Nós do Morro comemora 20 anos de fundação.
O Cinema do Nós do Morro
de Carlos Diegues
 
(com a colaboração de
Rosane Svartman
e Raoni Seixas)
 
 
 
Em meados de 1993, eu já tinha ouvido falar do Grupo Nós do Morro, quando Rosane Svartman me propôs testar alguns de seus atores para o filme “Veja esta Canção”, que começaríamos a filmar no final daquele mesmo ano. Mas não sabia direito do que se tratava, nunca tinha visto um espetáculo deles. Rosane estava trabalhando comigo naquele filme, havia escrito o roteiro de um de seus episódios e participava das filmagens como assistente de direção, encarregada do elenco. O episódio inspirado numa canção de Caetano Veloso, “Você é linda”, se passava durante o Carnaval carioca e nós precisávamos de um antagonista adolescente, com sua turma de meninos de rua. O que ela me descrevia do Grupo me parecia promissor para completar o elenco de “Veja esta Canção” convenientemente.
 
Num fim de semana, acabei indo com Rosane e minha filha Isabel, também trabalhando comigo no filme, assistir um espetáculo teatral do Nós do Morro, na favela do Vidigal. Além de me entusiasmar com os atores que vi, fiquei impressionado e emocionado com o que o Grupo me pareceu significar artística e sócio-culturalmente. No mesmo dia, tive uma conversa mais ou menos longa com Guti Fraga, tentando entender aquele mundo novo diante de mim. Com sua doce firmeza, seu romantismo pragmático, sua capacidade de falar de sonhos como se eles estivessem ao alcance imediato de nossas mãos, Guti me fez compreender que eu estava presenciando os primeiros sinais de uma verdadeira revolução cultural que, em breve, se espalharia por outras comunidades faveladas do Rio de Janeiro. E o Nós do Morro seria fagulha e alimento dessa revolução.
 
Meu conceito de Cultura Popular havia sido formado há mais de 30 anos desse encontro, no jornal estudantil O Metropolitano, no debate e na ação do CPC (Centro Popular de Cultura, da UNE) e nos primórdios do Cinema Novo, na virada agitada dos anos 1950 para os 60. Em 1961, eu havia participado de “Cinco vezes Favela”, filme em episódios como “Veja esta Canção”, dirigido por cinco jovens universitários de classe média que pretendiam mudar o mundo com seus filmes. Nossa preocupação era refletir na tela uma imagem com que o povo brasileiro pudesse se identificar, um povo específico que queríamos retratar, para mudar sua realidade. Para isso, voltávamos nosso olhar para as favelas do Rio de Janeiro e seu cotidiano sofrido, fruto de um mecanismo de exclusão vigente há quase 500 anos, agravado pelo descaso político do presente.
 
Nosso objetivo era introduzir no cinema e na cultura nacionais a questão das condições de vida desses excluídos e o valor de suas manifestações culturais, como já havia acontecido em outras artes. Ou como Nelson Pereira dos Santos tinha proposto, em sua intervenção no I Congresso Nacional de Cinema, no início dos anos 1950, inventando uma cinematografia que retratasse o povo brasileiro e reproduzisse “na tela a vida, as histórias, as lutas, as aspirações de nossa gente”. Uma proposta que Nelson confirmaria na prática com “Rio, 40 graus”, em 1955, um filme que provocaria identificação imediata entre aqueles jovens que, mais tarde, formariam a geração do Cinema Novo. Mas não tínhamos consciência de que, com “Cinco vezes Favela”, além de levantar a questão ignorada da favela, estávamos também construindo um dos pilotis fundadores daquele movimento cinematográfico brasileiro. 
 
O Nós do Morro era, para mim, um salto muito à frente daquelas nossas pretensões. Aqui, não se tratava mais de representar anseios dos outros, mas de falar em seu próprio nome, ser porta-voz de si mesmo. E um porta-voz que não pede licença, nem deseja piedade; que escancara com seu próprio talento e sua própria inteligência as portas que lhe entreabrirem; que representa os seus,  mas também avança sobre a “cultura culta” a que nunca foi suposto ter acesso; que pretende se assumir como ser humano total, individual e intransferível, independente de condições sociais ou qualquer outro tipo de restrição. Que não aceita elogios por ser pobre, mas os provoca pela exigência de qualidade de seu trabalho.
 
