"O cinema nao acabou."

A imprensa brasileira andou dando destaque e repercutindo uma recente entrevista do diretor inglês Peter Greenway, onde ele afirma que o cinema acabou, que o cinema hoje não passa de “um dinossauro”.


Não entendo o interesse provocado por  afirmação tão tola. Trata-se da velha sinistrose de certo esnobismo intelectual europeu, de um mal-disfarçado conservadorismo ideológico, com medo do novo, de não saber o que fazer com ele.

Ao contrário do que diz Greenway, o cinema está hoje num estado crítico grávido de muitas novas idéias estéticas e tecnológicas, espalhadas pelo mundo inteiro.
Até a segunda metade do século 20, o cinema era um privilégio dos países ricos e industrializados, como os Estados Unidos, a Europa Ocidental e o Japão. Hoje filma-se no mundo todo, da Tailândia ao Paraguai, do Mali à Romênia.

E, o que é mais importante, em segmentos inesperados dessas sociedades (como o cinema de periferia, que começa a se levantar como uma onda em todo o Brasil).
Algumas cinematografias nacionais consolidadas, como França e Japão, já detêm a maior fatia de seu próprio mercado. Em outras cinematografias nascentes, sem nenhuma tradição, como Nigéria e Coréia do Sul,  também já ocorre o mesmo.

As diferentes novas formas de captação e difusão de imagens estão se multiplicando velozmente, criando a possibilidade de um novo cinema, uma oportunidade ainda mais radical do que aquela que deu origem às mudanças posteriores ao advento do som, da cor, do scope, do estereofônico, de todos os avanços do cinema que provocaram essas mesmas lamúrias fúnebres, vindas dos Greenway de cada época.

E, pela natureza delas, essas novas tecnologias de hoje apontam para um cinema mais socialmente democrático, esteticamente diverso e comercialmente múltiplo.

É a isso que temos que nos dedicar, antecipando-nos a essa nova era, sem medo do que pode vir por aí, caindo de boca nela e inventando, no Brasil,  a nossa própria forma de absorver essas novidades na criação, produção, difusão e consumo de nossos filmes.

A "estética da fome" não existiria sem as tecnologias de ponta de então, importadas pelo cinema novo (película mais sensível, câmeras mais leves, gravador portátil, etc.).  No festival de Cannes de 1969, há portanto 40 anos, Jean-Luc Godard anunciou, como agora faz Greenway, o fim do cinema ("espero com otimismo pelo fim do cinema", dizia ele) e a necessidade de apressar esse fim, destruindo-o de uma vez.  Ao que Glauber respondeu na bucha que, no Brasil, como não temos nada, não temos nada a destruir e sim tudo a construir.

Como escreveu Jean-Michel Frodon, editor dos Cahiers du Cinéma, vamos acabar com "o boato sinistro da decadência do cinema". O cinema está vivo, muito mais vivo do que nunca, em novas formas de materializar os filmes, em novas visões, sonhos e linguagens que tudo isso gera, pelo mundo afora.

É sobre isso que temos que pensar, sem medo do futuro, sem inventar alibis para justificar nossa eventual impotência diante do que tememos ou do que não conhecemos, como faz Greenway (aliás, um grande cineasta).

Nosso dever e nosso prazer tem que ser o de preparar o cinema brasileiro para antecipar-se a essa nova era.

Carlos Diegues

Agosto 07 

 
Volta