Voz da Experiencia: Para fazer cinema é preciso ter muita paciencia e obsessao, diz Cacá Diegues

RIO - Cacá Diegues fala sobre cinema brasileiro com a autoridade de quem acompanha as transformações desse mercado há meio século. Nascido em 1940, o alagoano radicado no Rio começou a rodar curtas-metragens aos 17 anos, antes de existirem faculdades dessa área no país. Integrou o Cinema Novo nos anos 60 e, nas décadas seguintes, dirigiu clássicos como "Xica da Silva" (1976), "Bye bye Brasil" (1980) e "Dias melhores virão" (1986). Nesta entrevista, Diegues esclarece aos leitores do GLOBO ONLINE que cinema é uma técnica que se aprende na escola e no exercício de sua prática, e para exercê-la, é preciso ter muita paciência e obsessão.

O diretor de filmes recentes como "O maior amor do mundo" (2006) e "Deus é brasileiro" (2002) destacou que o cinema brasileiro nunca esteve num momento tão fértil desde a Lei do Audiovisual. Confira as respostas exclusivas do cineasta para o site:

Quais as chances de um estudante sem nenhum conhecido no meio artístico, firmar carreira como cineasta? (Diego Domingues)

CACÁ DIEGUES:Depende de seu empenho no trabalho e de seu talento. Cinema é uma técnica que se aprende, na escola e no exercício de sua prática. Se a pessoa se dedicar com empenho a esse aprendizado, tem tudo para ser bem sucedido. Mas talento é um problema de cada um, na área por ele escolhida.

Qual seu conselho para aqueles que entram para a faculdade de cinema ou comunicação com o objetivo de se tornarem diretores? (Erika Blendárièn)

CACÁ: Não gosto de dar conselhos, cada um deve procurar e percorrer seu próprio caminho. Mas repito que cinema é uma técnica que se aprende quando a gente se empenha nisso. Cinema é uma atividade complexa e difícil, em todo o país do mundo. Para exercê-la, é preciso ter muita paciência e obsessão.

A vinda de diretores de TV para o cinema, traz prejuízo para o setor? (Reinaldo Pereira)

CACÁ: De modo algum. Os realizadores que vieram da TV para o cinema, de um modo geral, só fizeram contribuir com a qualidade, a diversidade e o sucesso do cinema brasileiro contemporâneo. Hoje é dificil distinguir produções audiovisuais tão próximas como o cinema e a televisão, embora seja lógico que é preciso evitar trazer pro cinema aquilo que na televisão funciona de uma maneira específica , como a dramaturgia das novelas.

Como você define o cinema nacional ou que tipo de cinema o brasileiro faz? (Jocy Barreto Rangel)

Não tenho essa definição. O filme brasileiro já foi tratado como gênero cinematográfico, mas hoje ele é parte de uma cinematografia nacional diversa, onde cabem todos os gêneros ou a contestação a eles. Talvez devamos dizer que é brasileiro todo filme realizado no Brasil, com um interesse qualquer por esse país e por seu povo.

Quando vamos e como ter um cinema auto-sustentável no Brasil? (Saulo Nogueira Machado)

CACÁ:Essa é a meta que suponho essencial para a consolidação do cinema brasileiro. Mas ela ainda não é viável, pelas condições existentes: ausência de um circuito popular de exibição, ausência de nossos filmes na televisão brasileira, ausência de uma política de exportação dos filmes, ausência de controle e ousadia no mercado de vídeo doméstico. E essas questões não podem ser resolvidas sem a participação ativa do estado.

Para transformar um filme em uma verdadeira obra de arte, além de sensibilidade, o que o cineasta precisa trazer, já que numa cultura tão dispersiva, que não "permite" reflexões apuradas pela grande massa, torna-se difícil lançar um filme histórico? (Leonardo Nunes de Couto)

CACÁ:Fazer obra de arte é um dever de todo cineasta; e ela terá sempre a limitação que ele tiver. Não gosto de subestimar o público, não acho justo. É preciso dar ao público aquilo que queremos para nós mesmos. Se a compreensão não for imediata, paciência. Um dia ela chega.

Como você decide os enquadramentos de cada seqüência? Existe um método, uma lógica adotada pela maioria dos cineastas ou é uma coisa mais livre, intuitiva e artistica? (José Pereira de Abreu Junior)

CACÁ:Cada cineasta tem seu próprio jeito de trabalhar, um método estudado ou instintivo, tanto faz. A beleza do cinema (entre muitas outras) é que não existe apenas um modo de fazê-lo, mas vários e distintos modos. De minha parte, costumo fazer sempre uma longa preparação da filmagem, com elenco e equipe técnica, para estarmos todos afinados na filmagem propriamente dita. E, aí, podermos improvisar à vontade, sem perder nunca o conceito do filme.

Qual a diferença na elaboração de um roteiro para curtas e para longas, exceto o tamanho? (Haline Santiago Thaumaturgo)

CACÁ: Não existe uma diferença essencial entre uma coisa e outra, a não ser o tempo de duração do filme. O fundamental é saber de quanto tempo você precisa para contar determinada história ou dizer o que pretende. 

Como o senhor enxerga o futuro do cinema brasileiro? (Alex da Silva Rodrigues)

Com muito otimismo quanto a seu aspecto artístico ou puramente cinematográfico; mas com certa prudência em relação à sua política econômica e institucional, que não depende apenas dos cineastas.

Você não acha que está faltando no Brasil mais cineastas de invenção, invenções de novos universos? O cinema esta muito acomodado no realismo, na tentativa de reproduzir com fidelidade máxima a vida "real". O que o senhor pensa sobre o assunto? (Paulo Tiefenthaler)

CACÁ: O realismo no cinema contemporâneo está se tornando um cânone às vezes paralisador. É claro que existem alguns cineastas que fazem do naturalismo verdadeiros poemas, cheios de humanismo e emoção, como Abbas Kiarostami ou Jia Zhang-Ke; mas é verdade também que o realismo se tornou uma moeda da globalização, capaz de ser trocada em qualquer feira internacional. E com isso, muitas vezes, a imaginação sai perdendo. Sinto certa falta dela no cinema.

Quais as expectativas para quem quer trabalhar com cinema? (Nelson Corrêa)

CACÁ:O cinema brasileiro nunca foi tão fértil desde a Lei do Audiovisual. Mais de 200 cineastas estrearam. Saímos da produção anual de três ou quatro filmes, em 1994, para 82 filmes em 2007. Só posso ser otimista quanto ao futuro. Mas cinema é uma economia complexa, sofisticada e precária, ao mesmo tempo. E não depende só dos cineastas. É preciso que poderes constituídos e sociedade queiram um cinema brasileiro.

Se Glauber estivesse vivo hoje, que tema estaria o corroendo? (Marco Fogel)

CACÁ:Glauber, quando vivo, sempre foi muito pessoal, original e inesperado. Depois de morto, então, é inútil tentar adivinhar o que estaria dizendo ou fazendo agora.

Você já pensou em refilmar alguma obra sua? Por que? (Júlio Pereira)

CACÁ: Não. Embora me sinta orgulhoso e feliz com o que já fiz, só me interesso pelo que ainda vou fazer.
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<http://oglobo.globo.com/educacao/mat/2008/07/14/_cineasta_deve_estar_preparado_para_todos_os_campos_do_audiovisual_diz_caca_diegues_ao_voz_da_experiencia-547233414.asp>  

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