“Você é linda” foi o último episódio de “Veja esta Canção” a ser rodado, durante o Carnaval de 1994. A presença no elenco de atores do Vidigal, com Lucio Andrey à frente e o próprio Guti Fraga no papel de um pai, me ajudou muito, entre outros fatores, a fazer dele o mais original, experimental e ousado dos quatro episódios do filme. Um filme que me deu tanto prazer e do qual me recordo com tanto gosto. “Você é linda” foi filmado com enorme alegria e excitação de todos que participaram da produção, com um espírito juvenil de frescor e descoberta, para o qual muito colaborou o pessoal do Nós do Morro.
 
Desde então, nunca mais me afastei do Nós do Morro. Fui simples espectador de vários de seus espetáculos, dei palestras em alguns de seus cursos e sobretudo tive a colaboração do Grupo no elenco e agora também na equipe técnica de mais dois filmes meus, “Orfeu” e “O maior amor do mundo”. Atualmente, o Nós do Morro é um dos nossos principais parceiros em uma nova versão do filme do CPC, “Cinco vezes Favela, agora por eles mesmos”, totalmente escrito, dirigido e realizado por jovens cineastas de favelas cariocas. Neste novo filme, além de participação no elenco e na equipe técnica, o Nós do Morro nos fornece os diretores de dois de seus episódios, Luciana Bezerra e Luciano Vidigal.
 
“Eu sabia que ia enfrentar uma coisa muito séria em nossa sociedade que era a
questão do estereótipo”, diz Guti Fraga, o homem de teatro que decidiu dedicar sua vida a esse projeto. Guti sempre pensou na qualidade do que seria feito, sem paternalismo piedoso. “Você não cria oportunidade nenhuma com paternalismo”, diz ele, “para você comprar essa briga, só através da qualidade”. Uma qualidade que se aprimora na liberdade de criação e na oportunidade de produção. Porque a democracia não existe apenas com liberdade – é preciso liberdade mas também oportunidade para que todos possam exercê-la. E é essa oportunidade que o Nós do Morro oferece, primeiro aos jovens moradores do Vidigal e, já agora, aos de outras comunidades cariocas e da Baixada Fluminense.
 
Como não podia deixar de ser, primeiro foi o teatro. O Grupo montava espetáculos com os jovens atores recrutados na comunidade, encenando-os em espaço cedido pelo padre Leeb, um austríaco morador do Vidigal, com latas de leite transformadas em refletores. E, ainda como não podia deixar de ser, o primeiro público do Nós do Morro era formado por familiares e vizinhos de seus atores e atrizes. A partir daí, graças ao impulso de seu sucesso inicial e ao trabalho de divulgação realizado pelo próprio Guti, o teatro do Nós do Morro se expandiu, ficou conhecido do resto da cidade, até deixar de ser apenas um grupo local para se tornar uma referência teatral em todo o país. E ganhou o mundo.  
 
No início dos anos 1990, recém saída da Universidade Federal Fluminense, onde estudou cinema, Rosane Svartman entrou em contato com o Nós do Morro, em busca de atores para completar o elenco de um filme canadense, a ser rodado no Rio de Janeiro, do qual era assistente. Como o filme precisava de atores que tivessem phisique du rôle para interpretar personagens populares, alguém lhe sugeriu que os procurasse no grupo do Vidigal.
 
Tomando conhecimento do que se tratava o Grupo, Rosane se entusiasmou com o projeto e imaginou fazer um documentário sobre ele, “Testemunho Nós do Morro”. Como ela teve que viajar, o filme acabou sendo dirigido por Vinicius Reis, jovem cineasta colega de Rosane, que ficou igualmente seduzido pelo projeto. Vinicius deu voz a vários membros do Grupo que, além de interpretarem a si mesmos, se interessavam ativamente por tudo o que se passasse por trás da câmera de Estevão Ciavatta, um fotógrafo de prestígio que se ofereceu para colaborar. O documentário inaugurava assim o núcleo de cinema do Nós do Morro.
 
Como não se pode fazer bons filmes sem amar o cinema, o núcleo iniciou suas atividades com a exibição de filmes de qualidade que não eram facilmente vistos na televisão, nem circulavam com freqüência pelo circuito comercial de exibição da cidade. A discussão sobre esses filmes alertava os membros do Grupo para a estrutura de seus discursos, o modo de ver levava ao modo-de-fazer. Segundo Rosane, a colaboração da RioFilmes, então sob a direção de José Carlos Avellar, e do Centro Técnico Audiovisual (CTAV), na gestão de Roberto Leite, foi decisiva para esse aprendizado inicial. Sobretudo no fornecimento de títulos mais ou menos desconhecidos do cinema brasileiro, exibidos para o Grupo. Foram esses filmes brasileiros, curtas e longa-metragens, que formaram a cultura cinematográfica fundadora do núcleo de cinema do Nós do Morro.
 
