Sobre Leon Hirszman

Em um dos episódios de “Imagens do Inconsciente”, o pintor Fernando Diniz, um de seus personagens, diz que “o acerto da matemática passa para a fantasia”. Talvez este seja mesmo o melhor modo de explicar a personalidade generosamente complexa de Leon Hirszman, realizador daquele belo filme.

Um visionário da razão, Leon sempre sonhou com um mundo ordenado a partir de seus próprios sonhos, numa negociação permanente entre a consciência e a loucura. Não a mera loucura clínica, a que nos afasta do mundo; mas, ao contrário, aquela que nos faz suportar a dor do mundo através do delírio. Uma dor que ele sempre, como todo grande artista, absorveu como sua.

Esse sempre foi o tema de todos os seus filmes, exposto sem rodeios e sem auto-piedade no último que fez, “Imagens do Inconsciente”, um dos melhores em toda a história do cinema brasileiro. A utopia de Leon, aquela em nome da qual ele viveu sua tão curta e tão generosa vida, era exatamente essa, conciliar o delírio de cada um com a felicidade de todos.

Sua vida foi um quase inexplicável emaranhado de consciência e ação, de inspiração e trabalho, de entrega e razão. Mas nunca a razão impotente tão em moda hoje, essa inteligência amarga do iluminismo broxa, os que confundem o real com o visível e acham que o mundo é isso mesmo, e que é mais prudente não se empolgar com a luz dos sonhos e da fantasia.

Esse amigo de quem sinto tanta falta, um homem tão bom que, apesar de toda a intensidade de seu discurso, nunca conseguiu produzir um só inimigo, foi, para todos nós e ao mesmo tempo, Prometeu e Orfeu. Mas não um de cada vez, a cada momento mais conveniente – e sim sempre, simultaneamente, sem descanso.

Carlos Diegues

 27 nov 07   

 

 

 

 

 

 

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