos para abrir o “ano letivo”.
- Nelson é o pai do cinema moderno no Brasil. Ele e o Ruy Guerra, que montou meu episódio de “Cinco vezes...“, foram os únicos diretores que nos ajudaram quando comecei. Quando terminei meu primeiro curta, mostrei ao Nelson. Eu tremia dos pés à cabeça.

Esse texto foi publicado no jornal O Globo - Segundo Caderno - na data de 15 de abril de 2009. (por Rodrigo Fonseca)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Volta