Roteiristas, diretores, produtores, atores e técnicos de relevância no cinema brasileiro contemporâneo foram ao Vidigal ministrar aulas ou dar palestras aos alunos do Grupo, como Ruy Guerra e Karim Aïnouz. Dib Lutfi, o lendário fotógrafo e câmera do Cinema Novo, não só comandou uma oficina técnica, como também acabou fotografando e fazendo a câmera de “O jeito brasileiro de ser português”, filme realizado pelo Grupo e dirigido por Gustavo Mello. Segundo este, citado por Rosane Svartman, “ensinar é estudar”. E Gustavo tem toda razão.
 
Com esse espírito, eu mesmo participei algumas vezes desses encontros, mesmo antes da ocupação do Casarão e do patrocínio da Petrobras, que deram possibilidade ao Nós do Morro de se instalar e se aparelhar convenientemente. Além do trabalho dos atores escalados para “Veja esta Canção” e do empenho em aprender dos que participavam de aulas e palestras, o que muito me emocionava, nesses contatos com o Grupo, era a ansiedade de seus membros em se manifestar através do cinema. Eu via claramente que, para eles, o cinema não era um ornamento cultural, nem apenas um conhecimento acadêmico - mas, acima de tudo, uma forma de se realizar como ser humano e de se manifestar no mundo.
 
Episódio marcante na história do Grupo foi, a partir de 1997, o intercâmbio internacional financiado pela Comunidade Européia, com a participação de jovens cineastas e estudantes de cinema vindos da Alemanha, França, Portugal e Colômbia. A intervenção do Nós do Morro foi, mais uma vez, apoiada pela RioFilmes e pelo CTAV. Tratava-se de fazer com que jovens de todas aquelas nacionalidades realizassem juntos um filme passado no Vidigal, com elenco e equipe recrutados na própria comunidade.
 
Para os membros do Nós do Morro, esse foi um trabalho ilustrativo de sua capacidade face aos visitantes, supostamente tão melhor preparados. Sob a liderança de Rosane Svartman e Vinicius Reis, eles se impuseram como criadores e autores do projeto, e não apenas meros auxiliares em sua fabricação. O resultado foi o filme “Mala Macaca” que, como não podia deixar de ser, acabou refletindo o caráter fragmentário do projeto, sua ausência de rumo comum a todos os participantes. Mas sua realização deu aos membros do Grupo confiança neles mesmos e em sua capacidade de fabricar produtos audiovisuais, com qualidade e personalidade.
 
O trabalho cinematográfico do Nós do Morro não usava e não usa como pretexto a ação política em nome de uma identidade coletiva. Cada um de seus membros é um artista individualizado que tem que satisfazer as necessidades de seu espírito, para poder servir concretamente aos outros. Não basta comunicar o que são – o que é indispensável – é preciso também ser sincero com seus próprios sentimentos artísticos, ser fiel a si mesmo. Com isso, a política deixa de ser apenas uma eventual estratégia, se torna uma conseqüência natural do pensamento ético. Os jovens cineastas do Nós do Morro estão se preparando para exercer seu direito de cidadãos, inserindo-se no mercado de trabalho da atividade que escolheram praticar. Mas também, como eu já disse antes, para se tornarem porta-vozes deles mesmos, para que ninguém ouse falar em seu nome.
 
“O jeito brasileiro de ser português”, de Gustavo Mello, realizado em 1999, foi o primeiro filme produzido pelo Grupo, em 35mm, e foi em seguida selecionado para o  Festival Internacional de Miami. Outros filmes, realizados em outros formatos, foram feitos ao longo do tempo. “Mina de fé”, de Luciana Bezerra, inaugurou a série de prêmios do Grupo, consagrado como melhor curta-metragem no Festival de Brasília de 2004. A mesma obra ainda ganhou os prêmios de melhor filme do Festival Internacional Curta Cinema, no mesmo ano, além de ser selecionado para os Festivais Internacionais de Clermont Ferrand (França) e Berlim (Alemanha), no ano seguinte.
 
“Neguinho e Kika”, de Luciano Vidigal, ganhou, em 2005, os prêmios de melhor ficção digital do Curta Cinema e de melhor filme do Festival de São Carlos. Em 2006, o mesmo filme ganhava para seu autor o primeiro prêmio internacional do núcleo de cinema do Nós do Morro, o prêmio de direção do Festival de Marselha, na França. Em 2007, “Picolé, pintinho e pipa”, de Gustavo Mello, recebeu Menção Honrosa ABDeC no Festival Visões Periféricas, tendo feito parte também das seleções oficiais dos festivais de Huesca (Espanha), Biarritz (França), Internacional de Curtas de São Paulo, Curta Cinema e Internacional do Rio de Janeiro.
 
