Cacá Diegues é convidado para curadoria de cinema nos jogos Pan-americanos.

O espelho do mundo  

  O mundo em que vivemos hoje se caracteriza pela crescente importância do conhecimento como instrumento de hegemonia de nações e de grupos sociais no interior delas. Cada vez mais, é desse mecanismo que se alimenta o poder concentrado, a imposição do modo-de-viver de uns sobre o de outros, a produção que faz uma economia ser mais forte que a outra.

  Mas quando este conhecimento é compartilhado, quando ele aproxima uma nação da outra, estimulando o interesse e o respeito pela diferença, é através dele que se promove uma melhor distribuição da felicidade entre os homens. É a isso que chamamos de civilização e o instrumento deste compartilhamento é, antes de tudo, a comunicação.

  Quando, na Europa do Renascimento, a imprensa foi inventada, ela produziu uma potencial redistribuição do conhecimento, antes privilégio de poucos senhores isolados em seus castelos e mosteiros. Novas e grandes parcelas da população européia se alfabetizaram rapidamente, estimuladas pela nova tecnologia inventada por Gutemberg, que punha o saber ao alcance de muitos mais, uma revolução material de conseqüências espirituais.

  Como aquela, uma outra e inédita revolução do conhecimento emergiu, desde que o cinema foi inventado no final do século 19, como uma nova onda civilizatória que deságua agora nas recentes tecnologias digitais, no avanço da informática, na universalidade da internet. Neste início do século 21, estamos assistindo a uma espécie de formidável “alfabetização audiovisual” de multidões, a difusão acelerada de uma nova forma de conhecer o mundo através de imagem-e-som.

  Tendo iniciado esta revolução, este novo modo de conhecer o mundo, o cinema se tornou uma ponte, já secular, entre hábitos e costumes distintos. Ele não é só um espelho para que cada sociedade conheça seu próprio rosto, mas também para que cada um de nós se reconheça no mais distante, e os mais distantes se entendam mutuamente. O cinema não se limitou a registrar a história do século 20, mas foi sobretudo responsável pela invenção de grande parte dele. Hoje, todos nós, em todos os quadrantes do planeta, falamos, comemos, gesticulamos, vestimos, amamos, consumimos a vida e até jogamos nossos jogos, do jeito que ele nos ensinou a fazer. 

   Cada filme, além de ser o protótipo único de uma obra de arte, é capaz também de revelar quem somos, as pessoas que o fazem e o grupo humano de onde ele vem. Quando compramos um ingresso para ver um filme, estamos comprando uma história, costumes, produtos, uma visão de mundo e seus heróis. Não é à toa que o filme fundador da grandeza de Hollywood se chamou “O Nascimento de uma Nação”. O cinema é uma arqueologia viva da sociedade humana de onde o filme vem.

 

  As Américas têm uma bela tradição na história do cinema. E, mais do que isso, elas compõem uma área geográfica em que esse velho patriarca do audiovisual hoje rejuvenesce, se manifestando de forma surpreendente e original, arriscando novas formas de linguagem, um novo compartilhamento do conhecimento entre os homens, a serviço do imaginário humano e do registro da realidade, na chave específica de nosso continente mestiço. Um continente onde já se filma em praticamente todos os seus países, mesmo naqueles que raramente fizeram esta experiência no passado, que nunca tiveram uma prática regular de produção cinematográfica.

 

     É preciso não esquecer nunca que, além do conhecido e glorioso passado do cinema estado-unidense, brotou desde sempre nas Américas uma seara de gênios consagrados na história do cinema mundial, como os mexicanos Emilio Fernandez e Arturo Ripstein, os cubanos Santiago Alvarez e Tomás Gutierrez Aléa, os argentinos Leopoldo Torre Nilsson e Fernando Solanas, os brasileiros Humberto Mauro e Glauber Rocha, e tantos outros espalhados pelas nações de todo o continente. Se a economia de cinema nos países latino-americanos sempre se caracterizou por ciclos, resultado de um estado crítico permanente, a criatividade de seus cineastas nem por isso perdeu sua grandeza,  não deixou nunca de ser generosa e poderosa, capaz de chamar a atenção do resto de todo o mundo. 

 

   A filmografia histórica das Américas deve ser, para nós, apenas um ponto de partida para o reconhecimento de nossas afinidades. Na verdade, no mundo de uma só humanidade, como é hoje o nosso planeta, talvez nos caiba dar um exemplo de solidariedade e cooperação afirmativa entre nós, pan-americanos, povos unidos pela fatalidade da geografia e pela escolha da fraternidade. Talvez seja esse o papel de nosso cinema hoje – o de nos conhecermos uns aos outros, aceitarmos nossas diferenças e fazer delas a nossa força. Essa é a mensagem que o mundo em crise espera de alguém – e ela pode vir de nós.

 

   Afinal de contas, nossa originalidade como seres humanos, a originalidade de nossa espécie, é a de sermos os únicos animais a ter a consciência de estar no mundo e o desejo insaciável de mudá-lo. É para isso que nos comunicamos uns com os outros, e essa comunicação de conhecimento é a fonte da civilização que desejamos construir. Para cumprirmos essa missão, não existe instrumento mais belo do imaginário humano do que o cinema.

 

                                                                              Carlos Diegues

Rio de Janeiro

Junho 2007

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