A periferia por ela mesma.

A intervenção de Regina Casé e sua equipe, através da televisão, no mundo das periferias e nas periferias do mundo, é um fato histórico e seminal. Um evento que torna visível, para a população da sociedade formal, segmentos sociais e culturais, deste e de outros países, que nunca tiveram tal exposição. Claro, esse interesse pela cultura popular e seus modos de fabricação sempre esteve, em várias ocasiões, presente em nossa cultura oficial, desde a produção erudita do modernismo até a mais recente politização de nossos teatro, literatura, música e cinema. Mas a novidade é que agora as “periferias” não desejam mais serem representadas e pretendem se tornar porta-vozes delas mesmas. No início dos animados anos 1960, uma experiência realizada pelo Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE) foi também um momento seminal nesse processo.

Em 1961, cinco estudantes universitários de classe média, membros do CPC da UNE, subiam as favelas cariocas para realizar um filme sobre um espaço social e cultural que estava, até então, quase que completamente ausente das produções artísticas brasileiras. Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade, Marcos Farias, Miguel Borges e eu, os jovens diretores dos cinco episódios do filme, vinham todos do mesmo asfalto, embora cada um tivesse sua própria visão de mundo e do que era o objeto de seus filmes. “Cinco Vezes Favela” foi um belo gesto de generosidade, um sonho de construção de uma cultura solidária, que acabou se tornando um dos pilares fundadores do Cinema Novo brasileiro. Depois de quatro décadas e meia, o Brasil é outro e o cinema brasileiro também. As circunstâncias fizeram com que o desejo de expressão própria dessas “periferias” coincidisse com o surgimento das novas e fantásticas tecnologias contemporâneas de captação e divulgação de imagens e sons. Desde alguns anos que se filma adoidado nas favelas do Rio, de São Paulo, de Brasília, pelo Brasil afora. Os jovens cineastas dessas comunidades se organizam de um modo mais ou menos cooperativo para comprar pequenas câmeras digitais e programas de edição domésticos, com os quais realizam seus filmes.

 Encontrei esse fenômeno já em marcha quando, há cerca de dez anos, comecei a dar aulas de cinema nessas comunidades. Era inevitável então que me surgisse a idéia de produzir um novo “Cinco Vezes Favela”, agora escrito, dirigido e totalmente realizado por esses jovens cineastas. Um “Cinco Vezes Favela, agora por ela”, filme feito com recursos profissionais, com vistas a um amplo mercado de exibição brasileiro e internacional. Começamos a desenvolver essa idéia com algumas organizações de comunidades, até que chegamos a um formato cuja execução já começou.

Com o apoio da Globo Filmes, que vai co-produzir o filme, e da Columbia, que vai distribuí-lo, nossa produtora, a Luz Mágica, organizou, a partir do início de 2007, oficinas de roteiro que duraram cerca de três meses. Essas oficinas foram realizadas em Cidade de Deus, com o apoio da CUFA (Central Única das Favelas); no Vidigal, com o Nós do Morro; na Maré, com o Observatório de Favelas; em Parada de Lucas, com o AfroReggae; e na Lapa, com o Cinemaneiro. Uma média de 40 a 50 rapazes e moças dessas comunidades se inscreveu em cada oficina. Os argumentos propostos por eles foram colocados em votação e o escolhido pela maioria dos membros de cada oficina acabou desenvolvido coletivamente por ela. Assim, chegamos a cinco roteiros de cerca de 20 minutos cada um, compondo um longa-metragem de enredos variados, originais e surpreendentes. Era mesmo de se esperar que essa rapaziada tivesse, de seu próprio mundo, uma visão bastante diferente da convencional. Uma visão com outro humor, quase sempre profundamente ética e com um horizonte bem claro à frente. Escolhidos os diretores de cada episódio, esses roteiros estão sendo aprimorados por eles, numa espécie de oficina permanente. Enquanto saímos em busca de recursos para completar o orçamento do filme, estamos nos preparando para começar as oficinas técnicas (direção, produção, fotografia, preparação de elenco, etc.), durante as quais os diretores de cada episódio escolherão suas equipes que serão coordenadas por profissionais de reconhecida competência. No fim desse projeto, não só teremos um filme original e certamente de grande qualidade, feito pelos próprios protagonistas das histórias que eles contam, como ainda cerca de 200 jovens de favelas cariocas preparados para o exercício do audiovisual. Não só eles estarão capacitados para entrar no mercado de trabalho (cinema, televisão, publicidade, o que aparecer), como também prontos para fazer seus próprios filmes, para ser nessa atividade, como eu disse acima, porta-vozes deles mesmos. O novo cinema que vai nascer disso será certamente a grande próxima novidade do cinema brasileiro.    

 Cacá Diegues

Rio, nov 07

 

 

 

 

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