Alguns membros do Grupo já se destacaram nos elencos e equipes técnicas de diversos filmes da produção brasileira regular, ou em filmes do próprio Nós do Morro, como Lucio Andrey, Thiago Martins, Mary Sheila, Luciano Vidigal, Luciana Bezerra, Pierre dos Santos, Roberta Rodrigues, Arthur Scherman, Guilherme Estevam e muitos outros, alguns já premiados individualmente por seus desempenhos, como Babu Santana (Prêmio Corcovado de melhor ator, por “Estômago”, no Festival do Rio) ou Carla Severo (melhor atriz no Festival Primeiro Plano, em São Paulo, por “Mina de fé”). Além de “Veja esta Canção”, “Orfeu” e “O maior amor do mundo”, filmes como “Como ser solteiro” (de Rosane Svartman), “Geraldo Voador” (de Bruno Vianna), “Dadá” (de Eduardo Vaisman), “Cidade de Deus” (de Fernando Meirelles e Katia Lund), “Era uma vez” (de Breno Silveira) e outros, contaram com a colaboração deles.
 
Como diz Isabel Diegues, em recente ensaio sobre o assunto, os anos 1960 foram recheados de experiências artísticas que traziam a mediação da favela com o asfalto, na música popular, no teatro e no cinema. Hoje, parte da história das favelas, mesmo que não tenha sido registrada por seus próprios moradores, reflete de algum modo o que de fato acontecia. Talvez esse reflexo, como é o caso em “Cinco vezes Favela”, seja às vezes o resultado de uma ideologia generosa, porém nem sempre instrumento adequado à interpretação da realidade. Essa envolvia seres humanos e relações entre eles muito mais complexos do que então imaginava todos os humanismos triunfalistas típicos da época. Mas a ponta do véu que até então cobria essa realidade foi levantado por esses artistas “engajados”, ela foi finalmente exposta à sociedade brasileira que a ignorava.
 
Foi dessa tradição modernista que surgiu o Cinema Novo, a geração a que pertenço no cinema brasileiro. Tínhamos a pretensão de por na tela a vida do povo brasileiro, sem regras estéticas pré-estabelecidas mas com o compromisso de inventar a imagem desconhecida do Brasil, através de um cinema autoral e único. Pretendíamos fazer, do debate político sobre a sociedade, material de pesquisa da forma e do conteúdo de nossos filmes. Costumo dizer que o Cinema Novo tinha um programa muito simples, de apenas três pontos: queríamos mudar as histórias do cinema, do Brasil e do mundo. Claro que nossos filmes não mudaram em nada a realidade concreta, mas mudaram certamente o modo de vê-la, sobretudo a daquela mais próxima de nós, a do nosso país.
 
Com o passar dos anos, o núcleo de cinema do Nós do Morro absorveu e dominou o exercício das novas tecnologias digitais, como uma espécie de “alfabetização audiovisual”, do mesmo jeito que está se dando no resto do mundo. A difusão acelerada de uma nova forma de conhecer o mundo através de imagem-e-som, da informação televisiva à utilização precária do VHS, das facilidades do DVD ao dinamismo da internet, está se impondo em todos os continentes, com maior ou menor aproveitamento de seus habitantes mas ao alcance de todos eles. Apoiada nela, uma nova geração de jovens cineastas está surgindo no morro do Vidigal, assim como em tantas outras comunidades do Rio de Janeiro e do Brasil. Em nossa cidade, em São Paulo, Brasília, Recife, Fortaleza, Florianópolis, por aí afora, rapazes e moças vêm dando testemunho de suas próprias vidas através do audiovisual, contrariando os estereótipos e os clichês sobre as favelas brasileiras.
 
Como sempre digo, um cinema instantâneo, sem centro e sem controle, democrático, distributivo e diverso, sem vocação de gueto, está nascendo desses filmes ou vídeos domésticos e de seu modo-de-fazer, seja pelo registro documental do real visível, seja pela interpretação dele em forma de alta ficção. São idéias e imagens nunca vistas, capazes de fundar um cinema novo. O conjunto desses filmes será, muito em breve, um novo e inevitável marco, ponto de referência no cinema brasileiro contemporâneo, talvez o mais significativo deles. É Guti Fraga, maestro dessa orquestração no Vidigal, mestre criador do Nós do Morro, quem diz: “Estamos vivendo outros tempos, essa relação entre pessoas trocando idéias, criando para transformar as coisas, é a revolução que estamos vivendo”. Uma revolução vitoriosa.
 
  
Carlos Diegues
15 maio de 2008
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